COVID-19: A Alquimia do Sacrifício

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Sacrifício
Sacrifício

De todos os rituais, o sacrifício é o mais potente, porque de todas as coisas do mundo, o sofrimento é a mais pungente.

Nunca se consegue ignorá-lo ou duvidar dele. Se quiser fazer com que as pessoas realmente acreditem em alguma ficção, seduza-as a fazer um sacrifício por ela. Se sofrer por uma história, normalmente isso é o suficiente para convencê-lo de que a história é real.

Se jejua porque Deus lhe ordenou que o faça, a tangível sensação de fome, mais do que qualquer estátua ou ícone, faz com que Deus esteja presente.

Se perder as pernas numa guerra patriótica, os seus cotos e a cadeira de rodas tornam a nação mais real do que qualquer poema ou hino.

Ou, num nível menos grandioso, ao preferir comprar uma massa local inferior a uma massa de alta qualidade importada da Itália, pode estar a efectuar um pequeno sacrifício diário que faz o mito da nação parecer mais real até no supermercado.

Deus
Deus

É claro que se trata de uma falácia lógica. Se sofrer por causa da sua crença em Deus, na nação, ou numa crise sanitária, isso não prova que as suas crenças são verdadeiras. Talvez esteja apenas a pagar pelo preço da sua credulidade?

Contudo, a maioria das pessoas não gosta de admitir que são tolas.

Consequentemente, quanto mais sacrifícios fazem por uma determinada crença, mais forte é a sua fé. Essa é a misteriosa alquimia do sacrifício.

Para nos trazer ao âmbito do seu poder, o sacerdote que faz o sacrifício não precisa dar-nos nada — nem chuva, nem dinheiro, nem vitória na guerra. O que precisa fazer é retirar alguma coisa. Uma vez convencidos a fazer algum sacrifício doloroso, estamos presos na armadilha.

Isso também funciona no mundo comercial. Se comprar um Fiat usado por 2 mil euros é provável que reclame dele a quem quiser ouvi-lo. Mas, se comprar um Ferrari novinho por 500 mil euros, irá entoar laudos alto e bom som, não porque seja um carro maravilhoso, mas porque pagou uma fortuna e precisa alimentar continuamente que se trata da coisa mais maravilhosa do universo.

Werther
Werther

Até mesmo no romance, todo aquele que aspira a ser um Romeu ou um Werther sabe que sem sacrifício não existe amor verdadeiro. O sacrifício não é apenas um modo de convencer a pessoa amada de que o seu amor é sério — mas um meio de se convencer a si mesmo de que está realmente apaixonado.

O que está por detrás do ritual da oferta de um anel de diamantes? Uma vez que o/a amante tenha feito tal sacrifício financeiro, terá de se convencer a si mesmo de que foi por uma causa digna.

O autossacrifício é extremamente convincente não apenas para os próprios mártires, mas também para os espectadores. Poucos deuses, nações ou revoluções são capazes de se sustentar sem mártires.

Se ousar questionar o drama divino, o mito nacionalista ou a saga revolucionária, será imediatamente repreendido: “Mas e os abençoados mártires que morreram por isso? Você ousa afirmar que eles morreram por nada?”.

À medida que mais sacrifícios – justificados pelo mito de uma pandemia mortal – são exigidos, maior é o risco de se estar a recrudescer a fé neste dogma.

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