A Biblioteca de Alexandria

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Ruínas da Antiga Biblioteca de Alexandria
Ruínas da Antiga Biblioteca de Alexandria

A Biblioteca de Alexandria foi outrora a maior biblioteca do mundo e continha obras dos maiores escritores e pensadores da antiguidade como Homero, Platão, Sócrates e muitos mais. A crença popular é que terá sido destruída por um enorme incêndio há dois mil anos, perdendo-se a sua valiosa colecção. Desde a sua destruição que esta maravilha do mundo antigo assombra a imaginação de poetas, historiadores, viajantes e eruditos, que lamentaram a trágica perda de conhecimento e literatura. Hoje em dia, a ideia de uma biblioteca universal situada numa cidade celebrada como o centro do saber no mundo antigo atingiu o estatuto de mito. O mistério perpetuou-se pelo facto de nenhuma ruína arquitectónica ou achado arqueológico que possa ser definitivamente atribuído à biblioteca ter sido recuperado, o que é surpreendente para uma estrutura supostamente tão famosa e impressionante. Esta ausência de provas físicas chegou a levar algumas pessoas a questionar se a fabulosa biblioteca alguma vez existiu na forma em que tradicionalmente a imaginamos.

Terra do enorme farol de Faros, uma das sete maravilhas do mundo antigo, o porto mediterrânico de Alexandria foi fundado por Alexandre, o Grande em 330 a. C. e, como aconteceu com muitas outras cidades, deve-lhe o seu nome. Depois da sua morte em 323 a. C., o império de Alexandre foi deixado nas mãos dos seus generais e Ptolomeu I ficou com o Egipto, fazendo de Alexandria a sua capital em 320 a. C. Aquela que fora uma aldeia de pescadores no delta do Nilo transformou-se no trono dos governantes ptolomaicos do Egipto e desenvolveu–se até se tornar num grande centro intelectual e cultural. Alexandria foi talvez a maior cidade do mundo antigo. A história da fundação da Biblioteca de Alexandria é obscura. Acredita-se que por volta de 295 a. C. o erudito e orador Demétrio de Falero, um governador de Atenas exilado, convenceu Ptolomeu I a estabelecer uma biblioteca. Demétrio imaginou uma biblioteca que conteria uma cópia de todos os livros do mundo, uma instituição que rivalizasse com a própria Atenas. De seguida, com o patrocínio de Ptolomeu I, Demétrio organizou a construção do Templo das Musas, ou o musaeim, de onde derivou a nossa palavra museu. Esta estrutura era um complexo que seguia o modelo do liceum de Aristóteles em Atenas, um centro para palestras e discussões intelectuais e filosóficas.

Biblioteca de Alexandria
Biblioteca de Alexandria

O Templo das Musas iria ser a primeira parte da Biblioteca de Alexandria e localizava-se no interior do terreno do palácio real, numa área conhecida como Bruchion ou quarteirão do palácio, na zona grega no nordeste da cidade. O museu era um centro de culto com santuários para cada uma das nove musas, mas também funcionava como local de estudo com áreas para palestras, laboratórios, observatórios, jardins botânicos, um jardim zoológico, habitações e salas de refeições, bem como a própria biblioteca. Um sacerdote escolhido por Ptolomeu I era o administrador do museu e havia também um bibliotecário que tomava conta da colecção de manuscritos. A certo ponto do seu reinado (de 282 a. C. até 246 a. C.), Ptolomeu II, o filho de Ptolomeu I, estabeleceu a Biblioteca Real para complementar o Templo das Musas fundado por seu pai. Não está esclarecido se a Biblioteca Real, que veio a tornar-se na principal biblioteca de manuscritos, era um edifício separado ao lado do museu ou se era uma extensão do edifício original. No entanto, a opinião consensual é de que a Biblioteca Real fazia de facto parte do Templo das Musas.

