Em vez de falar sobre a última Guerra, deixem-me discorrer sobre a próxima Guerra, porque às vezes é útil que as pessoas estejam preparadas, em vez de se limitarem a reagir. Actualmente, encontra-se em curso nos Estados Unidos uma evolução muito característica. Não é o primeiro país do mundo em que isso acontece. Na realidade, existem problemas sociais e económicos cada vez maiores, talvez catastróficos. Ninguém instalado no poder tem qualquer intenção de fazer seja o que for a respeito desses problemas. Se se olhar para os programas de Política interna dos governos dos últimos dez anos — e incluo aqui a oposição democrática — não se encontra realmente qualquer proposta séria quanto ao que se deve fazer relativamente aos graves problemas da Saúde, da Educação, dos sem-abrigo, dos desempregados, do Crime, do aumento do número de delinquentes, das cadeias, da deterioração das cidades interiores — toda a espécie de problemas. Todos os conhecem e estão cada vez piores. Só nos dois primeiros anos de mandato de George Bush pai, mais três milhões de crianças ultrapassaram o limite de pobreza, a dívida subiu rapidamente, os padrões de Educação entraram em declínio para grande parte da população, os salários reais caíram abaixo do nível em que se encontravam no fim dos anos 50, e ninguém faz seja o que for a respeito de todos estes problemas. Nestas circunstâncias, é preciso distrair o rebanho tolo, porque, se começa a saber disto, pode não gostar, pois é ele que vai sofrer. É capaz de não ser suficiente tê-lo só a ver jogos da Super Bowl ou Séries de Televisão. É preciso fazê-lo recear inimigos. Nos anos 30, Hitler assustou-o com os judeus e os ciganos. Disse-se-lhe que era preciso esmagar esses inimigos para se defenderem. Também neste caso temos duas possibilidades. Nos últimos dez anos, todos os anos, ou de dois em dois anos, cria-se um qualquer monstro de que é preciso as pessoas defenderem-se. Era costume haver sempre um disponível: os russos. As pessoas podiam sempre defender-se dos russos. Todavia, os russos foram perdendo atractivo como inimigo e cada vez é mais difícil usá-los, por isso tiveram que se arranjar alguns inimigos novos. Com efeito, as pessoas têm criticado injustamente George Bush por não ser capaz de exprimir ou articular o que é que na realidade nos atormenta hoje. É muito injusto. Até cerca de meados dos anos 80, quando as pessoas estavam apáticas, bastava tocar o disco “Vêm aí os russos”. Bush, porém, ficou sem ele e foi preciso inventar novos inimigos, precisamente como fez na década de 80 o aparelho de relações públicas de Reagan. Apareceram, assim os terroristas internacionais, os narco-traficantes, os árabes loucos e Saddam Hussein, o novo Hitler, em vias de conquistar o mundo. Conseguiu-se traze-los uns atrás dos outros. As pessoas foram assustadas, aterrorizadas, intimidadas, de modo que tinham demasiado medo para viajar e escondiam-se com receio. Depois, consegue-se uma brilhante vitória sobre Granada, Panamá ou alguns outros exércitos indefesos do terceiro-mundo, que podem ser pulverizados antes mesmo de se ter o trabalho de olhar para eles — que foi precisamente o que aconteceu. Isto tranquiliza. Fomos salvos no último minuto. Esta é uma das maneiras pela qual se pode evitar que o rebanho tolo preste atenção ao que realmente está a passar-se à sua volta e se mantenha distraído e sob controlo. O próximo da lista, muito provavelmente, será Cuba. Isto exige a continuação da ilegal guerra económica, possivelmente um reflorescimento do terrorismo internacional. No entanto, a maior operação de terrorismo internacional organizado foi a Operação Moongoose, e o que se lhe seguiu, montada pelo governo de Kennedy contra Cuba. Não há nada remotamente comparável com isto, excepto, talvez, a guerra contra a Nicarágua, se a isso se chamar terrorismo. O Tribunal Mundial classifica essa guerra mais como agressão do que outra coisa. Há sempre uma ofensiva ideológica que constrói um monstro quimérico e depois campanhas para o esmagar. Não se pode lá ir se o monstro puder ripostar. Seria muito perigoso. Mas se se tiver a certeza de que o monstro será esmagado, então talvez se possa derrubar esse e soltar outro suspiro de alívio.