A legalização de qualquer fenómeno

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A janela Overton
A janela Overton

Na sociedade actual de tolerância, na qual existem ideais fixos e como resultado, nenhuma divisão clara entre o bem e o mal. Existe uma técnica para mudar as atitudes populares em relação a conceitos considerados totalmente inaceitáveis.

Esta técnica, denominada “a janela Overton” consiste numa sequência específica de acções para alcançar o resultado desejado, “pode ser mais eficaz do que a carga nuclear como arma de destruição das comunidades humanas”, escreve o colunista Evgueni Gorzhaltsan.

No seu artigo na página de Internet Adme, Gorzhaltsan dá o exemplo radical de como tornar a ideia de legalizar o canibalismo passo a passo aceitável, desde a fase em que é considerada uma acção repugnante e impensável, completamente alheia à moralidade pública, até se tornar uma realidade aceite pela consciência de massas e pela lei. Isto não é conseguido através de lavagem cerebral directa, mas com técnicas mais sofisticadas que são eficazes através da sua aplicação consistente e sistemática sem que a sociedade se aperceba do processo, acredita Gorzhaltsan.

Primeira etapa : do impensável ao radical

Joseph Overton
Joseph Overton

Obviamente, a questão da legalização do canibalismo está actualmente no nível mais baixo de aceitação na “janela de possibilidades” de Overton, uma vez que a sociedade a considera um fenómeno absurdo e impensável, um tabu.

Para mudar esta percepção, pode-se, sob o guarda-chuva da liberdade de expressão, mover a questão para a esfera científica, uma vez que para os cientistas não existem normalmente assuntos tabu. Assim, é possível realizar, por exemplo, um simpósio etnológico sobre rituais exóticos das tribos polinésias e discutir a história do tema de estudo e obter afirmações autorizadas sobre canibalismo, assegurando assim a transição da atitude negativa e intransigente da sociedade para uma atitude mais positiva.

Simultaneamente, deve ser criado algum grupo radical de canibais, mesmo que exista apenas na Internet, o que certamente será notado e citado por numerosos meios de comunicação social. Como resultado da primeira fase de Overton, o tabu desaparece e o tema inaceitável começa a ser discutido.

Segunda etapa: do radical ao aceitável

Nesta fase, os cientistas devem continuar a ser citados, argumentando que não se pode proteger de ter conhecimentos sobre canibalismo, porque se alguém se recusar a falar sobre isso, será considerado um hipócrita fanático.

Canibalismo
Canibalismo

Ao condenar a intolerância é também necessário criar um eufemismo para o próprio fenómeno, a fim de dissociar a essência da questão do seu nome, para separar a palavra do seu significado. Assim, o canibalismo torna-se “antropofagia”, e subsequentemente “antropofilia”.

Em paralelo, pode ser criado um precedente de referência, histórico, mitológico, contemporâneo ou simplesmente inventado, mas o mais importante é que seja legitimado, para que possa ser utilizado como prova de que a antropofilia pode, em princípio, ser legalizada.

Terceira etapa: do aceitável ao sensato

Nesta fase, é importante promover ideias como as que se seguem: “o desejo de comer pessoas é geneticamente justificado”, “por vezes uma pessoa tem de recorrer a isso, se existirem circunstâncias convincentes” ou “um homem livre tem o direito de decidir o que come”.

Os verdadeiros opositores destes conceitos, ou seja, pessoas comuns que não querem ficar indiferentes ao problema, tornam-se intencionalmente para a opinião pública inimigos radicais cujo papel é representar a imagem de psicopatas loucos, opositores agressivos da antropofilia que queimam canibais vivos, juntamente com outros representantes de minorias.

Peritos e jornalistas nesta fase mostram que durante a história da humanidade houve sempre ocasiões em que as pessoas se comiam umas às outras e que isto era normal.

Quarta etapa: do sensato ao popular

Os meios de comunicação social, com a ajuda de pessoas conhecidas e políticos, já falam abertamente sobre a antropofilia. Este fenómeno começa a aparecer em filmes, letras de canções populares e vídeos. Nesta fase, a técnica de promover referências a figuras históricas proeminentes que praticaram a antropofilia também começa a funcionar.

Meios de comunicação social
Meios de comunicação social

Para justificar os apoiantes da legalização do fenómeno, pode-se recorrer à humanização dos criminosos, criando uma imagem positiva dos mesmos dizendo, por exemplo, que são eles as vítimas, uma vez que a vida os obrigou a praticar a antropofilia.

Quinta etapa: do popular ao político

Esta categoria já implica começar a preparar legislação para legalizar o fenómeno. Grupos de pressão consolidam-se no poder e publicam inquéritos que supostamente confirmam uma elevada percentagem de apoiantes da legalização do canibalismo na sociedade. Na consciência pública é estabelecido um novo dogma: “A proibição de comer pessoas é proibida”.

Janela de Overton
Janela de Overton

Esta é uma técnica típica do liberalismo que funciona por causa da tolerância como pretexto para a ilegalização de tabus. Durante a última fase do “movimento da janela de Overton” do popular para o político, a sociedade já sofreu uma ruptura, uma vez que as normas da existência humana foram alteradas ou destruídas com a adopção das novas leis.

Gorzhaltsan conclui que o conceito de “janelas de possibilidades”, inicialmente descrito por Joseph Overton, pode ser extrapolado para qualquer fenómeno e é especialmente fácil de aplicar numa sociedade tolerante, onde a chamada liberdade de expressão se transformou em desumanização e onde, perante os nossos olhos, todas as fronteiras que protegem a sociedade do abismo da autodestruição são removidas uma após outra.

Fonte: rt.com

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