Os Membros Fantasmas no Folclore

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Membros Fantasma
Membros Fantasma

Há milhares de anos que se fazem amputações. Foram encontradas em cavernas de França e Espanha gravuras de mãos com dedos amputados que datam de há 36.000 anos, e no Egipto foram descobertos braços artificiais sepultados com múmias. Quanto a órgãos, não restam dúvidas de que desde tempos imemoriais eles se perdem em acidentes e lutas. Além disso, há a considerar as amputações por castigo, como é o caso do antigo código hebraico de retaliação, “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”, e da pena islâmica tradicional por roubo, que consiste em amputar o braço direito do ladrão. Portanto, podemos ter praticamente a certeza de que os fantasmas e as dores fantasma não são, de modo algum, Fenómenos novos, pois há milénios que são conhecidos e discutidos. Do mesmo modo que não será difícil imaginar que o folclore que envolve os fantasmas tenha passado de geração em geração.

A sensibilidade dos amputados às variações do tempo é lendária e, neste aspecto, o folclore está constantemente a receber o reforço da experiência. “Os movimentos involuntários dos dedos ausentes das mãos ou dos pés são frequentes, e em inúmeros casos são prenúncio infalível de vento leste.” Seria relativamente fácil investigar experimentalmente o rigor de tais previsões meteorológicas, bem como verificar se elas são totalmente explicáveis em termos de temperatura, humidade, pressão atmosférica e outros factores puramente físicos.

Há outros aspectos do folclore que são mais difíceis de verificar, mas nem por isso menos fascinantes. Um deles, que vem ao de cima de forma recorrente, lembra a tradicional crença mágica em que uma parte separada do corpo continua ligada a ele por uma espécie de acção à distância, ou conexão não-local. A primeira vez que se me deparou esta maneira de pensar foi na Malásia, quando lá vivi. Um dia, numa aldeia malaia, uma kampong, eu estava a cortar as unhas, atirando as aparas para um arbusto próximo. Quando os meus anfitriões viram aquilo, ficaram horrorizados. Explicaram que podia um inimigo apanhá-las e fazer-me mal por artes de bruxaria. Ficaram admirados por eu não saber que os males que eu fazia às aparas das minhas unhas podiam voltar-se contra mim.

Vim mais tarde a descobrir que este tipo de crença está muito divulgado e constitui um dos princípios fundamentais da magia por simpatia, que o antropólogo James Frazer exprimiu concisamente nos seguintes termos: “Coisas que estiveram outrora em contacto umas com as outras continuam a agir umas sobre as outras à distância depois de interrompido o contacto físico.” Um dos aspectos mais intrigantes da teoria quântica é que o princípio da não-localidade – expresso no paradoxo de EinsteinPodolskyRosen e no Teorema de Bell diz praticamente o mesmo sobre os processos físicos que se desenrolam no campo subatómico.

No que respeita aos Membros Fantasma, acredita-se que o destino do membro amputado continua a influenciar a pessoa de que um dia fez parte integrante. Muitas histórias que recebi de leitores da revista dos Veterans of Foreign Wars mostram que esta tradição continua viva e pujante. Numa delas, William Craddock conta como começou por saber da crença pelo pai, que fora encarregado das caldeiras e da manutenção num hospital de JacksonvilleIllinois:

“Por alturas de 1940, eu costumava parar na casa das caldeiras quando regressava da escola. Um dia o meu pai tinha em cima da bancada de trabalho uma coisa embrulhada num pano e tentou escondê-la quando me viu entrar. Eu reparei que o pano tinha sangue, e quando perguntei ao meu pai o que era ele disse que não era nada. Disse-me depois que era um membro amputado e que tinha acabado de o embrulhar para que nenhuma parte dele sofresse dobragens que não fossem naturais. Contou-me que conhecia um homem que sofria grandes dores de um braço amputado até que o desenterraram e lhe desdobraram os dedos. E a dor passou-lhe.”

