Os Druidas, segundo Brian Haughton

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Druida no Bosque Sagrado
Druida no Bosque Sagrado

Os druidas foram misteriosos sacerdotes pagãos na Sociedade celta da Europa ocidental de meados do Século II a. C. até ao Século I d. C. (o final da Idade do Ferro). Chamaram-lhes vários nomes como xamãs, sacerdotes, professores e filósofos, e tão pouco se sabe acerca dos druidas – que não deixaram registos escritos da sua existência – que acabaram por ser romantizados na mesma medida em que foram demonizados. Muito do que sabemos acerca dos druidas vem de autores gregos e romanos da antiguidade e da literatura antiga galesa e irlandesa.

O desenvolvimento do neodruidismo a partir do Século XVII também contribuiu largamente para a imagem dos druidas que hoje se conhece. Mas quantas das histórias sobre os seus estranhos rituais secretos, em florestas desoladas, e sobre sacrifícios humanos em massa são de facto baseadas na verdade?

A palavra druida parece derivar de raízes indo-europeias e significar carvalho, forte, conhecimento ou sabedoria. A nossa fonte mais pródiga sobre estes sacerdotes pagãos é Júlio César (100 a. C.44 a. C.), que escreveu sobre eles a partir de experiências pessoais no seu «Comentários sobre a Guerra Gálica», uma história das suas refregas na Gália (a moderna França) entre 59 a. C. e 51 a. C. Infelizmente, tal como na maioria das antigas fontes romanas sobre os druidas, é muitas vezes difícil separar a propaganda romana da verdade. César menciona os druidas na sua discussão sobre a religião gaulesa e diz que eles estavam encarregados dos sacrifícios privados e públicos e de outros assuntos religiosos. A necessidade que César tinha de impressionar Roma com as histórias da campanha militar na Gália provavelmente justifica o exagero das suas afirmações, sendo isso óbvio na sua discussão sobre os sacrifícios humanos levados a cabo por estes sacerdotes celtas. Ele descreve «enormes estátuas de tamanho imenso, cujos corpos de ramos entrelaçados estavam cheios de homens vivos». Obviamente que está a descrever os agora famosos homens de vime. César continua e afirma que os criminosos eram queimados vivos no interior destas enormes estruturas, para satisfazerem os deuses, mas, dizia ele, se não houvesse criminosos em quantidade suficiente os druidas não hesitavam em sacrificar vítimas inocentes.

Os escritos de César indicam a existência de pelo menos duas classes entre o escalão mais alto da Sociedade gaulesa: os nobres e os druidas. Estes tinham obviamente uma posição de influência e respeito na Sociedade celta, e César menciona que muitos jovens os procuravam para serem ensinados por eles. Os druidas também detinham o poder de emitir leis, arbitravam disputas entre indivíduos e tribos e tinham o direito de julgar os criminosos. Também estavam isentos de prestar serviço militar e de pagar impostos. César coloca a origem do druidismo na Grã-Bretanha e menciona que os estudantes mais sérios das artes druidicas viajavam para lá para as estudarem. César também relata que os estudos de um noviço podiam durar até vinte anos e incluíam a memorização de vastos trechos poéticos. A informação dada por César sobre as doutrinas religiosas dos druidas é interessante pois diz que «uma lição que eles se esforçam muito por inculcar é que a alma não morre, mas depois da morte passa de um corpo para outro». Muitos autores da antiguidade pensaram que isto significava que os druidas tinham sido influenciados pelos ensinamentos do filósofo grego Pitágoras sobre a imortalidade da alma, apesar de tal ser pouco provável. César também menciona que os druidas tinham conhecimentos sobre os movimentos das estrelas e o tamanho da Terra, assim como estavam familiarizados com a filosofia.

Druidas
Druidas

É difícil calcular, mesmo de forma vaga, quando começou a existir o sacerdócio druidico. A referência mais antiga sobre eles foi feita no Século I a. C. pelo filósofo, astrónomo e geógrafo grego Posidónio. Infelizmente, o seu trabalho apenas sobrevive em fragmentos de autores mais recentes, como o historiador e geógrafo grego Estrabão e o aluno de Posidónio, o orador e estadista romano Cícero (106 a. C.43 a. C.). Cícero comentou que conheceu em pessoa um druida chamado Divitiacus, de uma tribo gaulesa conhecida como os Aedui, e descreve esse Divitiacus como uma espécie de astrólogo ou vidente, que estava familiarizado com a «filosofia natural». Os escritos de Estrabão mais uma vez referem os sacrifícios no gigantesco homem de vime, mencionados por César, e também outro tipo de sacrifício humano supervisionado pelos druidas. Estrabão escreveu: «Alguns homens eles matavam com flechas e empalavam nos templos.» Apesar de não haver praticamente qualquer prova de que os Celtas utilizassem arcos e flechas, de forma intrigante, o corpo de um homem encontrado na vala exterior de Stonehenge foi dado como tendo sido morto por três flechas nas costas, disparadas a curta distância. Como a data deste possível sacrifício humano em Stonehenge se situa entre 2398 a. C. e 2144 a. C., é óbvio que não existe qualquer ligação directa entre este homicídio ritual e os druidas do final da Idade do Ferro, a menos que eles praticassem rituais que teriam feito parte das tradições das ilhas britânicas durante milénios e lhes foram transmitidas.

