Os Fundamentos Científicos da “Sensação de que estão a Olhar para Nós”

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Olhos na Nuca
Olhos na Nuca

O primeiro estudo sobre a sensação de que estão a olhar para nós surgido em publicações científicas veio à luz na revista Science em 1898, num artigo de E. B. Titchener, pioneiro da Psicologia científica da Universidade de Cornell, no estado de Nova Iorque:

“Todos os anos descubro, nas minhas turmas de alunos mais recentes, uma certa percentagem de alunos que estão firmemente convencidos de que “sentem” quando alguém de trás está a olhá-los fixamente, e uma percentagem menor de outros que acreditam que, fitando persistentemente a nuca de uma pessoa que está sentada à sua frente, a obrigam a vira-se e a olhá-los nos olhos.”

Titchener estava confiante em que encontraria para isso uma explicação racional, pondo de parte a hipótese de quaisquer influências misteriosas. Vale a pena ler detidamente a sua análise, dado que a explicação que ele dá é exactamente a mesma que ainda hoje dão os cépticos:

A Psicologia da questão é a seguinte:

1.) Todos nós nos sentimos mais ou menos nervosos com o que se passa nas nossas costas. Basta observar uma plateia sentada antes de se deixar absorver pela música ou pela conferência que é o motivo da sua presença ali para reparar no grande número de mulheres que estão constantemente a levar as mãos à cabeça, alisando e compondo o cabelo, e de vez em quando olham para os ombros ou por cima dos ombros, para trás; enquanto isso, os homens olham frequentemente para os ombros ou por cima dos ombros e, com as costas da mão, sacodem ou escovam as lapelas e a gola do casaco…

2.) Dado que é a presença de público, de pessoas sentadas atrás de nós, que desencadeia os movimentos acima descritos, é natural que, em muitos casos, esses movimentos vão ao ponto de virarmos a cabeça para trás e passarmos os olhos pelo fundo da sala… Convém observar que tudo isto é completamente independente de qualquer olhar, intenso ou não, vindo de trás.

3.) Ora acontece que o movimento num campo imóvel – seja esse campo o da visão, da audição, do tacto ou qualquer outro – é um dos mais fortes estímulos à atenção passiva que se conhecem […]. Portanto, se eu, A, estou sentado na parte de trás da sala e B mexe a cabeça ou a mão dentro do meu campo de visão, os meus olhos são fatal e irresistivelmente atraídos para B. Se B prosseguir o movimento olhando em volta, é claro que eu vou olhá-lo nos olhos. O mais provável é que haja várias pessoas a olhar para ele, do mesmo modo e pela mesma razão, em várias partes da sala; e é por acaso que os seus olhos se cruzam com os meus ou com os de qualquer dos outros. Quase de certeza que capta o olhar de alguém. Claro que estes acasos fazem o jogo da teoria da atracção pessoal e da influência telepática.

4.) Agora está tudo explicado, menos a impressão que B sente na nuca. Esta impressão é, do ponto de vista sensorial, o simples somatório de sensações de tensão e pressão que, por norma, estão presentes naquela região (sensações cutâneas, musculares, dos tendões e das articulações), mas que agora assumem particular relevo por força do facto de sobre elas estar concentrada a atenção e são, em parte, reforçadas pela própria atitude de atenção… A “sensação do inevitável” no presente caso não é mais misteriosa do que a “sensação do inevitável” que nos leva a mudar de posição numa cadeira quando a distribuição de pressões se torna desconfortável ou a voltar o nosso melhor ouvido para o lado de onde vem um som que nos interessa especialmente ouvir.

5.) Em conclusão, posso dizer que pus à prova esta interpretação da “sensação de que estão a olhar para nós”, por várias vezes, numa série de experiências laboratoriais realizadas com pessoas que se declaravam particularmente susceptíveis ao olhar ou particularmente capazes de “fazer uma pessoa virar a cabeça”. Quanto a essa capacidade e susceptibilidade, as experiências deram invariavelmente um resultado negativo; por outras palavras, a interpretação por mim proposta confirmou-se. Se o leitor com formação científica objectar que talvez esses resultados fossem previsíveis e que, por isso mesmo, as experiências foram uma pura perda de tempo, só posso responder que, a meu ver, elas têm a sua justificação na desmontagem de uma superstição, que tem raízes profundas e generalizadas na consciência popular. Nenhum psicólogo com mentalidade científica acredita na telepatia. Ao mesmo tempo, a sua infirmação num determinado caso pode levar um estudante a tomar um caminho científico correcto, pelo que o tempo perdido pode ser recuperado, a multiplicar por cem, para a Ciência.

Se para alguns defensores da “postura científica pura” esta forma de ver as coisas pode parecer convincente, outros não deixarão de reparar que Titchener começa por postular aquilo que se propõe provar. O cenário que descreve podia muito bem ter incluído uma misteriosa influência do olhar. E a sua prova experimental da inexistência do fenómeno, de que não dá pormenores, pode ter outras explicações. Por exemplo, os participantes na experiência podem ter ficado desconcertados com o cepticismo da sua atitude, ou demasiado inibidos para poderem agir com naturalidade quando por ele postos à prova em condições artificiais, num laboratório.

