As figuras antigas dos montes de Inglaterra

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Geoglifos enormes na turfa dos montes ingleses
Geoglifos enormes na turfa dos montes ingleses

Corte de figuras ou Geoglifos enormes na turfa dos montes ingleses já existe há mais de três mil anos. Existem cinquenta e seis figuras espalhadas por Inglaterra, estando a maioria destes glifos nos vales de giz no Sul do país. Entre as figuras estão gigantes, cavalos, cruzes e símbolos militares. Apesar de a maioria destes glifos ser datada dos últimos trezentos anos, existem alguns que são bem mais antigos. Destes, o mais famoso talvez seja o misterioso Cavalo Branco de Uffington, em Berkshire, cuja nova datação feita recentemente demonstrou ser ainda mais antigo do que o período pré-romano da Idade do Ferro que lhe fora atribuído. Ainda mais controversos são o Gigante de Cerne Abbot, em Dorset, e o enigmático Homem Comprido de Wilmington, no Sussex. Qual foi o propósito destas figuras gigantescas? Quem as desenhou? E como sobreviveram os exemplares mais antigos durante talvez milhares de anos?

O método utilizado para desenhar as figuras foi tão simples como remover a camada de turfa à superfície para revelar o giz branco por baixo. Contudo, a erva cresceria de novo cobrindo rapidamente o glifo, a menos que fosse mantido regularmente por um grupo bastante grande de pessoas. Uma razão pela qual a vasta maioria das figuras desapareceu é que, quando as tradições que lhes estavam associadas esmoreciam, as pessoas não continuavam a dar-se ao trabalho, ou nem se lembravam, de limpar a erva para manter os contornos de giz. Mais: ao longo dos séculos, os contornos iam mudando porque as pessoas nem sempre limpavam exactamente sobre a linha original, que era assim irremediavelmente alterada. O facto de haver ainda figuras nos montes da Inglaterra de hoje é um testemunho da força e da continuidade dos costumes e crenças locais, que, em pelo menos um dos casos, remontam pelo menos há um milénio.

A mais antiga e famosa figura num monte de Inglaterra é o Cavalo Branco de Uffington, que tem cento e dez metros de comprimento e quarenta de altura, e que se encontra a dois quilómetros e meio a sul da aldeia de Uffington, nos vales de Berkshire. Esta representação estilizada e única de um cavalo consiste num lombo comprido e elegante, pernas finas separadas do corpo, uma cauda fluida e uma cabeça com um bico semelhante à de um pássaro. A elegante criatura quase se funde com a paisagem, rica em sítios pré-históricos. O cavalo está localizado numa escarpa íngreme perto do forte de Uffington datado do final da Idade do Bronze (Século VII a. C.) e abaixo de um longo caminho do Neolítico chamado Ridgeway. O Cavalo de Uffington está também rodeado por cemitérios neolíticos da Idade do Bronze. Está apenas a mil e seiscentos metros do túmulo neolítico de Wayland’s Smithy e não muito longe do cemitério da Idade do Bronze em Lambourn Seven Barrows. O desenho foi colocado de maneira a tornar-se extremamente difícil de ser visto de perto, e, como acontece com muitos Geoglifos, a melhor maneira de o ver é a partir do ar. Contudo, existem algumas zonas do Vale do Cavalo Branco, o vale assim chamado por conter a enigmática criatura, a partir das quais se pode conseguir uma vista adequada. Com efeito, num dia límpido o desenho pode ser perceptível até vinte e nove quilómetros de distância.

Cavalo Branco de Uffington
Cavalo Branco de Uffington

A referência documental mais antiga que se conhece de um cavalo em Uffington é da década de 1070, quando o «Monte do Cavalo Branco» é mencionado nas cartas da Abingdon Abbey, e a primeira referência ao cavalo em si aparece pouco depois, em 1190. No entanto, acredita-se que o desenho foi feito muito antes. Devido à semelhança entre o Cavalo Branco de Uffington e as representações estilizadas de cavalos em moedas célticas do Século I a. C., pensou-se que o cavalo também teria a sua origem nesse período. Mas em 1995 foram efectuados testes de Luminescência Opticamente Estimulada (LOE) pela Unidade Arqueológica de Oxford nos sedimentos do solo, em duas das camadas mais baixas do corpo do cavalo e a partir de um outro corte junto à base. Os testes resultaram numa data para a construção do cavalo algures entre 1400 a. C. e 600 a. C. Por outras palavras, teve a sua origem ou no fim da Idade do Bronze ou no início da Idade do Ferro. O período mais próximo destas datas ligaria o desenho do cavalo à ocupação do forte adjacente e talvez seja uma representação de um emblema tribal ou um símbolo que marcava o território dos habitantes do forte.