A ideia de uma biblioteca universal parece ter tomado forma durante o reinado de Ptolomeu II. Aparentemente, mais de cem eruditos estavam alojados no museu e o seu trabalho era levar a cabo investigações científicas, fazer palestras, publicar, traduzir, copiar e coleccionar não só manuscritos originais de autores gregos (alegadamente toda a colecção privada de Aristóteles) como também traduções de obras do Egipto, da Assíria, da Pérsia, bem como textos budistas e escrituras hebraicas. Reza uma história que a fome de conhecimento de Ptolomeu III era tão grande que decretou que todos os navios que atracassem no porto deveriam entregar os seus manuscritos às autoridades. Eram então feitas cópias por escribas oficiais, para serem entregues aos donos originais, e os manuscritos originais eram arquivados na biblioteca. O número mais citado no apogeu da biblioteca fala de quinhentos mil Documentos, apesar de não ser claro se se tratava do número de livros ou de pergaminhos. Mas, tendo em conta que eram necessários muitos pergaminhos para se fazer um livro, é muito provável que se tratasse do número de pergaminhos. Mesmo assim este número é considerado um exagero por parte de muitos estudiosos, pois a construção de um edifício com um espaço de armazenamento suficientemente grande seria um empreendimento imenso mas não impossível. Contudo, durante o reinado de Ptolomeu III a colecção da Biblioteca Real tornou-se tão vasta que foi fundada uma filial. Esta biblioteca situava-se na área do templo de Serapis, no distrito egípcio de Rhakotis, na parte sudeste da cidade. Durante a supervisão do autor grego Calímaco (305240 a. C.), a filial chegou a conter quarenta e dois mil e oitocentos pergaminhos, todos cópias dos da biblioteca principal.

Biblioteca de Alexandria
Biblioteca de Alexandria Antiga

A alegada destruição total da Biblioteca de Alexandria por um incêndio, com a consequente perda da mais completa colecção de literatura antiga alguma vez reunida, tem sido alvo de acesa discussão ao longo de séculos. O que terá acontecido exactamente a este fantástico armazém de conhecimento antigo e quem foi responsável pela sua destruição? O primeiro ponto que precisa de ser mencionado é que «a maior catástrofe do mundo antigo» pode nunca ter acontecido na escala que frequentemente se imagina. No entanto, a biblioteca desapareceu de facto e praticamente sem deixar rasto, por isso algum tipo de desastre se abateu sobre ela. O suspeito mais popular neste caso é Júlio César. Alegadamente, durante a ocupação da cidade de Alexandria por César, em 48 a. C., este viu-se no palácio real, rodeado pela frota egípcia no porto. Para sua própria segurança, ordenou aos seus homens que ateassem fogo aos navios egípcios, mas as chamas descontrolaram-se e espalharam-se por outras partes da cidade mais próximas da costa, como armazéns, depósitos e alguns arsenais. Depois da morte de César ficou a crença de que tinha sido ele a destruir a biblioteca. O filósofo e dramaturgo romano Séneca, citando a História de Roma de Lívio, escrita entre 63 a. C. e 14 d. C., disse que quarenta mil pergaminhos foram destruídos no incêndio ateado por César. O historiador grego Plutarco mencionou que o fogo destruiu «a grande biblioteca». O historiador romano Dio Cássio (165235) mencionou um armazém de manuscritos que foi destruído no incêndio.

No seu livro «A Biblioteca Desaparecida», Luciano Canfora interpreta os indícios dos autores antigos como indicadores de que não foi a grande biblioteca que foi destruída, mas os manuscritos armazenados perto do porto, que se destinavam a serem exportados. O grande filósofo e erudito estóico Estrabo estava a trabalhar em Alexandria em 20 a. C. e a partir dos seus escritos torna-se óbvio que a biblioteca já não era o centro de aprendizagem mundialmente famoso que fora em séculos anteriores. De facto, Estrabo nunca fez menção de qualquer biblioteca desse tipo, apesar de mencionar um museu que descreveu como «parte do palácio real». De seguida refere que «é composto por um passeio coberto, um pórtico e um grande salão, no qual os eruditos do museu tomam as suas refeições em conjunto». Se a grande biblioteca estava anexa ao museu, então Estrabo não sentiu necessidade de a mencionar e, ainda mais importante, se ele esteve lá em 20 a. C. é óbvio que a biblioteca não tinha sido incendiada por César vinte e oito anos antes. A existência da biblioteca em 20 a. C., mesmo de forma menos grandiosa, significa que temos de procurar outro culpado, que não César, pela destruição da maravilha de Alexandria.

