O Mapa de Piri Reis, segundo Brian Haughton

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1980
O Mapa de Piri Reis é um fragmento de um mapa elaborado pelo almirante, geógrafo e cartógrafo Otomano Piri Reis em Constantinopla em 1513
O mapa de Piri Reis é um fragmento de um mapa elaborado pelo almirante, geógrafo e cartógrafo Otomano Piri Reis em Constantinopla em 1513

O Mapa de Piri Reis, um dos mais antigos mapas conhecidos onde está representada a América, foi trazido a público em 1929 quando os historiadores que trabalhavam no Palácio Topkapi, em Istambul, o descobriram sobre um monte de entulho. Actualmente encontra-se na biblioteca do Palácio Topkapi, apesar de geralmente não ser exposto ao público.

0 mapa data de 1513 e foi desenhado em pele de gazela por um almirante da frota turca otomana chamado Piri Reis.

No mapa vê-se uma teia de linhas cruzadas, conhecidas como linhas de rumo, comuns nas cartas de navegação do final da Idade Média, supostamente utilizadas para desenhar uma rota. Um exame pormenorizado do documento revelou que era originalmente um mapa de todo o mundo, mas foi rasgado em vários pedaços em algum momento da sua história.

0 mapa propriamente dito é conhecido como uma carta-portulana, um tipo comum entre os Séculos XIV e XVI. Tais cartas foram desenhadas para orientar os navegadores de porto a porto, mas não eram fiáveis para uma travessia oceânica, pois não consideravam a curvatura da Terra. Um mapa tão antigo que já mostra a América tem obviamente um interesse histórico considerável, mas alguns poderão afirmar que a sua importância não jaz meramente na representação das Américas. No seu livro «Mapas dos Antigos Reis dos Mares», publicado em 1966, Charles Hapgood, um historiador e geógrafo da Universidade de New Hampshire, propôs que a massa terrestre que está junto da parte sul da América do Sul, no fundo do mapa, só pode ser uma representação da Antártida, centenas de anos antes da sua descoberta. O desenho aparentemente pormenorizado da costa antárctica no mapa, que inclui aquilo que Hapgood acreditava ser uma representação precisa da Terra da Rainha Maud, mostra-a sem glaciares, o que sugere que o continente foi mapeado na pré-história remota, antes de ficar completamente coberto de gelo. Mas como foi o Homem da Idade da Pedra capaz de fazer o levantamento cartográfico da região num período tão prematuro da história humana? Hapgood sugeriu a existência de civilizações de navegantes pré-históricos agora esquecidos, entre cujos feitos se conta a navegação de pólo a pólo e o mapeamento de toda a superfície terrestre em algum momento do passado remoto. Hapgood defendia a teoria de que estas civilizações deixaram um legado de mapas, que foram copiados à mão ao longo de milhares de anos, talvez por culturas de peritos em navegação como os Minóicos e os Fenícios. Para Hapgood, o Mapa de Piri Reis foi com efeito uma compilação destes mapas antigos.

O Mapa de Piri Reis
O Mapa de Piri Reis

Mais tarde, o controverso autor Erich von Dâniken considerou que a representação de uma Antártida antes de ser coberta por gelo no Mapa de Piri Reis é uma prova da sua teoria de que existiram astronautas na antiguidade, tendo especulado que uma civilização extraterrestre tinha desenhado o mapa original. [1] No seu livro de 1995, «As Marcas dos Deuses», Graham Hancock também postulava que uma civilização antiga altamente avançada, mas por identificar, existiu na pré-história remota e passou o legado dos seus sofisticados conhecimentos de Astronomia, arquitectura, navegação e matemática a várias culturas da antiguidade como os Olmecs, os Astecas, os Maias e os Egípcios. Também especulou que os criadores do Mapa de Piri Reis podem ter usado como fonte uma compilação de mapas desta antiga supercultura. Tanto Hapgood como Hancock defendem que a Antártida representada no Mapa de Piri Reis está altamente pormenorizada, mostrando montanhas, rios e lagos, e pode ter sido baseada em antigos levantamentos feitos por um satélite no céu do Egipto.

