O Calendário Maia, segundo Brian Haughton

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Calendário Maia: um dos mais complexos e precisos que o ser humano já produziu
Calendário Maia: um dos mais complexos e precisos que o ser humano já produziu

Os Maias eram uma civilização mesoamericana notavelmente sofisticada, cujo território ocupava a actual Guatemala, o Belize, as Honduras, El Salvador e os estados de Tabasco, Yucatán e Quintana Roo no Sudeste mexicano. Os seis séculos entre cerca de 250 e 900 d. C. foram o período clássico da cultura maia, quando os seus feitos artísticos e intelectuais estavam ao nível de qualquer civilização pré–colombiana nas Américas. Os Maias foram o primeiro povo americano a manter registos históricos, muitos dos quais eram esteias adornadas (monumentos de pedra) que continham registos de eventos civis, do calendário maia e conhecimentos astronómicos. O exemplo supremo dos feitos culturais maias talvez seja o seu extraordinariamente intrincado sistema de calendário, que teve uma grande influência sobre o posterior calendário asteca. Este calendário tornou-se significante de uma forma agoirenta no início do Século XX, pois, de acordo com uma leitura das suas datas, no solstício de Inverno (por volta de 21 de Dezembro) de 2012 iria ocorrer uma inundação catastrófica e o mundo seria destruído.

Os calendários são geralmente baseados em eventos astronómicos, como o ciclo solar e lunar, dos planetas e das estrelas. As Civilizações Antigas dependiam do movimento aparente destes corpos ao longo do céu para estabelecerem as suas estações, meses e anos, com os sacerdotes-astrónomos prenunciando o advento de um novo período. Tais calendários eram, e ainda são, utilizados para organizar as actividades agrícolas, a caça e as migrações, bem como determinar datas para eventos públicos e religiosos. Uma das primeiras culturas a criar um calendário foi a dos Sumérios, que habitaram o Sul da Mesopotâmia há cerca de cinco mil anos. O calendário sumério, mais tarde herdado pelos Babilónios, dividia o ano em meses de trinta dias, separava o dia em doze períodos (cada um com o equivalente a duas horas) e dividia estes períodos em trinta partes (cada com quatro minutos).

Calendário Maia
Calendário Maia

O calendário egípcio original parece ter derivado dos ciclos lunares, mas foi mais tarde substituído quando os Egípcios repararam que a estrela Cão (Sírius, na constelação do Grande Cão) subia com o Sol a cada 365 dias, precedendo as cheias anuais do Nilo por alguns dias. Baseados no conhecimento da subida heliacal de Sírius, eles instituíram um calendário de 365 dias que parece ter começado em 4236 a. C., possivelmente a primeira data registada na História. O ano egípcio consistia em doze meses com trinta dias cada e cinco dias adicionais no final do ano. Os meses eram divididos em três períodos, ou semanas, de dez dias cada. O calendário Juliano, um calendário solar estabelecido em 46 a. C. por Júlio César, continha um ano regular de trezentos e sessenta e cinco dias, divididos por doze meses com um dia adicional em Fevereiro de quatro em quatro anos. Este foi o calendário-padrão na Europa até ao estabelecimento do calendário gregoriano, mais preciso, em 1582.

Os calendários da América pré-colombiana, incluindo os dos Maias e dos Astecas, partilhavam muitas características básicas, como o ano ritual com duzentos e sessenta dias. O calendário maia, o centro da sua vida e da sua cultura, foi baseado não só no Sol e na Lua como também nos ciclos do planeta Vénus e da constelação das Plêiades. Com efeito, aquilo que conhecemos como o calendário maia é uma série de três sistemas de calendário diferentes utilizados em paralelo, o mais antigo e importante dos quais era o Tzolkin (calendário sagrado). Também havia o Hnab (um calendário solar civil/agrícola) e o sistema de Contagem Longa. O Tzolkin, ou Ano Sagrado, era um calendário religioso utilizado para dar nome a crianças, prever o futuro e decidir datas favoráveis para coisas como batalhas ou casamentos. O Tzolkin consistia num ano curto de duzentos e sessenta dias (treze meses de vinte dias), e cada dia do mês tinira um nome, semelhante aos nossos dias da semana, e um símbolo. Os nomes dos dias maias eram imix, ik, akbal, kan, chicchan, cimi, manik, lamat, muluc, oc, chuen, eb, ben, ix, men, cib, caban, eiznab, cauac e ahau. Cada um destes nomes era simbolizado por um deus que transportava o tempo através do céu, assim indicando a viagem do dia e da noite. Este sistema do ano curto Tzolkiir parece ter sido copiado pelos Maias da civilização Zapotec, uma cultura nativa do México central sul que recua até pelo menos 1500 a. C. e que começou a registar a informação desta maneira por volta de 600 a. C. O Tzolkin é baseado nos ciclos do agrupamento estelar das Plêiades, uma constelação importante para os Maias, que utilizavam as pirâmides e os observatórios para seguirem o seu movimento. Com efeito, o complexo de templos e pirâmides de Teotihuacán, perto da Cidade do México, está orientado pela posição em que as Plêiades se põem no horizonte. Mais tarde os Maias combinaram o Tzolkin com um calendário lunar conhecido como Tun-Uc, que utilizava um ciclo de vinte e oito dias que reflectia o ciclo lunar feminino.