Em 391 d. C. o imperador Teodósio I sancionou oficialmente a destruição do Serapeum, ou Templo de Serapis, em Alexandria, no seu esforço de erradicar o paganismo. A destruição do templo foi levada a cabo sob a supervisão de Teófilo, bispo de Alexandria, e mais tarde foi construída no local uma igreja cristã. Colocou-se a hipótese de a filial da biblioteca do museu, que ficava perto do templo, e também a própria Biblioteca Real, terem sido arrasadas nesta época. No entanto, apesar de ser plausível que manuscritos do Serapeum tenham sido destruídos durante a purga, não existem provas da existência da Biblioteca Real no fim do Século IV. Não há fontes da antiguidade que mencionem a destruição de qualquer biblioteca nesta época, apesar de um historiador inglês do Século XVIII, Edward Gibbon, a ter atribuído erroneamente ao bispo Teófilo.

O último suspeito do crime é o califa Omar. Em 640 d. C. os Árabes (sob o comando do general Amrou ibn el-Ass) capturou Alexandria após um longo cerco. De acordo com a História, os conquistadores árabes ouviram falar de uma magnífica biblioteca que continha todo o conhecimento do mundo e estavam ansiosos por vê-la. Mas o califa, imperturbável por esta vasta colecção de sabedoria, aparentemente afirmou que «ou irão contradizer o Corão, e nesse caso são uma heresia, ou irão concordar com ele, e assim são supérfluos». Os manuscritos foram então reunidos e usados como combustível para os quatro mil banhos públicos da cidade. Eram tantos os pergaminhos que mantiveram os banhos de Alexandria aquecidos durante seis meses. Estes factos incríveis foram escritos trezentos anos depois do suposto acontecimento, pelo polímata cristão Gregório Bar Hebraeus (12261286). Mesmo assim, apesar de ser possível que os Árabes tenham destruído uma biblioteca cristã em Alexandria, é quase certo que em meados do Século VII a Biblioteca Real já não existia. Isto ficou claro por não haver qualquer menção a um evento tão catastrófico por parte de autores contemporâneos como o cronista cristão João de Nikiou (um monge bizantino), o escritor João Moschus e Sofrónio (o patriarca de Jerusalém).

Com efeito, a tentativa de identificar um incêndio devastador que tenha destruído a grande biblioteca e tudo o que continha é uma tarefa em vão. Alexandria foi frequentemente uma cidade volátil, particularmente no período romano, como foi testemunhado pelo incêndio dos navios por César, e também na violenta luta entre as forças ocupantes da rainha Zenóbia de Palmira e do imperador Aureliano de Roma, em 270271. Aureliano acabou por reclamar a cidade para Roma, mas não antes de muitas partes de Alexandria terem sido devastadas e o distrito que continha o palácio e a biblioteca ter aparentemente sido «transformado num deserto». A cidade foi de novo saqueada uns anos mais tarde pelo imperador romano Dioclesiano. Estes ataques constantes, espalhados ao longo de vários séculos, bem como a negligência pelo conteúdo da biblioteca à medida que as opiniões e as filiações mudavam, levam à conclusão de que a catástrofe foi gradual, tendo lugar ao longo de um período de quatrocentos ou quinhentos anos. O último director da grande biblioteca de que há registo foi o erudito e matemático Teon (335405), pai da filósofa Hipatia, que foi brutalmente assassinada em Alexandria por uma turba de cristãos em 415. Talvez um dia nos desertos do Egipto sejam descobertos pergaminhos que outrora pertenceram à grande biblioteca. Muitos arqueólogos acreditam que os edifícios que outrora compunham o lendário trono da sabedoria, em Alexandria, se não estão sepultados sob a metrópole moderna podem ainda subsistir relativamente intactos algures na zona nordeste da cidade.

Biblioteca de Alexandria
Biblioteca de Alexandria Moderna

Em 2004, uma equipa arqueológica polaco-egípcia foi notícia quando reclamou a descoberta de uma parte da Biblioteca de Alexandria ao escavarem na região de Bruchion. Os arqueólogos descobriram treze salões de palestras, cada um com um pódio elevado no centro. Contudo, as estruturas foram datadas no final do período romano (Séculos V e VI) e é pouco provável que tenham pertencido ao celebrado museu ou à Biblioteca Real, apesar de as pesquisas no local ainda estarem a decorrer. Em 1995 começou a construção da Biblioteca Alexandrina, uma grande biblioteca e centro cultural localizados perto do local da biblioteca original. O enorme complexo foi oficialmente inaugurado em 16 de Outubro de 2002, tendo sido fundado para comemorar a lendária biblioteca desaparecida e reacender algum do brilho intelectual que o centro original representava. Fica a esperança de que a existência de uma nova biblioteca universal demonstre que pelo menos o espírito da antiga biblioteca não foi perdido.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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