A estranha história das Crianças Verdes

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1937
A misteriosa história das Crianças Verdes de Woolpit
A misteriosa história das Crianças Verdes de Woolpit

Durante o atribulado reinado do rei Estêvão de Inglaterra (11351154) deu-se uma estranha ocorrência na aldeia de Woolpit, perto de Bury St. Edmunds, em Suf-folk. Na época das colheitas, enquanto os ceifeiros trabalhavam nos campos, duas crianças pequenas emergiram de umas valas profundas escavadas para apanhar lobos, conhecidas como wolf pits (daí o nome da aldeia). As crianças, um rapaz e uma rapariga, tinham a pele tingida com um tom esverdeado e usavam roupas de uma cor estranha, feitas com materiais incomuns. Elas vaguearam atónitas durante alguns minutos antes de serem levadas à aldeia pelos ceifeiros, onde os locais se juntaram para as observarem. Ninguém conseguia compreender a língua que as crianças falavam, por isso foram levadas para a casa do proprietário local, Sir Richard de Calne, em Wikes. Aí começaram a chorar e durante alguns dias recusaram-se a comer o pão e outra comida que lhes foi oferecida. Mas quando lhes foram levados feijões acabados de colher, com os caules ainda agarrados, as crianças esfomeadas fizeram desesperadamente sinal de que os desejavam comer. Contudo, quando as crianças pegaram nos feijões elas abriram os caules em vez das vagens e, como nada encontraram no seu interior, recomeçaram a chorar. Depois de lhes mostrarem como obter os feijões, as crianças sobreviveram durante muitos meses graças a esse alimento até ganharem gosto pelo pão.

Com o passar do tempo, o rapaz, que parecia ser o mais novo dos dois, ficou deprimido, adoeceu e morreu. Mas a rapariga adaptou-se à nova vida e foi baptizada. A sua pele perdeu gradualmente a cor verde original e tornou-se numa jovem saudável. Ela aprendeu a língua inglesa e casou depois com um homem em King’s Lynn, no condado vizinho de Norfolk, acabando por «ter uma conduta bastante devassa e imoral». Algumas fontes afirmam que ela tomou o nome de Agnes Barre e que o homem com quem casou era um embaixador de Henrique II. Também se diz que o actual conde de Ferrers é seu descendente. As provas para isto são pouco claras, pois o único embaixador que se consegue descobrir nesta época com este nome é Richard Barre, chanceler de Henrique II, arquidiácono de Ely e um juiz real no final do Século XII. Depois de 1202, Richard reformou-se para se tornar num clérigo agostiniano em Leicester, por isso parece improvável que fosse o marido de Agnes.

Crianças Verdes
Crianças Verdes

Quando lhe perguntaram acerca do seu passado, a rapariga só conseguia relatar vagos pormenores do local de onde viera e de como chegara a Woolpit. Ela afirmou que o rapaz era seu irmão e que tinham vindo da «terra de São Martinho», onde se vivia numa penumbra perpétua e todos os habitantes tinham uma tez verde, tal como ela tivera. Ela não tinha bem a certeza de onde se localizava a sua pátria, mas uma outra terra «luminosa» podia ser vista do outro lado de um «rio considerável» que a separava da sua. Ela lembrava-se de que um dia ela e o irmão tomavam conta dos rebanhos do seu pai nos campos e seguiram-nos até uma caverna, onde ouviram o som de sinos a tocar muito alto. Hipnotizados, vaguearam pela escuridão por muito tempo até chegarem à entrada da caverna (presumivelmente a vala dos lobos), onde ficaram imediatamente cegos pela brilhante luz do Sol. Deitaram-se entorpecidos durante bastante tempo, até que o ruído dos ceifeiros os aterrorizou e tentaram fugir, mas não conseguiram localizar a entrada da caverna até serem apanhados.

Existirá alguma verdade por trás desta história extraordinária, ou deverá ficar na lista das muitas maravilhas fantásticas enumeradas pelos cronistas da Inglaterra medieval? As duas fontes originais são ambas do Século XII. A primeira é William de Newburg (11361198), um monge e historiador inglês de Yorkshire. A sua obra principal, «Historia rerum Anglicarum» (História dos Assuntos Ingleses), é a história de Inglaterra entre 1066 e 1198, na qual ele incluiu a história das crianças verdes. A outra fonte é Ralph de Coggeshall (morreu por volta de 1228), que foi o sexto abade da Abadia de Coggeshall, em Essex, entre 1207 e 1218. O seu relato sobre as Crianças Verdes está incluído no «Chronicon Anglicanum» (Crónica Inglesa) para a qual contribuiu entre 1187 e 1224. Como pode ser visto pelas datas, ambos os autores registaram a ocorrência muitos anos depois de supostamente ter acontecido. O facto de não haver qualquer referência às Crianças Verdes nas Crónicas Anglo-Saxónicas, que lidam com a história da Inglaterra até à morte do rei Estêvão, em 1154, e inclui muitas das maravilhas mais populares da época, pode indicar que o incidente teria ocorrido mais provavelmente no início do reinado de Henrique II do que no do rei Estêvão.