Druidas
Ritual dos Druidas

Nos textos do escritor e filósofo Plínio, o Velho (2379 d. C.), os druidas são chamados mágicos e ele descreve como veneravam o azevinho e o carvalho de onde provém. Plínio menciona que os druidas nunca realizavam qualquer dos seus rituais sem que estivesse presente um ramo de carvalho e que apanhavam o azevinho numa cerimónia solene no sexto dia da Lua. Esta cerimónia envolvia um sacerdote vestido com roupas brancas, que trepava ao carvalho e cortava o azevinho com uma foice de ouro; o azevinho que caía era apanhado num pano branco. Os druidas sacrificavam então dois bois brancos aos seus deuses. De acordo com Plínio, o sexto dia da Lua era quando os druidas davam início aos seus meses, anos e ao ciclo de trinta anos. Esta ideia de que os druidas dependiam fortemente das fases da Lua no seu calendário foi apoiada pela descoberta do Calendário de Coligny em França, em 1897. Este calendário, provavelmente datado do Século II d. C., foi gravado numa placa de bronze e funcionava como uma espécie de calendário de rituais solares/lunares, em que cada mês começava na mesma fase lunar.

O geógrafo romano Pompónio Mela, em escritos de 43 d. C., foi o primeiro a mencionar que os ensinamentos dos druidas eram secretos. Ele descreve os druidas da Gália como «mestres da sabedoria» que transmitiam os seus conhecimentos «numa caverna ou em bosques inacessíveis». O relato mais conhecido sobre os druidas talvez seja o do orador, jurista e senador romano Tácito (56117). Nos seus «Anais» descreve um ataque do exército romano comandado em 61 pelo governador da Grã-Bretanha, Suetónio Paulino, na ilha de Mona (a moderna Angelsey), ao largo da costa noroeste de Gales. Mona (Ynys Môn em galês) foi o último bastião dos druidas e uma contribuinte significativa para a resistência à invasão romana de Gales. Quando os Romanos se aproximaram da costa e olharam para a ilha viram os Bretões alinhados na baía de Menai, prontos para defenderem a sua terra. Quando o barco chegou a Mona, os soldados repararam em mulheres (presumivelmente druidas) «correndo pelas fileiras de uma forma selvaticamente desordenada; vestidas com trajes funerários; o cabelo solto ao vento, e nas mãos tochas acesas, todo o seu aparato era semelhante à raiva inquieta das Fúrias». Também avistaram druidas masculinos, juntos num bando com as mãos erguidas para o céu, as suas vozes invocando os deuses e lançando maldições terríveis aos Romanos. De início, Suetónio Paulino e as suas tropas ficaram atónitos ao encontrarem em Autun, na Borgonha, França, esta visão perturbadora e não tinham a certeza do que deveriam fazer. De acordo com Tácito, a coragem natural dos Romanos eventualmente acabou por vencer os seus medos e carregaram furiosamente sobre o grupo de mulheres e sacerdotes, massacrando-os sem misericórdia. Os pomares sagrados dos druidas foram queimados e os seus santuários, ainda manchados pelo sangue de vítimas de sacrifícios (de acordo com Tácito), foram destruídos. Enquanto Suetónio espalhava a destruição pela ilha de Mona recebeu notícias de uma revolta no Sudeste da Grã-Bretanha, liderada pela rainha Boudica, da tribo Iceni, e regressou para uma vitória sangrenta sobre os britânicos rebeldes.

Em 1943 foram descobertos indícios arqueológicos que podem estar ligados a este último bastião dos druidas em Mona, depositados num lago da ilha conhecida como Llyn Cerrig Bach. O notável esconderijo de cento e cinquenta objectos continha armas de ferro e de bronze, carruagens e caldeirões, e foi datado entre o Século II a. C. e o Século I d. C. Os objectos parecem ter sido atirados deliberadamente ao lago como algum tipo de dádiva. Os estudiosos do assunto avançaram a hipótese de que esta oferenda deliberada de preciosos objectos de metal pode ter sido feita pelos druidas sobreviventes de Mona, para apaziguarem os deuses após a vandalização generalizada dos santuários druídicos da ilha pelos Romanos.