Conferência
Conferência

Reside aqui o maior problema que se levanta à investigação experimental deste fenómeno. A “sensação de que estão a olhar para nós” pode funcionar em condições naturais de modo inconsciente. Em condições artificiais, em ensaios experimentais, pode ser difícil, para quem não está habituado, decidir conscientemente se está ou não a ser observado. Além disso, na vida real há uma grande variedade de sensações que têm a ver com o acto de olhar, caso da ira, da inveja e da atracção sexual. Se, em testes experimentais, se retiram todas as motivações, excepto a curiosidade científica, os efeitos podem sair muito enfraquecidos.

A segunda investigação deste fenómeno foi publicada em 1913 por J. E. Coover. Dando seguimento às investigações de Titchener, descobriu que 75% dos estudantes das suas turmas de preparatórios em Stanford acreditavam na realidade da sensação de que alguém está a olhar para nós. Realizou então ensaios com dez dos seus alunos. O experimentador olhou por trás para cada um deles numa série de 100 ensaios. O experimentador (o próprio Coover ou um assistente) olhava para o sujeito ou para longe, numa sequência aleatória, assinalando com um bater de palmas o início do ensaio. Nessa altura o sujeito dizia se estava ou não a ser alvo do olhar, e que grau de certeza sentia nesse palpite. Os resultados gerais mostraram que os sujeitos só tinham razão em 50,2% dos casos, o que não era significativamente melhor do que o nível de puro acaso, que era de 50%. No entanto, quando os sujeitos declaravam que estavam muito certos do seu palpite, tinham razão em 67% dos casos; quando tinham menos certeza os resultados estavam ao nível ou ligeiramente abaixo dos níveis de acaso. Coover menosprezou este aspecto dos resultados a que ele próprio chegou. Concluiu que, embora a crença na sensação de que alguém está a olhar para nós seja generalizada, “a experiência demonstra que ela não tem fundamento”.

E a questão ficou mais ou menos neste pé durante quase meio século, até que o assunto foi de novo suscitado em 1959 por J. J. Poortman, no Journal of the Society for Psychical Research (Jornal da Sociedade de Investigação Psíquica). No seu artigo, o autor descreve ensaios que realizou na Holanda com uma amiga a olhar para ele – uma vereadora municipal da cidade da Haia que lhe tinha dito que “quando via numa reunião alguém com quem queria falar fixava-o com o olhar”. Poortman seguiu o mesmo método que Coover; numa sequência de 69 ensaios, realizados em vários dias diferentes, a vereadora olhou ou não olhou para ele numa sequência aleatória e registou se Poortman dizia sim ou não. Acertou 59,6% das vezes, contra a expectativa de 50% do acaso. Era um resultado estatisticamente significativo.

Passaram-se quase mais vinte anos até vir a lume nova investigação. Foi feita em 1976 por Donald Peterson, doutorando da Universidade de Edimburgo. Numa série de experiências com dezoito sujeitos diferentes, verificou que eles sabiam quando alguém estava a olhar para eles numa percentagem significativamente maior de vezes do que o acaso.

Em 1983, na Austrália, uma aluna finalista da Universidade de AdelaideLinda Williams, desenvolveu um projecto em que o autor e o alvo dos olhares estavam em salas diferentes, distantes uma da outra cerca de 18 metros. O autor via o seu alvo através de um circuito fechado de televisão. Numa sequência de ensaios, com a duração de 12 segundos cada um, a pessoa que olhava ora via o sujeito ora via o ecrã branco. (O ecrã de televisão estava programado para se ligar e desligar em sequência aleatória, mas a câmara de vídeo estava sempre ligada. O sujeito era avisado por um som electrónico do começo de cada ensaio de 12 segundos.) Os resultados totais relativos a vinte e oito sujeitos revelaram um efeito positivo pequeno mas estatisticamente significativo; foram melhores do que a percentagem de acaso na identificação das alturas em que estavam a ser observados através do televisor.

Os testes tecnicamente mais sofisticados sobre esta faculdade realizaram-se em finais da década de 1980 na Mind Science Foundation (Fundação das Ciências da Mente) em San AntonioTexas. Foram seus autores William BraudSperry Andrews e colegas. Também eles recorreram à televisão em circuito fechado. Pedia-se aos sujeitos que se sentassem calmamente numa sala durante 20 minutos, com a câmara de vídeo sempre ligada, e que pensassem no que lhes apetecesse. Os observadores olhavam para eles num ecrã de televisão instalado na sala de visionamento, num edifício diferente daquele em que se encontrava o laboratório. Ao contrário do que tinha acontecido em todas as experiências anteriores, não se pedia aos sujeitos que tentassem dizer quando estava alguém a olhar para eles. Em vez disso, registavam-se as suas reacções físicas inconscientes, medindo a sua resistência cutânea basal por meio de eléctrodos colocados na sua mão esquerda. As alterações a esta resistência, à semelhança do que acontece nos testes com detector de mentiras, dão uma medida sensível da actividade inconsciente do sistema nervoso simpático. Numa série de ensaios de 30 segundos, intervalados com períodos de descanso, o sujeito era ou não observado, em sequência aleatória. Os resultados revelaram diferenças significativas na resistência da pele quando os sujeitos estavam a ser alvo do olhar, apesar de não estarem conscientes disso.

Em resumo, apesar de a investigação existente sobre o assunto ser extremamente diminuta, os dados disponíveis apontam no sentido de existir de facto a sensação de que estão a olhar para nós, embora ela não se manifeste muito convincentemente em condições artificiais.

Fonte: LIVRO: «7 Experiências que podem mudar o Mundo» de Rupert Sheldrake

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