Alternativamente, o desenho pode ter sido criado para fins rituais e/ou religiosos. Alguns vêem o cavalo como representando a deusa céltica Epona, que era adorada como a protectora dos cavalos, também associada à fertilidade. Contudo, o culto a Epona foi importado da Gália (França) provavelmente no Século I d. C., que é a época em que se encontram as primeiras representações da deusa equestre. Esta data é pelo menos seis séculos mais recente do que a época em que o cavalo foi desenhado. No entanto, o cavalo teve grande importância ritual e económica durante as idades do Bronze e do Ferro, como pode ser atestado pelas suas representações em jóias, moedas e outros objectos de metal. Talvez o desenho retrate uma deusa equestre britânica como Rhiannon, descrita na mitologia galesa como uma bela mulher vestida de ouro e montada num cavalo branco. Outros vêem o Cavalo Branco em ligação com o culto a Belinos ou Belinus, «aquele que brilha», um deus-Sol céltico frequentemente associado aos cavalos. As carruagens solares das idades do Bronze e do Ferro (representações mitológicas do Sol numa carruagem) foram desenhadas a serem puxadas por cavalos, como pode ser visto num exemplar do Século XIV a. C. de Trundholm, na Dinamarca. Se, como agora se acredita, a cultura céltica chegou à Grã-Bretanha no final da Idade do Bronze, então o Cavalo Branco poderia ainda ser interpretado como um símbolo da deusa equestre céltica.

Gigante de Cerne Abbot
Gigante de Cerne Abbot

Há quem acredite que o grande desenho não representa de todo um cavalo mas antes um dragão. Uma lenda associada a Dragon Hill (monte do Dragão), uma colina baixa de topo plano que fica no vale por baixo do Cavalo Branco, sugere que o cavalo é antes uma representação do mítico dragão morto por S. Jorge nesse monte. Supostamente, o sangue do dragão moribundo derramado sobre Dragon Hill deixou lá uma cicatriz de giz branco onde ainda hoje a erva não cresce. Talvez a ligação entre S. Jorge e o Cavalo Branco seja uma memória confusa de algum estranho ritual pré-histórico efectuado em Dragon Hill pelos seus criadores, que pode recuar no tempo até três mil anos. Até ao final do Século XIX, o Cavalo Branco era aparado todos os anos, durante uma feira que durava dois dias em meados do Verão, que também incluía jogos tradicionais e diversões. Hoje em dia o festival desapareceu e a tarefa da manutenção do cavalo é levada a cabo pela English Heritage, a organização responsável pelo local. A última limpeza teve lugar em 24 de Junho de 2000.

Um outro exemplo de um cavalo antigo é o Cavalo Vermelho de Tysoe, que existiu outrora na escarpa de Edgehill, acima da aldeia de Lower Tysoe, em Warwickshire. Infelizmente, esta estranha criatura, que na verdade era constituída por vários cavalos desenhados na mesma área, foi lavrada e desapareceu em 1800. A história e o desenho do Cavalo Vermelho são obscuros. Foi mencionado pela primeira vez na Britanica de 1607, escrito pelo antiquário e historiador inglês William Camden. No Século XVII, a viajante inglesa Celia Feinnes descreveu o cavalo quando viajou pela zona, tendo escrito: «Chama-se vale de Eshum ou “do Cavalo Vermelho” devido a um cavalo vermelho desenhado em alguns dos seus montes e, sendo a terra vermelha, o cavalo é parecido com o do vale do Cavalo Branco.» Desde os anos sessenta que se tem investigado o Cavalo Vermelho através de levantamentos no terreno, fotografias aéreas e pesquisas nos arquivos locais, tendo-se localizado já seis cavalos distintos. Actualmente, a opinião mais consensual é de que o Cavalo Vermelho original de Tysoe, ou Grande Cavalo, foi desenhado no tempo dos Anglo-Saxões, por volta de 600 d. C., possivelmente representando o deus saxão da guerra Tiw ou Tiu, a quem a aldeia de Tysoe alegadamente deve o seu nome e de onde veio a palavra Tuesday (Tiiv’s day).