Muitos cientistas e arqueólogos são cépticos em relação à teoria de Hapgood porque não há qualquer registo de uma Civilização Antiga que tivesse os recursos, a Tecnologia e, principalmente, a necessidade de levar a cabo um levantamento geográfico da Antártida. Que razão poderiam ter tido? Admitindo a existência desta avançada cultura pré-histórica, será que o mapa mostra de uma forma convincente uma Antártida sem gelo? Muitos dos proponentes da teoria dos navegantes da antiguidade enfatizam a precisão do mapa, em especial a parte que mostra a Antártida, como prova de conhecimentos geográficos perdidos. Mas quão preciso é o Mapa de Piri Reis? A ausência da passagem de Drake entre a América do Sul e a Antártida significa que se o mapa mostra mesmo a Antártida, então mostra-a colada ao continente sul-americano, omitindo mil e quinhentos quilómetros de costa do Brasil até à Terra do Fogo. Esta seria uma omissão flagrante para um mapa supostamente tão preciso.

Piri Reis
Piri Reis

Examinando o resto do mapa, a Europa e a África estão representadas com pormenor considerável para a época, apesar de algumas penínsulas e enseadas estarem exageradas, talvez devido à necessidade que havia nesse tempo de navegar recorrendo a pontos de referência em terra. A América do Sul está demasiado estreita, apesar de o Brasil aparecer bastante bem desenhado. Por outro lado, a América do Norte está mal desenhada e com muita imprecisão, como se a sua representação tivesse sido baseada somente em relatos e não em conhecimentos geográficos reais, o que nos sugere que de facto não houve qualquer levantamento geográfico global na antiguidade que desse origem a tal mapa. Com efeito, existem mapas mais antigos, de cerca de 1500 d. C., como os de Juan de La Cosa e Alberto Cantino, que são mais precisos do que o Mapa de Piri Reis no que diz respeito a ilhas como Cuba, Jamaica e Porto Rico. Um pormenor que alegadamente confirma a antiguidade do mapa é o que mostra a Gronelândia antes de estar coberta de gelo. Contudo, como pode ser visto após uma leitura atenta do mapa, a parte superior oriental mostra claramente o Oeste da França, que fica a uma latitude de aproximadamente cinquenta graus norte. Consequentemente, se a França está representada como o país mais a norte no mapa, certamente que a Gronelândia não pode lá estar e, como o mapa não mostra ilhas que sejam remotamente parecidas com a Gronelândia, é difícil perceber quais são as provas para esta sugestão.

Para apoiar a sua teoria de que o Mapa de Piri Reis mostrava a Antártida sob o gelo, Charles Hapgood utilizou dados de sonar obtidos em expedições ao Antártico nos anos quarenta e cinquenta do Século XX. Mas a sua hipótese, que outrora pareceu a alguns como cientificamente plausível, está agora em dúvida. A dificuldade intransponível em provar que o Mapa de Piri Reis mostra uma Antártida livre de gelo é que quando este continente esteve livre de gelo pela última vez a sua linha costeira teria um aspecto completamente diferente do actual. Isto deve-se ao facto de que, ao longo do tempo, a superfície continental foi forçada a descer centenas de metros sob milhões de toneladas de gelo, que mudaram completamente a costa que jaz por baixo. Uma comparação entre a Antártida do Mapa de Piri Reis e um mapa topográfico relativamente recente do leito rochoso do continente não revela qualquer semelhança. Mais ainda, as afirmações de Hapgood segundo as quais a Antártida não estava coberta de gelo por volta de 4000 a. C. foram contrariadas por indícios geológicos modernos, que apontam que a data mais recente em que o continente antártico esteve sem gelo foi há catorze milhões de anos.

Mas a prova talvez mais convincente que nega uma origem pré-histórica para o mapa pode ser encontrada nas anotações nele inscritas pelo próprio Piri Reis. No início do Século XVI, quando o mapa foi desenhado, os portugueses já tinham atravessado o Atlântico e reclamavam para si uma parte substancial da América do Sul. Em relação à suposta linha costeira da Antártida, as legendas no mapa mencionam que essa costa foi descoberta por exploradores portugueses, cujos navios haviam sido desviados da sua rota. Uma anotação do mapa em particular refere-se a um navio português que atracou nessa costa e foi imediatamente atacado por nativos despidos; uma outra legenda fala de um clima muito quente. Estas descrições podem aplicar-se com clareza à América do Sul, mas tempo quente e habitantes nus na Antártida não passam de meras fantasias.