Druidas

Depois do massacre de Mona, o druidismo parece ter sido ilegalizado por Roma, o que provavelmente significou o fim do sacerdócio organizado, apesar de os druidas não terem decerto desaparecido completamente (em particular na Escócia, na Irlanda e talvez em certas partes de Gales). Na Irlanda, os druidas mantiveram a sua proeminente posição social até à chegada do Cristianismo e o seu papel passou a ser desempenhado pelo clero. Muitos contos épicos antigos de Gales e da Irlanda, falam dos druidas, apesar de termos de considerar que tudo o que lhes sobreviveu foi editado por escribas cristãos. Na literatura irlandesa, os druidas são muitas vezes vistos no papel de conselheiros reais; talvez o exemplo mais famoso seja o de Cathbad, druida-chefe na corte de Conchobar, rei do Ulster. Outro exemplo famoso é o de Mug Ruith, o poderoso druida cego de Munster, a província mais a sul da Irlanda. Mug Ruith tinha a capacidade de aumentar enormemente o seu tamanho, de convocar tempestades e transformar homens em pedra. A sua aparência xamanística era conseguida com uma pele de boi sem chifres, uma máscara de pássaro e uma touca de penas. A filha de Mug Ruith, Tlachtga, era uma druida reconhecida, que acabou por dar o seu nome a um monte no condado de Meath e a uma cerimónia lá realizada – o acender dos fogos de Inverno em Samhain (1 de Novembro), um antigo festival celta que outrora foi provavelmente presidido pelos druidas.

Só no Século XVIII, com o reacender do interesse sobre a religião natural e as tradições nativas, o druidismo voltou à ribalta. Muito deste interesse teve origem em antiquários como William Stukeley, John Aubrey e John Toland. John Aubrey (16261697) foi o primeiro autor moderno a afirmar que Stonehenge, Avebury e outros monumentos pré-históricos em Inglaterra estavam ligados aos druidas. Um seguidor das teorias de Aubrey, o escritor e pensador radical nascido na Irlanda, John Toland, aparentemente fundou em Londres a Ordem Antiga dos Druidas por volta de 1717; em 1726 publicou a sua «History of the Druids». William Stukeley (16871765) foi um antiquário e arqueólogo pioneiro, que se tornou secretário da Sociedade dos Antiquários em 1718. As suas investigações, anotações e desenhos de locais neolíticos, como Stonehenge e Avebury, ainda têm um grande valor para os arqueólogos e historiadores de hoje. Contudo, também ele estava sob o feitiço de Aubrey e atribuiu muitos monumentos pré-históricos ao único povo britânico da antiguidade então conhecido, os druidas. Ele publicou «Stonehenge, a Temple Restaured to the British Druids» em 1740 e «Avebury, a Temple of the British Druids» em 1743, tendo sido ambos extremamente influentes no renascimento moderno do druidismo.

Na Gales do Século XIX acreditava-se que a tradição poética galesa remontava aos druidas. O antiquário galês Edward Williams, sob o pseudónimo Iolo Morganwg, fundou o Gorsedd Beirdd Ynys Prydain (a Comunidade dos Bardos da Grã–Bretanha) em Primrose Hill, Londres, em 1792. Apesar de os rituais serem supostamente baseados em antigas cerimónias druidicas, muitas foram de facto escritas pelo próprio Williams. O druidismo faz também parte da inspiração subjacente ao Eistedfodd, um festival galês de literatura, música e teatro, que remonta pelo menos ao Século XII, apesar de o seu formato moderno ter sido muito influenciado pelo renascimento dos festivais culturais galeses no Século XVIII. Existem ordens druidicas modernas, como se pode testemunhar todos os anos em Stonehenge no solstício de Verão, com o aparecimento da Antiga Ordem dos Druidas. Fundada em Londres em 1781 (nos mesmos moldes de uma sociedade maçónica), esta ordem chegou a ter William Churchill como membro, que parece ter aderido à sua Casa de Albion, em Oxford, em 1908.

É difícil dizer se algo terá sobrevivido das crenças e rituais druídicos originais nos dias de hoje. Praticamente tudo o que existe no druidismo moderno tem a sua origem no romantismo dos Séculos XVIII e XIX. Talvez ainda se encontrem ecos dos antigos druidas britânicos nas crenças populares relacionadas com o culto dos poços e certas práticas ligadas a celebrações como o Halloween. A utilização de máscaras no Halloween para afastar os espíritos maléficos remonta às cerimónias celtas do Samhain, tradicionalmente celebradas no início do Inverno, a 1 de Novembro. Outra grande celebração celta era o Beltaine, um festival que tinha lugar a 30 de Abril ou 1 de Maio para celebrar a chegada do Verão e também a origem do May Day. Na véspera de Maio eram acesas grandes fogueiras no cume dos montes e os druidas guiavam o gado através das chamas para o purificarem; as pessoas também saltavam por cima das fogueiras para assegurarem uma colheita abundante. Talvez até os míticos habitantes da floresta, como as fadas e os woodwoses (homens selvagens e cabeludos da floresta), sejam os últimos e vagos resquícios das tradições sagradas dos outrora grandes druidas.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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