Ralph de Coggeshall, que vivia em Essex, o condado vizinho de Suffolk, certamente teria tido acesso directo às pessoas envolvidas no caso. Com efeito, ele afirma na sua crónica que ouviu o próprio Richard de Calne, que foi patrão de Agnes, contar-lhe várias vezes a narrativa. Pelo contrário, William de Newburgh, que vivia num remoto mosteiro em Yorkshire, não teria tido conhecimento destes acontecimentos em primeira mão, apesar de ter utilizado fontes históricas contemporâneas, como é óbvio quando diz: «Eu estava tão abismado com o peso de tantas e tão competentes testemunhas.» A história das Crianças Verdes permaneceu na imaginação popular ao longo do tempo, como é testemunhado pelas referências a esse assunto em «A Anatomia da Melancolia», de Robert Burton, escrito em 1621, e uma descrição baseada nas fontes do Século XII em «A Mitologia das Fadas» (1828), por Thomas Keightley. Houve até um suposto segundo avistamento de Crianças Verdes num lugar chamado Banjos, em Espanha, em Agosto de 1887. Contudo, os pormenores deste acontecimento são praticamente os mesmos do caso de Woolpit e a história parece ter origem em John Macklin com o seu livro «Destinos Estranhos» (1965). Em Espanha não existe qualquer terra chamada Banjos e o relato é meramente uma reprodução da história inglesa do Século XII.

Crianças Verdes
História extraordinária das Crianças Verdes

Foram avançadas várias explicações para o enigma das Crianças Verdes de Woolpit. As mais excessivas afirmam que as crianças eram originárias de um mundo escondido no interior da Terra, ou que tinham de alguma forma passado por um portal de uma dimensão paralela, ou que eram extraterrestres que chegaram acidentalmente ao nosso planeta. Um dos apoiantes da última teoria é o astrónomo escocês Duncan Lunan, que sugeriu que as crianças eram extraterrestres transportados por equívoco para a Terra a partir de outro planeta devido a uma avaria num transmissor de matéria. Uma lenda local liga as Crianças Verdes com o conto popular das «Crianças na Floresta», publicado pela primeira vez em Norwich, em 1595, provavelmente no cenário da floresta de Wayland, perto da floresta de Thetford, na fronteira entre Norfolk e Suffolk. A história diz respeito a um conde medieval de Norfolk que era tio e guardião de duas pequenas crianças, um rapaz de três anos e uma menina mais nova. Para poder herdar o seu dinheiro, o tio contrata dois homens para as levarem para a floresta onde as iriam matar, mas eles não conseguem consumar o acto e abandonam-nas na floresta de Wayland, onde acabam por morrer de fome e frio. A variação de Woolpit leva a história para o bosque local, mesmo à saída da aldeia, e aí as crianças sobrevivem a uma tentativa de envenenamento com arsénico e acabam por emergir em Woolpit Heath, onde são encontradas pelos ceifeiros. O arsénico foi apontado por algumas pessoas como a causa da tez verde da sua pele. Não podemos descartar a possibilidade de se tratar das verdadeiras crianças da floresta que no Século XII inspiraram o conto popular.

A explicação com maior aceitação no momento presente foi avançada por Paul Harris em Fortean Studies (1998). A sua teoria é basicamente a seguinte: antes de mais, a data do incidente é avançada para 1173, no reinado de Henrique II, o sucessor do rei Estêvão. Nesta época tinha havido uma emigração continuada de tecelões e mercadores flamengos (do Norte da Bélgica) para Inglaterra desde o Século XI e Harris afirma que, após a subida de Henrique II ao trono, estes emigrantes foram perseguidos, culminando na batalha de Fornham em Suffolk em 1173, onde milhares foram massacrados. Ele colocou a hipótese de as crianças serem flamengas, e terem provavelmente vivido na aldeia de Fornham St. Martin ou por perto, daí as referências a S. Martinho na sua história. Entre as duas aldeias, que ficam a poucos quilómetros uma da outra, corre o rio Lark, provavelmente o «rio bastante considerável» mencionado pela rapariga no seu relato. Depois de os seus pais terem sido mortos no conflito, as duas crianças fugiram para a densa e escura floresta de Thetford.

