As amazonas: mulheres guerreiras no limiar da civilização

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As Amazonas eram as integrantes de uma antiga nação de guerreiras da mitologia grega
As Amazonas eram as integrantes de uma antiga nação de guerreiras da mitologia grega

Talvez durante três mil anos, a ideia de uma tribo de ferozes mulheres guerreiras, que habitava a fronteira do mundo conhecido, capturou a nossa imaginação. Desde os antigos escritores gregos e romanos, dos simples mitos e mitos históricos, até a programas de televisão recentes como «Xena: a Princesa Guerreira», esta Sociedade bélica e exclusivamente feminina foi constantemente reinventada para se adaptar aos tempos e aos lugares. Mas existirá algo tangível, ou até histórico, por trás destas histórias e lendas?

A primeira referência às amazonas como uma tribo de mulheres guerreiras foi feita na «Ilíada», um conto épico de Homero sobre a guerra de Tróia, provavelmente escrito no Século VIII a. C. Aí são brevemente mencionadas por terem atacado Príamo de Tróia quando fazia uma campanha na Turquia central. Homero descreve estas mulheres como «aquelas que lutam como homens». Depois de Homero, muitos escritores gregos adicionaram mais elementos ao carácter e à suposta origem das amazonas. O historiador grego Heródoto escreveu sobre elas em meados do Século V a. C. chamando-lhes androktones (matadoras de homens) e tem uma história interessante para contar acerca das amazonas, à luz de descobertas arqueológicas recentes. Depois de terem sido derrotadas pelos Gregos na batalha de Termodon, no Norte da Turquia, algumas amazonas prisioneiras de guerra foram levadas de navio para a Grécia. Durante a viagem, elas atacaram e mataram os seus captores mas não conseguiram navegar a embarcação, rumando à deriva para norte através do mar Negro. Eventualmente terão desembarcado na costa da Cítia, onde roubaram cavalos e começaram a atacar toda a região. Heródoto descreve um acordo feito entre as amazonas e os Citos, uma rede esparsa de tribos nómadas que percorriam as estepes a cavalo, com cujos homens acabaram por casar. Posteriormente dirigiram-se para norte e instalaram-se a leste do rio Don, onde agora se situa o Sul da Rússia e onde acabaram por evoluir para a cultura sauromata. Outra história, desta vez contada por escritores romanos, envolve as amazonas a lutarem contra os Gregos como aliadas de Príamo na Guerra de Tróia. No final da guerra, depois de ter matado muitos gregos em combate, a rainha amazona Pentesileia lutou contra Aquiles e foi morta num duelo sangrento. Vários outros heróis gregos tiveram lutas de vida ou morte com estas mulheres formidáveis.

Guerreiras Amazonas
Guerreira Amazonas

Um dos doze trabalhos impostos a Hércules obrigava-o a obter o cinturão mágico de Hipólita, a rainha amazona. Para cumprir essa tarefa, Hércules, acompanhado por outro herói grego, Teseu, viajou até à capital das amazonas na margem sul do mar Negro. Matou Hipólita e conseguiu o cinturão, e Teseu raptou a princesa Antíopa, uma das irmãs de Hipólita. Para salvarem Antíopa, as amazonas invadiram a Grécia e atacaram Atenas, mas foram derrotadas. Em algumas versões da história, Antíopa é morta lutando ao lado de Teseu. As batalhas míticas entre gregos e amazonas foram frequentemente comemoradas num tipo de arte grega chamada amazonomaquia, que pode ser encontrada num exemplar talhado em mármore no Parténon, em Atenas. Alguns biógrafos de Alexandre, o Grande mencionam que ele conheceu uma rainha amazona chamada Taléstris, e que esta teve um filho seu, apesar de esse facto ser contestado pelo historiador e biógrafo grego Plutarco no seu livro «Vida de Alexandre», bem como por outros autores da antiguidade.