Quase tão famoso como o Cavalo Branco de Uffington é o Gigante de Cerne Abbas com cinquenta e cinco metros, uma figura itifálica desenhada na encosta de um monte a nordeste da aldeia de Cerne Abbas e a norte de Dorchester, em Dorset. O desenho é de um homem gigante, nu e de cabeça redonda, apresentando um pénis erecto e testículos, que segura um grande cacete na mão direita. Tal como com o Cavalo Branco de Uffington, não é possível apreciar toda a figura a partir do chão; apenas do ar se consegue ver o gigante em todo o seu esplendor. Acima da cabeça do gigante situa-se uma construção de terra rectangular, chamada Trendle, ou frigideira, que se pensa tratar-se de um templo da Idade do Ferro e que alguns investigadores acreditam estar ligado com a enorme figura de giz mais abaixo. As interpretações favoritas do Gigante de Cerne são que ele representa um deus da fertilidade pré-histórico ou um desenho romano de Hércules segurando o seu enorme cacete. Até 1635 decorriam no monte celebrações de fertilidade, no início da Primavera, e no interior do Trendle era erigido um poste cerimonial à volta do qual os locais dançavam.

Mas, ao contrário do Cavalo Branco de Uffington, o registo mais antigo que se conhece do gigante recua apenas até 1694, quando é mencionado nas contas da igreja da aldeia. Foi subsequentemente feito um levantamento ao desenho em 1764 e os resultados foram publicados na Gentleman’s Magazine desse ano. Em 1774, John Hutchins escreveu no seu livro «History and. Antiquities of the County of Dorset» que a figura tinha sido desenhada em meados do Século XVII como uma piada, apesar de também mencionar que alguns dos residentes mais velhos da aldeia tinham afirmado que o desenho já lá estava «para lá da antiguidade do Homem». Contudo, as provas existentes apontam para uma origem recente deste gigante. Uma teoria é que, apesar de o gigante ser de facto uma representação de Hércules, funciona de facto como uma caricatura de Oliver Cromwell, que foi algumas vezes referido como o Hércules inglês e foi desenhado seguindo as instruções do proprietário local, Denzil Holies, algures na década de 1640. Outro facto que suporta esta data é que os registos medievais referem-se sempre ao monte do gigante como Trendle Hill e não como o Giant Hill de hoje em dia, não fazendo qualquer referência ao enorme desenho. Isto é uma indicação de que o gigante só existe há cerca de quatrocentos anos. Outra interpretação é que, por alguma razão, talvez pelo seu carácter explicitamente sexual, os autores preferiram ignorar o Gigante de Cerne. Talvez até tenha sido coberto pela vegetação e esquecido.

Gigante de Cerne Abbot
Pormenor do Gigante de Cerne Abbot

Novas investigações efectuadas noutro gigante de giz podem, contudo, dar apoio à data mais recente para a figura de Cerne Abbas. Nas íngremes escarpas de Windover Hill, no Sussex, está desenhado o Homem Comprido de Wilmington, que com sessenta e nove metros é a figura mais alta em Inglaterra, tendo-se até recentemente acreditado que tinha uma origem pré-histórica. Mas o último estudo arqueológico do local (que utilizou também o método de datação por LOE) produziu provas de que as teorias mais antigas estão erradas e que a figura foi desenhada em 1545 d. C. Esta nova datação do Gigante de Wilmington no período medieval lança dúvidas consideráveis em relação à origem pré-histórica do Gigante de Cerne Abbas e, até que seja feito um teste de datação por LOE no desenho, o gigantesco Hércules inglês continuará a ser um enigma.

As razões que levaram à criação destas figuras nos montes são provavelmente tão variadas como as figuras representadas. Novos indícios arqueológicos e geológicos cada vez mais indicam uma data medieval para as figuras gigantes nuas, que alguns historiadores têm afirmado serem produtos de uma época de guerra civil e de agitação política extrema em Inglaterra, onde a sátira era por vezes a única arma. Em comparação com a grande permanência das estruturas de pedra, como os monumentos de Avebury e Stonehenge, as figuras dos montes são muito mais transitórias; dez ou vinte anos sem as limpar e o desenho pode perder-se para sempre. O facto de as figuras poderem desaparecer tão depressa, a par dos rituais e significados que lhes estão associados, indicam que nunca se pretendeu que fossem mais do que gestos temporários que só perduraram por acidente ou, como no caso do Cavalo Branco de Uffington, devido à existência continuada de uma tradição local extremamente tenaz. Mas isso não diminui a sua importância. Estes desenhos gigantes são um vislumbre fascinante das vidas e das mentes dos seus criadores e de como viam a paisagem onde viviam.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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