Calendário Maia
Calendário Maia

O Haab, ou Ano Vago (chamado vago porque é um quarto de dia mais curto do que o ano solar), foi um calendário solar semelhante ao nosso em alguns aspectos e estava principalmente associado à agricultura e às estações. Durante o período clássico maia, os dias do Haab foram numerados de zero a dezanove, e o primeiro dia do ano era o zero. O seu sistema de contagem era baseado no número vinte, em vez do dez como no nosso caso, por isso eles contavam de zero a dezanove, em vez de zero a dez antes de passarem à ordem seguinte. O calendário Haab consistia em dezoito meses de vinte dias, seguidos de um «desafortunado» mês de cinco dias chamado Uayeb, perfazendo um total de trezentos e sessenta e cinco dias para encaixar no ano solar. Os calendários Tzolkin e Haab foram combinados para formarem um ciclo coordenado de cinquenta e dois anos conhecido como a Volta do Calendário. No início destas voltas de calendário, celebravam-se rituais, como se para extinguir chamas velhas e acender chamas novas, e decorria a consagração de novos templos.

O calendário de Contagem Longa, alegadamente mais preciso do que o calendário juliano da Europa do Século XVI, parece ter sido criado por volta do primeiro século antes de Cristo, e foi utilizado para registar datas em longos períodos de tempo. Essencialmente, o calendário de Contagem Longa totaliza o número de dias desde Agosto de 3114 a. C., a data em que a Quarta Criação maia, ou o Grande Ciclo, presente supostamente começou. Este foi com efeito o ano zero maia, como para nós o é a data de 1 de Janeiro de 1 d. C. Assim, 3114 a. C., a data inicial deste ciclo, escreve-se 0-0-0-0-0 e treze ciclos de trezentos e noventa e quatro anos terão passado quando o próximo ciclo começar, que será no ano 2012 d. C. (13-0-0-0-0). A Contagem Longa consistia basicamente num tun de trezentos e sessenta dias dias, vinte tuns constituíam um Katun (sete mil e duzentos dias), vinte katuns formavam um baktun (cento e quarenta e quatro mil dias), e treze baktuns formavam um Grande Ciclo (um milhão e oitocento e setenta e dois mil dias, ou cerca de cinco mil cento e trinta anos). Na conclusão deste Grande Ciclo, os Maias acreditavam que o mundo tal como o conhecemos deixará de existir.

Calendário Maia
A incrível complexidade do sistema do Calendário Maia

A incrível complexidade dos sistemas de calendário maias pode ser explicada em parte por uma necessidade de poder e de influência. As decisões acerca das datas para os eventos sagrados e para o ciclo agrícola estavam nas mãos dos sacerdotes maias, que ao consultarem os calendários decidiam qual era a ocasião correcta para levar a cabo certas tarefas. As suas capacidades para decifrar os significados de um calendário em termos de, por exemplo, quando semear e quando colher, ou quais eram os dias favoráveis para um casamento ou para uma guerra, davam aos sacerdotes um controlo imenso sobre a população. Como o cidadão comum não precisava de compreender este calendário complexo, os sacerdotes tinham basicamente carta branca para tornarem o sistema tão intrincado quanto lhes fosse conveniente.

Na Contagem Longa, o solstício de Inverno de 2012 d. C. significa o fim do décimo terceiro baktnn, que começou em 3114 a. C. A conclusão do calendário maia nesta data alarmou muitas pessoas, que pensam que significa a destruição violenta do mundo. Mas os Maias previram mesmo tal cataclismo com o seu calendário? Uma das crenças mais importantes para os Maias era a ideia de um Universo cíclico, onde a Terra passa por sucessivas criações e destruições. No Popol Vuh (Livro do Conselho), o livro sagrado dos Maias, provavelmente escrito no final do Século XVI d. C. mas com um conteúdo muito mais antigo, são proeminentes as descrições de sucessivas criações e inundações cataclísmicas. Também existem várias descrições da criação de 3114 a. C. em vários monumentos maias, como no monólito conhecido como Estela C, na cidade de Quirigua, na Guatemala. Estes textos descrevem a criação, incluindo por exemplo a organização dos deuses, e não a destruição, também se referindo a eventos míticos que antecedem em muito a data de 3114 a. C. O calendário maia também determina datas no futuro longínquo, como um aniversário real que ocorrerá em Outubro de 4772 d. C. Isto é algo a que dificilmente se teriam dado ao trabalho de fazer se fosse suposto que o mundo então já tivesse acabado. O que o calendário maia indica para o solstício do Inverno de 2012 deve ser interpretado como a conclusão de um velho ciclo e o início de um novo, não como o fim do mundo. O calendário maia antigo sobrevive ainda hoje no Sul do México e nas terras altas da Guatemala, onde é cuidado por sacerdotes do calendário, que ainda mantêm a contagem sagrada de duzentos e sessenta dias para levarem a cabo a adivinhação e outras actividades rituais.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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