Subinvestimento ou sobreinvestimento?

0
2013
Elemento central da crise
Elemento central da crise

Para Keynes, o elemento central da crise situa-se ao nível do investimento. Se os capitalistas adoptassem um plano racional a longo prazo, de aumento das capacidades de produção, talvez não surgissem problemas. Mas as decisões não seguem nenhum plano racional e é isso que engendra a recessão, segundo Keynes. Não haveria crise se os empreendedores continuassem a investir. O problema vem de um subinvestimento privado relativo.

É incontestável que a crise surge com o bloqueio do processo de investimento. A produção é assim parada e os assalariados considerados como excedentários são lançados no desemprego. Mas tudo isto não diz nada de preciso sobre as razões profundas destes disfuncionalismos. Keynes refere-se, quer às incertezas que surgem nos mercados, quer aos excessos financeiros que abrem perspectivas de lucros desmesurados.

O problema é que é muito difícil de provar empiricamente as alegações keynesianas. Pode mesmo demonstrar-se o contrário. Esse é o objectivo do seguinte gráfico, que compara a evolução anual [1] do PIB real (portanto corrigido do efeito da subida de preços) e do stock real de activos fixos nos Estados Unidos, desde 1960. Estes últimos são constituídos por todo o aparelho de produção (terrenos, construções, máquinas, ferramentas…). Uma variação anual positiva destes representa portanto um investimento real efectuado na base produtiva, o que permite efectivamente aumentar o conjunto da produção do país.

Crescimento anual do PIB real e do stock reaal de activos fixos nos Estados Unidos 1960 – 2009

 É o PIB que sofre flutuações importantes e o investimento que surge como relativamente estável. Mais interessante ainda é notar que os investimentos seguem a evolução da actividade e não que a precedem. Nos anos 60, o crescimento do PIB não desenvolve senão progressivamente a taxa de acumulação dos activos fixos à alta. Nos anos 70, apesar dos resultados em dentes de serra da produção, o stock progride em níveis recorde (4,3 % em média, entre 1964 e 1981, inclusive). Baixa sempre que a economia se endireita, nos anos 80.

A evolução em seguida é mais paralela. Mas há sempre crescimento da actividade antes do aumento dos investimentos. É o caso dos anos 90. Em seguida, em 2000, o PIB começa a contrair-se antes que o stock de activos fixos evolua da mesma maneira. Ele retoma desde 2002, enquanto o investimento só chega em 2004. Com a crise de subprimes [2] este não começa a subir senão em 2008, enquanto a produção só se lança desde 2007.

Nestas condições, parece-nos arriscado pretender que a recessão vem essencialmente da falta de investimentos. É um facto que, aquando da crise, os capitalistas reduzem ou param as suas despesas em activos fixos. Não há dúvida de que é porque eles compreendem que não podem vender mais e que é impossível continuar a esse ritmo.

Há por outro lado um ligeiro atraso de adaptação, porque certas operações precisam de uma longa imobilização que é difícil impor brutalmente. Entre a decisão de construir uma fábrica automóvel e o primeiro carro que sai efectivamente das cadeias de produção decorre por vezes um período de dois a três anos. Não se pode parar este processo ou mesmo abrandá-lo se não for verdadeiramente necessário, portanto quando a crise estiver mesmo lá e se apresente como suficientemente longa.

É necessário portanto compreender, não porque razão os capitalistas cessam os seus investimentos, mas porque é que eles não conseguem escoar as suas mercadorias. Podemos retomar o pequeno esquema que permite explicar onde Keynes situava o problema, simplificando-o ao máximo.

A produção reparte-se em rendimentos, quer dizer em salários e lucros, que servem para o consumo e para o investimento. Parece-nos inútil estabelecer aqui uma distinção entre poupança e investimento.

Gráfico de relação entre a poupança e o investimento

Os investimentos servem para aumentar a produção e portanto para assegurar o crescimento económico. É esse esquema que Keynes considera perfeitamente são e que é pervertido, segundo ele, pelo entesouramento ou a especulação.

Para nós, é este funcionamento que, num quadro capitalista, está fundamentalmente viciado. Porquê? Porque a produção é dirigida pelos capitalistas cujo objectivo é, ao mesmo tempo, aumentar os seus lucros e acumular capital para ganhar ainda mais no futuro.

A partir daí, os dirigentes das empresas não deixarão nunca de, nos rendimentos, aumentar a parte dos lucros em relação à parte recebida pelos assalariados. Esse é o objecto de uma luta (de classes). Eles nem sempre o conseguem, mas o seu objectivo é esse. Da mesma forma, com um lucro aumentado (ou mesmo sem isso), eles terão tendência para aumentar a proporção que vão consagrar ao investimento, porque esse é um meio de crescerem e tornarem-se poderosos e, se não o fizerem, a concorrência obrigá-los-á a isso.

Tomemos um exemplo em números. A produção de 100 é repartida em 60 para os salários e 40 para os lucros. Nestes, 20 são consagrados ao consumo dos capitalistas e 20 ao investimento. Isto corresponde, grosso modo, a uma situação estável da economia num dado momento. Vende-se portanto 80 em bens de consumo e 20 em bens de produção. Mas os 20 investidos aumentam a produção que passa, digamos, para 140. Os empresários irão ficar com uma parte maior e apropriar-se, por exemplo, de 63 e os assalariados do resto, ou seja, 77. A parte de cada um, que era de 60 % para os trabalhadores e de 40 % para o patronato, passa para uma relação menos elevada, de 55 contra 45 %, sem que os assalariados vejam os seus rendimentos diminuídos. Pelo contrário, eles ganham globalmente 77 em lugar de 60. Os dirigentes decidem aumentar ligeiramente o seu consumo para 23 e reservar 40 para o investimento. Assim, a massa de dinheiro destinado ao consumo sobe a 100 (77+23).

O que é que as firmas podem propor? Maiores quantidades. Porquê? Porque, se na situação de origem os bens de produção de 20 podem fornecer um montante de 80 em produtos de consumo e se os primeiros passam a 40, pode considerar-se que normalmente as mercadorias de consumo final deveriam atingir o nível de 160. Ou seja, bastante mais do que a população pode comprar. Chama-se a isto a sobreprodução.

Estes números não são senão exemplos. Mostram simplesmente um mecanismo que decorre permanentemente. Por um lado, as forças para aumentar a produção manifestam-se para gerar os rendimentos das empresas, os lucros dos accionistas, os prémios dos dirigentes, de maneira cada vez mais importante. Mas, ao mesmo tempo, elas provocam uma baixa relativa dos meios consagrados ao consumo, e isto em dois tempos: primeiro, comprimindo o mais possível os salários que servem para o consumo, mas também – e isto é frequentemente esquecido – reduzindo os montantes relativos do consumo dos capitalistas. É o conjunto dos meios destinados ao consumo que é reduzido, enquanto as capacidades de produção são forçadas constantemente a aumentar. Daqui decorre necessariamente um grande desvio: a sobreprodução.

Pode acontecer que os capitalistas entesourem ou especulem e que o dinheiro investido nos mercados financeiros não retorne ao circuito habitual. Isto engendrará ainda maiores problemas. Mas, fundamentalmente, é no coração do sistema e no seu funcionamento que se situa a crise, como Marx o tinha analisado no seu tempo.

 NOTAS:

[1] Não é possível conseguir dados mais detalhados para o stock de activos fixos.

[2] Créditos imobiliários negociados com as famílias que não tinham meios de reembolso.

Índice de “Keynes e a crise”: https://paradigmas.online/?p=420

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here