Os antigos autores gregos e romanos associavam vários costumes estranhos às amazonas. A própria palavra amazona, que se pensa agora derivar do termo iraniano ha-mazan (que significa guerreiro), na versão grega quer dizer sem peito. Os Gregos provavelmente atribuíram este significado à palavra para explicar uma tradição em que as amazonas alegadamente queimavam ou cortavam o seio direito para poderem puxar a corda do arco mais facilmente. Contudo, as representações das amazonas na arte grega mostram-nas sempre com os dois seios. Outro mito descreve como as amazonas não permitiam que os homens vivessem no seu território. No entanto, uma vez por ano, para poderem dar continuidade à sua raça, visitavam os Gargários, uma tribo vizinha exclusivamente masculina. As meninas que resultassem desta procriação eram criadas pelas amazonas e ensinadas a cultivar, a caçar e a guerrear, enquanto os meninos eram mortos ou devolvidos aos pais.

Guerreiras Amazonas
Guerreiras Amazonas

As amazonas foram associadas a um enorme leque de locais, desde a costa da Turquia no mar Negro e o Sul da Rússia, até à Líbia e mesmo à Atlântida. Sob a perspectiva destas ideias rebuscadas, não é de admirar que a opinião consensual sobre as amazonas é a de que elas são um mito. Mas recentemente, graças à Arqueologia, as opiniões académicas têm vindo a mudar. De acordo com Heródoto, o povo sauromata do Sul da Rússia era descendente das amazonas e dos Citos. Apesar de os arqueólogos russos já terem encontrado esqueletos de guerreiras na estepe que se estende do mar Negro até ao Cáspio desde meados do Século XIX, os arqueólogos e estudiosos ocidentais ou não tinham conhecimento destes achados ou não os associaram às amazonas das lendas gregas. Escavações levadas a cabo por arqueólogos russos e americanos, lideradas por Jeaninne Davis-Kimball (do Instituto de Investigação Americano-Eurasiático) sugerem que estas histórias gregas podem ter tido alguma base factual. Montes funerários antigos (conhecidos como kurgans) encontrados perto da cidade de Pokrovka, perto da fronteira russa com o Cazaquistão, tinham no interior mulheres enterradas com armas. Estas sepulturas continham espadas ou punhais de ferro, pontas de flechas de bronze, arcos, aljavas e rédeas de cavalos. As sepulturas foram datadas entre os Séculos VI e IV a. C. e são indicadoras de uma cultura que possuía mulheres guerreiras com um alto estatuto.

Inicialmente foi sugerido que as armas serviam um propósito ritual, mas exames feitos aos esqueletos revelaram o contrário. Alguns dos crânios exibiam sinais de ferimentos e as pernas arqueadas de uma rapariga de treze ou catorze anos indicam uma vida passada a cavalo. Uma ponta de flecha enterrada no joelho de outra mulher sugere um ferimento em combate. As armas encontradas com as mulheres aparentavam ter sido frequentemente utilizadas para combater e tinham pegas mais pequenas do as que foram encontradas enterradas com os homens, sugerindo que haviam sido feitas especialmente para mulheres. Poderiam ser estas as sepulturas das lendárias amazonas? Provavelmente não. Numa coisa Heródoto tinha razão: existiram certamente guerreiras sauromatas. Contudo, não existem provas de que tivessem descendido da procriação entre as amazonas e os Citos, tal como é mencionado em «Histórias» de Heródoto. Outro factor relevante é que as guerreiras sauromatas apenas constituíam uma pequena parte da tribo. Enquanto noventa por cento dos homens enterrados eram guerreiros, apenas cerca de vinte por cento das mulheres foram enterradas com armas.

Existe outra razão pela qual é improvável que os Sauromatas fossem a origem dos mitos das amazonas. Elas já eram representadas na arte e literatura gregas desde o Século VIII a. C., pelo menos duzentos anos antes de quaisquer vestígios de guerreiras nas estepes eurasianas. As colónias gregas mais antigas no mar Negro datam do Século VII a. C., apesar de terem ocorrido algumas viagens comerciais prévias. Assim, apesar de ser remotamente possível que existissem mulheres guerreiras nas estepes há mais tempo do que é sugerido pelos recentes achados arqueológicos, e que os Gregos tivessem contactado com elas, não existem provas nesse sentido. Pelo que sabemos, as guerreiras sauromatas podem ter sido influenciadas pelo mito das amazonas, mas não poderiam ter sido a sua origem. Por volta do Século IV a. C., a cultura sauromata evoluiu para a cultura sarmácia, outra tribo nómada, e também nos túmulos sarmácios foram encontradas guerreiras.