Outro caso, de um homem a quem tinham amputado um dedo, que conservava num frasco:

O homem passou vários anos sem problemas. Até que voltou ao médico, queixando-se de uma sensação de frio extremo no dedo que lhe faltava. O médico perguntou-lhe onde estava o frasco com o dedo amputado. O homem respondeu que estava na cave aquecida da casa da mãe, onde sempre tinha estado. O médico disse-lhe que telefonasse à mãe e lhe pedisse para ir ver se o dedo lá estava. A senhora não queria ir mas foi, e verificou que havia um vidro partido numa janela, a escassos centímetros do sítio onde estava o frasco. Aquecido o frasco com o dedo, a dor desapareceu.

Nos anos 80 do Século XIX, o psicólogo americano William James fez um estudo com 200 amputados e chegou à conclusão de que este tipo de crença estava “muito generalizado”. Mais recentemente, alguns psiquiatras tentaram explicar a dor fantasma como sendo “fantasias” baseadas nesta crença. Um caso descrito na bibliografia refere-se a um rapaz de catorze anos que sentia uma forte dor ardente no fantasma, depois da amputação de uma perna. Os psiquiatras descobriram que, no ano anterior, um dos professores do rapaz tinha falado de amputações na aula e contado a história de um homem que sentia fortes picadas num Membro Fantasma. Desenterraram a perna à procura da causa das picadas, tendo descoberto que as formigas estavam a corroer o membro amputado. Segundo o relato, a dor passou quando tiraram as formigas e voltaram a enterrar a perna com muito cuidado. Perante esta história, o rapaz ficou convencido de que a incineração da sua perna amputada era a causa da dor ardente que sentia no fantasma.

Dor nos Membros Fantasma
Dor nos Membros Fantasma

Outro caso psiquiátrico dizia respeito a uma jovem a quem tinham amputado as duas pernas quando tinha dezasseis anos, na sequência de um acidente de automóvel. Mais tarde veio a sofrer de fortes dores fantasma, também do tipo ardente.

Debaixo de hipnose, lembrou-se de que na altura do acidente tinha dito ao médico que não queria que as pernas amputadas fossem incineradas, mas sim enterradas: queria fazer um funeral das pernas. O médico ignorou o pedido. O psiquiatra tratou-a sugerindo-lhe, sob o efeito de hipnose, que, apesar de as pernas dela terem sido incineradas, continuavam com ela em sentido espiritual, embora não em sentido físico. “Começou a sentir-se melhor, dando a ideia de que acreditava que, simbolicamente, tinha recuperado as pernas.” Desapareceram-lhe por completo as dores fantasma. É um dos poucos casos de cura completa que encontrei na bibliografia médica.

Crenças idênticas estão amplamente espalhadas pela Rússia dos nossos dias e por muitas outras partes do mundo. É claro que os cépticos não têm dúvida de que se trata de meras superstições. Mas como podem ter assim tanta certeza? Nunca ninguém fez as devidas experiências. Embora o estudo da influência das partes amputadas sobre as dores fantasma não seja para mim uma prioridade, vale a pena referir de passagem que esta questão é efectivamente susceptível de investigação empírica.

Trata-se de experiências que não seriam difíceis de fazer, desde que se contasse com a colaboração do pessoal e dos pacientes de um hospital em que se faça por rotina a incineração dos membros amputados sem consultar os pacientes. Com vista à experiência, dividir-se-iam aleatoriamente os membros amputados em três lotes. Um dos lotes seria incinerado, como de costume; os do segundo seriam enterrados estendidos; os do terceiro enterrados dobrados. Seguir-se-ia um método de “dupla ocultação”, por forma a que nem os pacientes nem os médicos soubessem qual o destino dos membros amputados. Depois, a intervalos variados, inquiriam-se os pacientes sobre se sentiam dores, e de que tipo. Se não se registassem diferenças significativas entre grupos, confirmar-se-ia a hipótese dos cépticos. Mas se houvesse diferenças do tipo de os donos dos membros incinerados terem dores mais ardentes e os dos membros enterrados flectidos terem mais dores que os dos membros enterrados estendidos, então o folclore tradicional passaria a ter reforço experimental. E podia-se alterar em conformidade a prática médica, pelo menos ao ponto de permitir aos pacientes que tivessem uma palavra a dizer sobre o destino a dar aos membros que lhes são amputados.

Fonte: LIVRO: «7 Experiências que podem mudar o Mundo» de Rupert Sheldrake

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