Para o FMI, o resgate ao estilo islandês é uma lição a reter em tempos de crise

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Um exemplo a seguir em tempos de crise
Um exemplo a seguir em tempos de crise

Depois de a sua abordagem à intervenção externa ter conduzido a economia a uma recuperação surpreendentemente forte, a Islândia tem lições fundamentais a dar aos países que queiram sobreviver aos resgates.

O compromisso da Islândia para com o seu programa de ajustamento, a decisão de impor perdas aos credores em vez de sobrecarregar os contribuintes e a opção de salvaguardar um Estado social que protege os desempregados da pobreza, permitiu ao país passar do colapso à recuperação. Quem o diz é o Fundo Monetário Internacional (FMI).

“A Islândia conseguiu conquistas significativas desde a crise”, disse Daria Zakharova, chefe de missão do fundo para o país, numa entrevista. “Temos uma previsão de crescimento muito positiva, sobretudo para este ano e para o próximo, porque o crescimento parece assentar numa base ampla”, acrescentou.

A Islândia recusou proteger os credores dos seus bancos, que entraram em falência em 2008 depois de as suas dívidas terem atingido 10 vezes mais do que a dimensão da economia. A decisão da ilha de se proteger de uma fuga de capitais, restringindo a circulação da moeda, permitiu ao Governo repelir um ataque especulativo, estancando a hemorragia da economia. Isso ajudou as autoridades a concentrarem-se no apoio às famílias e às empresas.”O facto de a Islândia ter conseguido preservar um sistema de Estado social mesmo tendo de proceder a uma consolidação orçamental bastante considerável é uma das maiores conquistas do programa e do Governo da Islândia“, afirmou Zakharova.

Em Março, o FMI tinha programas de ajuda com 11 países europeus, para onde são canalizados 65% dos fundos da instituição. Os governos dentro da zona euro têm-se debatido para obedecer aos planos de austeridade prescritos nos pacotes de ajuda da União Europeia e do FMI, que já foram alvo de vários ajustamentos nos termos e nos prazos, como é o caso da Grécia.

FMI Islândia
FMI Islândia

Ao mesmo tempo, os mercados da dívida têm demonstrado falta de confiança nestes programas, atirando as taxas de juro das obrigações para níveis recorde e colocando pressão adicional sobre as finanças públicas. Países dentro da zona euro ou com moedas indexadas ao euro, como a Letónia, têm apostado nos cortes de salários e de apoios sociais para atingir as metas dos programas de ajustamento.

Na Islândia, a queda de 80% da moeda (a coroa islandesa) face ao euro em 2008 ajudou a transformar o défice comercial num excedente logo no final daquele ano. O desemprego, que se tornou nove vezes maior entre 2007 e 2010, caiu para 4,8% em Junho face ao pico de 9,3%, atingido há dois anos. “Cada programa é diferente e responde a situações diferentes, por isso não podemos comparar directamente”, considera Zakharova. “Mas, considerando a dimensão da crise no final de 2008, a recuperação da Islândia foi impressionante”, conclui. A Islândia – que o FMI colocava, em 2005, como a terceira nação mais rica do mundo em termos do PIB per capita, antes de deslizar para o 20.º lugar em 2010 – terminou o seu programa de ajustamento em Agosto do ano passado. Durou 33 meses. A sua economia, que vale 33 mil milhões de dólares (cerca de 27 mil milhões de euros), vai crescer 2,4% este ano, disse o FMI em Abril. Um valor que compara com a contracção de 0,3% prevista para a zona euro.

O crescimento da Islândia está a ser impulsionado pelo consumo privado e pelo investimento, que recuperou mais rapidamente do que se pensava. “Mesmo olhando para as exportações líquidas, que têm um contributo negativo para o crescimento, é porque as importações foram fortes, reflectindo um aumento do consumo e dos rendimentos, bem como as expectativas optimistas das famílias”, explica o chefe de missão do FMI. Ainda assim, salienta, as exportações têm estado a crescer de forma significativa. “O ano passado foi um ano-bandeira para o turismo. Há várias coisas positivas a acontecer”, conclui Zakharova.

À medida que a crise da dívida se acentua, a Islândia, que encetou as conversações para tornar-se membro da UE em 2010 tendo como objectivo a entrada na zona euro, está a começar a questionar-se até que ponto o acesso à união monetária e comercial é o caminho a seguir – 39 dos 63 deputados do Parlamento islandês opõem-se à continuação das negociações para a entrada na UE e poderão pressionar para que o processo seja arquivado antes das eleições do próximo ano, noticiou recentemente o jornal Morgunbladid.

Além disso, a ilha ainda precisa de mostrar que consegue pôr fim ao controlo de capitais de forma bem-sucedida, diz o chefe de missão do FMI. Há o equivalente a cerca de oito mil milhões de dólares parados em “coroas offshore“, visto que, desde 2008, os investidores estrangeiros detentores de moeda islandesa foram proibidos de a trocar por outra divisa. O banco central disse que o plano para pôr fim a estas restrições deverá estar concluído no final de 2015. A lei que permite ao Governo manter o controlo de capitais expira no próximo ano, pelo que a sua extensão obrigaria a uma aprovação parlamentar. O antigo ministro da Economia Arni Pall Arnason disse, numa entrevista em Setembro, que a Islândia não tem planos para regressar à livre circulação da moeda antes de entrar no euro.

Desde que bateu um mínimo histórico a 28 de Março, a coroa islandesa ganhou cerca de 15% face ao euro. “O levantamento dos controlos de capital é um desafio central para a Islândia e não será uma tarefa fácil”, considera Zakharova. Ao mesmo tempo, “o Governo recuperou o acesso aos mercados de capital internacionais e a limpeza dos balanços dos bancos segue a bom ritmo”, salienta, concluindo que é “importante que estes ganhos sejam sustentados e consolidados. Enquanto o banco central se prepara para abrandar o controlo de capitais, as autoridades estão a aumentar as taxas de juro, em parte para proteger a moeda de uma potencial desvalorização. “Será preciso um maior aperto da política monetária nos próximos trimestres para a Islândia alcançar os seus objectivos”, concluiu Zakharova.

17 de Agosto de 2012
Exclusivo: Bloomberg/PÚBLICO

Fonte: Público Economia

Artigo Original: AQUI

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