Os Sarmácios alargaram-se muito mais para ocidente do que os seus predecessores e entraram em contacto directo com os Romanos. Com efeito, a cavalaria sarmácia, ao serviço de Roma, esteve presente na Grã-Bretanha entre os Séculos II e V. Se esta cavalaria romanizada continha mulheres não se sabe.

Existem outros exemplos de tribos das estepes que tinham guerreiras, uma das quais é o povo pazyryk, outra cultura relacionada com a Cítia. Apesar de os Pazyryks se localizarem muito longe a leste de Sarmácia, nas montanhas Altai da Rússia siberiana, eles tinham costumes funerários muito semelhantes, utilizando kurgans parecidos com os que foram encontrados na Ucrânia e no Sul da Rússia. Um túmulo pazyryk do Século V, encontrado em 1993 pela arqueóloga russa Natalia Polosmak, tornou-se conhecido como a sepultura da Menina do Gelo Siberiana, apesar de ela não ser uma guerreira mas uma sacerdotisa de elevado estatuto. Polomak encontrou, no entanto, um túmulo que continha os esqueletos de um homem e de uma mulher, cada qual enterrado com pontas de flecha e um machado.

Guerreira Amazona
Guerreira Amazona

Talvez tenham sido as histórias dos viajantes sobre o estatuto social mais elevado das mulheres da estepe que adicionaram uma outra dimensão mais realista aos já existentes mitos gregos das amazonas. De outra forma, as amazonas podem ser vistas como uma ilustração mítica dos perigos, e talvez da barbárie, do desconhecido que os Gregos encaravam quando se aventuravam por novos territórios, tais como a costa do mar Negro. É interessante sublinhar que, para os Gregos, as amazonas existiram sempre no limiar do mundo conhecido, ou nas franjas da civilização. À medida que o mundo grego se expandia, a terra das amazonas era empurrada para cada vez mais longe, o que explicaria a razão porque a geografia a elas associada se movimentou tanto. As referências mais antigas começam com as amazonas a leste da Grécia, na Ásia Menor (Turquia), supostamente a fundarem as cidades de Éfeso e Esmirna na sua costa oriental. Na época de Heródoto (Século V a. C.) elas já tinham recuado para o Sul da Rússia e quando Diodoro da Sicília escrevia a sua «Biblioteca da História do Mundo», no Século I a. C., as amazonas surgiram associadas à Líbia ocidental.

Se os mitos das amazonas são memórias de uma cultura matriarcal de mulheres guerreiras que existiu de facto, um ponto importante a considerar é o que Homero escreveu sobre elas no Século VIII a. C. como se o público já estivesse familiarizado com o assunto. Assim, elas devem ter existido mais cedo, provavelmente algures entre o final da Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro, num período cronológico entre 1600 a. C. e 900 a. C. A localização mais provável das amazonas pode ter sido na Anatólia, nas estepes russas ou nas montanhas do Cáucaso. Mas, pelo menos por agora, não existem provas de que houvesse guerreiras nestas regiões num tempo tão remoto.

De certa forma, o mito das amazonas pode ser visto como a maneira como os Gregos viam o conceito do outro. As características dadas a estas mulheres na arte e literatura da época tinham a intenção de demonstrar o oposto de tudo o que era normal. Na sociedade grega, os deveres das mulheres estavam sobretudo limitados ao lar e não tinham qualquer envolvimento na Guerra ou na Política. Pelo contrário, as amazonas tomavam as suas próprias decisões e combatiam as suas guerras. Estes mitos em que havia troca de papéis ajudavam a manter o estatuto do Estado grego ao demonstrarem a artificialidade de uma Sociedade radicalmente diferente da sua. E, claro, como no caso de muitas batalhas entre as amazonas e os Gregos, a barbárie, quando defronta a cultura, perde.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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