O Poder do Olhar

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Olhar
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A sensação de que alguém está a olhar para nós é sobejamente conhecida. Em sondagens informais que fiz na Europa e na América, cheguei à conclusão de que cerca de 80% das pessoas que inquiri declaravam que já tinham tido essa sensação. É também um dado adquirido em inúmeras obras de ficção, em frases como “ela sentiu que ele lhe perfurava a nuca com os olhos”. Romancistas como TolstoiDostoievskiAnatole FranceVictor FlugoAldous HuxleyD. H. LawrenceJ. Cowper PowysThomas Mann e J. B. Priestley descrevem-na de forma explícita. Eis um exemplo retirado de um conto de Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes:

“O homem interessa-me enquanto estudo psicológico. De repente, esta manhã, ao pequeno-almoço, tive aquela vaga sensação de desconforto que invade uma pessoa quando é olhada fixamente e, levantando rapidamente os olhos, encontrei os dele curvados sobre mim com uma intensidade que raiava a ferocidade, mas a expressão daquele olhar imediatamente se suavizou, enquanto ele fazia uma observação trivial sobre o tempo. O mais curioso é que Flarton afirma que teve ontem uma experiência muito parecida, na coberta do navio.”

A veterana investigadora psíquica britânica Renée Haynes descreveu nos seguintes termos algumas das suas observações informais sobre este assunto:

“O impulso de virar a cabeça não tem a mesma força em todas as pessoas, e há casos – como o dos empregados de mesa – em que ele é provavelmente atrofiado, ignorado ou objecto de resistência directa. Mas uma pequena e simples experiência, por exemplo, numa conferência enfadonha ou num café apinhado de gente, basta para demonstrar que, na maioria dos casos, um olhar intenso sobre a nuca de uma pessoa desencadeia uma sensação de desconforto seguida de um incomodado olhar para trás. Também se pode fazer a experiência com gatos e cães que dormem – para já não falar de crianças, que assim se podem acordar de um modo mais humano do que com uma esponja fria – e com aves de jardim.”

É provável que os efeitos do olhar desempenhem um papel importante no relacionamento das pessoas com os seus animais de companhia, sendo possível que não só os animais reajam aos donos desta maneira mas também os donos respondam aos animais. Em «The Call ofthe Wild» («O Apelo da Selva»), Jack London, arguto observador literário do comportamento dos cães, descreve uma situação particularmente íntima passada com o cão Buck:

“Ficava horas deitado, ansioso, alerta, aos pés de Thornton. Ou, noutras alturas, mais longe, ao lado ou atrás dele, a observar os contornos do homem e os movimentos ocasionais do seu corpo. E, muitas vezes, era tal a comunhão em que viviam que a força do olhar de Buck fazia John Thornton virar a cabeça na sua direcção e retribuir-lhe o olhar, sem palavras, o coração a brilhar-lhe nos olhos, tanto quanto brilhava o coração de Buck nos olhos deste.”

Existem também muitas provas circunstanciais da influência do olhar no seio de outras espécies, nomeadamente na vida selvagem. Vejamos, por exemplo, como um naturalista descreve o poder do olhar nas raposas:

Poder do Olhar
Poder do Olhar

“Passei horas junto de diversas tocas, e repetidas vezes testemunhei o que me pareceu ser uma excelente disciplina; mas nunca ouvi uma raposa emitir um grunhido ou guincho de aviso de qualquer espécie. Durante horas a fio, os filhotes entregam-se a divertidas brincadeiras ao sol da tarde, uns perseguindo ratos e gafanhotos imaginários, outros desafiando os companheiros para lutas e caçadas de faz-de-conta; e a característica mais surpreendente do exercício, uma vez que nos familiarizemos com aquelas criaturinhas fascinantes, é que a raposa velha, que se mantém à distância, em sítio de onde possa vigiar a brincadeira e os arredores, dá a sensação de ter sempre a família sob controlo, mesmo sem alguma vez proferir uma palavra. De vez em quando, se as diabruras de um filhote o levam a afastar-se demasiado da toca, a raposa ergue a cabeça para o fitar intensamente; e, vá-se lá saber como, aquele olhar tem o efeito de um chamamento silencioso da mãe, que faz parar o raposinho como se ela lhe tivesse mandado um grito ou uma mensagem. Se isto acontecesse uma vez, poder-se-ia pensar que era fruto do acaso; mas acontece constantemente, e sempre no mesmo tom de desafio. De repente, o raposinho atrevido cai em si, volta-se como se tivesse ouvido uma ordem, capta o olhar da raposa e regressa, obediente, como um cão treinado que responde ao apito do treinador.”

Na década de 1980, quando me apercebi das enormes implicações teóricas deste fenómeno, procurei saber que investigação prática havia sobre o assunto. Para minha grande surpresa, verifiquei que era muito pouca. Dei uma conferência sobre o tema na Britisb Society for Psycbical Research (Sociedade Britânica de Investigação Psíquica), em Londres, e tive esperança de que algum dos seus membros tivesse um conhecimento especial de eventuais estudos experimentais sobre os efeitos do olhar, mas mais uma vez me enganei, embora a notável Renée Haynes tivesse, como sempre, um abundante fornecimento de episódios sobre o tema. Também falei do assunto com vários parapsicólogos nos Estados Unidos, e fiquei a saber que ainda nenhum deles tinha trabalhado sobre o assunto, ou lhe tinha dedicado atenção. Pesquisando os arquivos científicos, tudo quanto consegui descobrir sobre a matéria foram seis artigos nos últimos cem anos, dois dos quais por publicar. Os psicólogos ortodoxos ignoram o fenómeno, o que não surpreende, dada a sua “paranormalidade”. Mas já surpreende mais que os parapsicólogos também o ignorem. Na maioria dos livros sobre Parapsicologia nem sequer é mencionado. O facto de os próprios parapsicólogos menosprezarem o fenómeno é, em si mesmo, muito interessante, e sugere a existência de um extraordinário “ponto negro”, que equivale quase a um tabu inconsciente. Porque será? Talvez porque a sensação de que alguém está a olhar para nós está muito relacionada com crenças que as pessoas do nosso tempo gostariam de descartar como supersticiosas, nomeadamente o “mau-olhado”.

Fonte: LIVRO: «7 Experiências que podem mudar o Mundo» de Rupert Sheldrake

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