Harris propôs que se as crianças tivessem lá permanecido escondidas durante algum tempo, sem comida suficiente, poderiam ter desenvolvido clorose devido à má nutrição – daí a tez esverdeada da pele. Ele acredita que mais tarde as crianças seguiram o som dos sinos da igreja de Bury St. Edmunds e vaguearam até uma das muitas passagens para minas subterrâneas que faziam parte de Grimes Graves, minas de pedra de isqueiro que remontam a mais de quatro mil anos no período Neolítico. Ao seguirem as passagens subterrâneas acabaram por emergir em Woolpit e aí as crianças, confusas e num estado de má nutrição, com roupas exóticas e falando a língua flamenga, pareceriam estranhos aos aldeãos, que nunca tinham tido contacto com o povo flamengo.

A engenhosa hipótese de Harris sugere decerto respostas plausíveis a muitos dos enigmas do mistério de Woolpit. Mas a teoria dos órfãos flamengos perdidos, como justificação para a história das Crianças Verdes, não coincide em muitos aspectos. Quando Henrique II subiu ao trono e decidiu expulsar do país os mercenários flamengos previamente empregues pelo seu antecessor, os mercadores e tecelãos flamengos que viviam em Inglaterra há muitas gerações não seriam afectados. Na batalha da guerra civil de 1173, em Fornham, foram mercenários flamengos, pagos para lutarem contra os exércitos do rei Henrique II, que foram massacrados juntamente com os cavaleiros rebeldes ao lado dos quais lutavam. Estes mercenários dificilmente trariam consigo as respectivas famílias. Depois de serem derrotados, os soldados flamengos sobreviventes espalharam-se pelo campo e muitos foram atacados e mortos pelas populações locais. Decerto que um proprietário como Richard de Calne ou alguém da sua casa teria educação suficiente para reconhecer que a língua que as crianças falavam era o flamengo. Afinal de contas, esta língua deve ter sido bastante comum no Leste de Inglaterra nesta época.

Woolpit
Woolpit

A teoria de Harris, de que as crianças se esconderam na floresta de Thetford, ouviram os sinos de Bury St. Edmunds e assim foram guiadas por passagens subterrâneas até Woolpit, também tem incongruências geográficas. Primeiro, Bury St. Edmunds fica a quarenta quilómetros da floresta de Thetford; as crianças não conseguiriam ouvir sinos de igreja a tal distância. Mais ainda, as minas estão limitadas à área da floresta de Thetford, não existindo passagens subterrâneas que levem até Woolpit e, se houvesse, são quase cinquenta quilómetros de distância entre a floresta e Woolpit, uma caminhada impossível para duas crianças esfomeadas. Mesmo que as Crianças Verdes tivessem vindo de Fornham St. Martin, ainda é uma caminhada de dezasseis quilómetros até Woolpit, e quanto ao «rio considerável» mencionado pela rapariga, o rio Lark é demasiado estreito para ser referido dessa maneira.

Há muitos aspectos na lenda de Woolpit que podem ser encontrados nas crenças populares de Inglaterra, pelo que algumas pessoas vêem as Crianças Verdes como personificações da Natureza relacionadas com o Homem Verde ou Jack-in-the–Green do folclore inglês, ou até o Cavaleiro Verde do mito arturiano. Talvez as crianças estejam relacionadas com os duendes e as fadas que até há um ou dois séculos faziam parte das crenças de muitas pessoas do campo. Se a história das Crianças Verdes é um conto de fadas, então tem a peripécia pouco comum da rapariga que nunca regressou ao seu lar em outro mundo, mas que permaneceu casada e vivendo como uma mortal. Talvez o comentário algo enigmático de Ralph de Coggeshal, quando disse que a rapariga tinha «uma conduta bastante devassa e imoral», sugerisse que ela tinha mantido algum do seu carácter mais selvagem de fada. A cor verde foi sempre associada a outro mundo e com o sobrenatural.

O gosto das crianças por feijões verdes sugere mais uma ligação com o outro mundo, pois dizia-se que os feijões eram o alimento dos mortos. Na religião romana, a Lemúria era um festival anual em que as pessoas faziam oferendas de feijões para exorcizarem os espíritos malignos dos mortos (os Lemures) das suas casas. Na Grécia, em Roma e no Egipto da antiguidade, bem como na Inglaterra medieval, acreditava-se que os feijões continham as almas dos mortos.

Apesar de a história de Woolpit fazer parte de duas fontes do Século XII, não podemos esquecer que as crónicas da época, apesar de descreverem acontecimentos políticos e religiosos, também enumeravam muitos sinais, maravilhas e milagres que hoje não seriam aceites, mas que na época eram tidos por verdade, mesmo por homens e mulheres educados. Então o estranho aparecimento das Crianças Verdes talvez fosse um símbolo de tempos conturbados e de mudança, misturado com a mitologia e as crenças populares locais sobre as fadas e a vida para lá da morte. Seja qual for a verdade, a menos que se consiga identificar os descendentes de Agnes de Barre, como já foi sugerido, ou se descubra novas provas documentais, a história das Crianças Verdes irá permanecer como um dos mistérios mais intrigantes de Inglaterra.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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