Retratos de um Apartheid Médico (Parte 4): África do Sul: “um país óptimo para a SIDA"

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Mapa da Africa do Sul
Mapa da Africa do Sul

De acordo com a OMS, as implicações desse fenómeno para a Saúde pública “são inquietantes e já estão a aparecer”. Por serem pobres e sofrerem incómodos de Saúde mais prementes, poucos pacientes são tratados. Inevitavelmente, sofrem mais complicações do que os pacientes bem tratados do Ocidente. Isto oferece uma oportunidade para os testes industriais. Para provar que um remédio para o coração funciona, por exemplo, é preciso mostrar que quem não toma esse remédio sofre mais “eventos” — sejam ataques cardíacos ou mortes — do que quem toma o remédio. Os testes nos países pobres podem completar-se muito mais depressa. Como observou um executivo de uma companhia de testes clínicos, durante uma conferência sobre a adequação dos países pobres para testes clínicos: “se não houver eventos suficientes, você nunca vai terminar o seu teste”.Outro executivo de companhia de testes clínicos afirmou: “A África do Sul é um país ótimo [para SIDA]”, por causa do grande número de pacientes infectados pelo HIVainda não tratados com drogas anti-virais. Com freqüência os fabricantes de drogas ficam frustrados em suas tentativas de provar que as novas drogas funcionam nos corpos impregnados de medicamentos dos ocidentais testados. Há tantas drogas nos seus organismos que é cada vez mais difícil observar o efeito do composto experimental. Assim, os pacientes-virgens – pessoas doentes pobres demais para obter tratamento médico – são altamente valorizados nos testes clínicos.

Mas o grande atractivo para a localização dos testes em países mais pobres é a rapidez. Na indústria farmacêutica de hoje, onde os fabricantes de remédios manobram para ser os primeiros do mercado com a última insulina aspirada ou o novíssimo anti-depressivo, a velocidade é essencial. Nos países ocidentais, recrutar um número suficiente de voluntários para testes pode levar meses e até anos. Nos países em desenvolvimento, o recrutamento é rápido. Na África do Sul, a Quintiles alistou três mil pacientes para testar uma vacina experimental em nove dias. Em doze dias, recrutou 1.388 crianças para outro teste. Além do mais, no Ocidente, de 40% a 60% dos inscritos são instáveis e acabam abandonando os testes clínicos, incomodados por efeitos colaterais desagradáveis ou pelo inconveniente de se deslocar até a clínica. Em lugares como a Índia, as companhias de testes clínicos dizem que conservam 99,5% dos voluntários inscritos [1].

Não é fácil para os fabricantes de drogas ocidentais levarem o seu negócio de testes clínicos para os países pobres. Muitas vezes, eles precisam traduzir Documentos, equipar clínicas e hospitais sem recursos, treinar os médicos locais e lidar com uma burocracia estrangeira e frequentemente corrupta. Mas, apesar desses desafios, para a maior parte dos grandes fabricantes de drogas, realizar as experiências em países em desenvolvimento tornou-se uma necessidade. Empresas que oferecem consultodoria sobre como realizar testes nesses países floresceram, tornando-se uma indústria secundária.

[1] A rapidez com que as listas são completadas e o grande número de inscritos são informados em sites das Organizações de Contratos de Pesquisa (CRO). Ver, por exemplo www.quintiles.com e, também, “Lifting India’s Barriers to Clinical Trials”, CenterWatch, Agosto de 2003.

Continuação: 

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