A Cura Fatal: Como a medicina provou estar errada, por diversas vezes, ao longo dos tempos (Parte 2 de 2)

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Aparelho de Finsen, de tratamento para o Lupus, através de Luz
Aparelho de Finsen, de tratamento para o Lupus, através de Luz

Galardões presos com alfinetes

Os “nobelizados” não estão isentos de erros e enganos quando são galardoados por investigações médicas. Em 1903, Niels Ryberg Finsen recebeu a distinção sueca por uma questionável terapia contra o lupus vulgaris, baseada em expor o doente a raios de luz, enquanto Johannes Andreas Grib Fibiger conquistou o prémio em 1926 por descobrir (erradamente) que um verme microscópico a que chamou Spiroptera carcinoma, actualmente conhecido por Gongylonema neoplasticum, provocava o cancro.

Porém, o mais polémico foi o prémio de 1927, atribuído a Julius Wagner-Jauregg por encontrar um método para tratar a paralisia progressiva causada pela sífilis. O tratamento consistia, essencialmente, em inocular malária ao doente, fazendo jus ao conhecido ditado “mordedura de cão cura-se com pêlo de cão”. O médico austríaco chegou a essa conclusão depois de tratar assim nove pacientes. Destes, três disseram sentir-se melhor passado um ano; outros três melhoraram mas, depois, sentiram-se pior; dois não se aperceberam de qualquer alteração em alguns dos sintomas; o último morreu de malária. Segundo Wagner-Jauregg, seis tinham recuperado, e a verdade é que conquistou o Nobel.

Hoje, a poderosa indústria farmacêutica financia grande parte da investigação médica e enche de regalias os clínicos com poder de receitar, o que a transforma numa importante fonte de fiascos. De todos os erros que se verificaram, seguramente o mais grave é o da talidomida, um medicamento comercializado para aliviar os enjoos das grávidas que acabou por provocar deficiências e deformações nos fetos até o obstetra australiano William McBride e o pediatra alemão Widukind Lenz terem lançado o alerta. Curiosamente, o erro quase não produziu efeitos nos Estados Unidos (apenas 17 crianças nasceram com deformações): a FDA, a agência de medicamentos daquele país, não autorizou o seu lançamento, pelo que só foi usado na fase experimental. “A lição a retirar é que nenhum medicamento pode ser considerado, à partida, totalmente seguro durante a gravidez”, disse Hugh R.K. Barber, director do Departamento de Obstetricia e Ginecologia do Hospital Lenox Hill de Nova Iorque.

O caso da talidomida também colocou em evidência como é fácil um médico transformar-se em herói sem o merecer verdadeiramente. Foi o que aconteceu com o já referido McBride. No dia 16 de Dezembro de 1961, publicou uma carta de dez linhas na revista The Lancet na qual dizia ter detectado graves anomalias em crianças nascidas de mulheres que tinham tomado o fármaco. A carta terminava deste modo: “Será que algum dos vossos leitores observou casos análogos em crianças nascidas de mulheres que consumiram o mesmo produto durante a gravidez?” Mais do que um aviso, parece uma tentativa de obter informação. Na realidade, foi Lenz que demonstrou cientificamente o perigo que a talidomida representava, num texto concluído a 7 de Dezembro e publicado na revista alemã Deutsche Medizinische Wochenschrift a 29 desse mês, 13 dias depois de ter surgido a lacónica missiva de McBride. Esse período de tempo foi suficiente para o segundo (e não Lenz) ter embolsado o prémio de dez mil francos que o Instituto francês da Vida lhe atribuiu pela descoberta. No entanto, acabou por merecê-lo, de certo modo, pois, após muitas experiências, conseguiu demonstrar de que forma a talidomida produziu os efeitos catastróficos.

Mais esperto do que os outros

Contudo, o grande bluff da medicina foi a clamorosa derrota na “guerra contra o cancro” declarada, em Janeiro de 1971, pelo então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. No habitual discurso do Estado da Nação, afirmara: “Vou atribuir uma verba suplementar de cem milhões de dólares para lançar uma campanha intensiva com o objectivo de encontrar uma cura para o cancro, e posteriormente determinarei os fundos adicionais que sejam necessários. Chegou a altura de a América se concentrar no mesmo tipo de esforço que conseguiu desintegrar o átomo ou colocar o homem na Lua.” No dia 23 de Dezembro, Nixon assinava o National Cancer Act, uma declaração oficial de guerra contra a doença.

Quase 40 anos depois, após milhares de milhões de dólares gastos e centenas de tratamentos baseados unicamente no método de tentativa e erro, a batalha contra a doença está longe de ser vencida. De nada serviu o entusiasmo dos meios de comunicação social: na década de 90, o New York Times chegou a garantir, uma dezena de vezes, que se tinha encontrado a cura. Segundo o Instituto Nacional norte-americano do Cancro (INC), “a biologia de mais de cem variantes demonstrou ser mais complexa do que se poderia imaginar”. Por outras palavras, como disse, com laivos de humor negro, Otis Brawley, um investigador da Sociedade Americana Contra o Cancro: “Um tumor é mais inteligente do que cem oncologistas brilhantes.”

Em 2004, Dieter Holzel, director do prestigiado Registo do Cancro da Universidade de Munique, assinalou que, “nos últimos 25 anos, não se produziram avanços em termos de se conseguir uma maior taxa de sobrevivência em doentes com carcinomas metastásicos do intestino, da mama, do pulmão e da próstata”. Os números do INC não desmentem essa visão pessimista. “A taxa de sobrevivência para as pessoas com cancro em estado adiantado pouco se alterou nas últimas duas décadas”, confirma Ruth Etzioni, do Centro de Investigação do Cancro em Seattle. Os 200 mil milhões de dólares que foram investidos em investigação, só nos Estados Unidos, produziram milhão e meio de artigos científicos sobre a biologia essencial da doença e algumas conquistas no diagnóstico precoce e no tratamento de certos tumores. Um balanço deveras pobre.

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