As fontes do Mapa de Piri Reis não foram todas identificadas, mas entre elas devem certamente contar-se os trabalhos do astrónomo e geógrafo grego Ptolo-meu (Século II d. C.), vários mapas portugueses e Cristóvão Colombo. De facto, o próprio Reis anotou no mapa que copiara os mapas de Colombo. Muitas características do Mapa de Piri Reis, incluindo os nomes dos lugares e representações nas Índias Ocidentais, demonstram que utilizou pelo menos um dos mapas de Colombo para desenhar o seu. Outra indicação de que Reis usara mapas medievais europeus é o desenho perto do topo, de um navio perto de um peixe que leva duas pessoas às costas. A nota ligada a esta ilustração cita uma história medieval da vida do santo irlandês Brendan. Isto foi certamente reproduzido por Piri Reis a partir de uma das suas fontes, provando que pelo menos uma era de origem europeia medieval.

Mapa de Piri Reis
Mapa de Piri Reis

Greg Mclntosh, no seu «The Piri Reis Map of 1513», publicado em 2000, argumenta que lendo os mapas contemporâneos desse período podemos verificar que nada do que estava no Mapa de Piri Reis era desconhecido em 1513. Ele também sugeriu que aquilo a que alguns chamaram Antártida no Mapa de Piri Reis é na realidade o hipotético Grande Continente do Sul que os cartógrafos já desenhavam nos seus mapas desde o tempo de Ptolomeu. A crença comum era que deveria existir um continente no hemisfério sul que estabelecesse o equilíbrio com as massas terrestres do hemisfério norte. Mclntosh também demonstrou que todas as costas no Mapa de Piri Reis, a sul dos vinte e cinco graus, ou estão mal situadas ou são imprecisas, e a Antártida desenhada no mapa estende-se para norte dos quarenta graus de latitude sul, quando o verdadeiro continente da Antártida não ultrapassa os setenta graus. Com efeito, em vez de ser uma representação da Antártida, um exame atento do Mapa de Piri Reis revela que o continente do Sul tem uma grande semelhança com a metade sul da América do Sul, ajustada na horizontal para caber na forma do pergaminho.

Uma característica anómala da América do Sul que não passa despercebida no Mapa de Piri Reis é a aparente representação da cordilheira dos Andes, com os rios Amazonas, Orinoco e Plata emergindo da sua base e fluindo para leste até à costa. Como os Andes não eram conhecidos pelos Europeus nessa época, como foram aparecer no mapa? Mas este não é o único mapa onde aparece uma cadeia montanhosa no interior da América do Sul; o mapa de Nicolo Canerio, desenhado entre 1502 e 1504 e agora em exposição na Biblioteca Nacional de Paris, representa a costa leste da América do Sul com uma cadeia de montanhas cobertas por árvores. A partir destes indícios, parece provável que o mapa de Canerio foi uma das fontes originais de Piri Reis. Também é difícil de conceber que, se o Mapa de Piri Reis fosse baseado no trabalho de uma avançada cultura marítima da antiguidade, este incluísse os Andes mas omitisse o Oceano Pacífico. Uma explicação mais plausível é que as montanhas desenhadas no centro da América do Sul no Mapa de Piri Reis são montanhas da costa leste, desenhadas numa escala errada e no sítio errado.

A maior parte dos estudiosos acredita agora que o Mapa de Piri Reis não é mais preciso do que seria de esperar de um portulano do Século XVI, que retirou a sua informação de conhecimentos geográficos já existentes e de conjecturas. Não há razão para crer que Piri Reis baseou o seu mapa numa hipotética supercultura da antiguidade. Certamente que é possível que ele tivesse fontes materiais muito antigas que agora se perderam, mas para lá disso o Mapa de Piri Reis deve ser apreciado por aquilo que é – um documento da história medieval extremamente belo e de grande importância histórica.

NOTAS:

[1] Consultar artigo «O Mapa de Piri Reis, segundo Erich von Däniken»

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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