CIA: O Caso Hunt e o Watergate

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Richard Nixon
Richard Nixon

A noite de 16 para 17 de Junho de 1972 seria realmente o ponto inicial do mais importante escândalo político de toda a História dos Estados Unidos, quando cinco assaltantes foram apanhados em flagrante nos escritórios do quartel-general do Congresso Nacional do Partido Democrata, no edifício Watergate de Washington.

Os cinco assaltantes eram Bernard BarkerVirgilio GonzálezEugénio MartínezJames McCord e Frank Sturgis; todos eles seriam relacionados com o grupo de “canalizadores” da Casa Branca sob o comando de Gordon Liddy e Howard Hunt. Este seria o começo do fim.

Apenas seis meses antes Richard Nixon ficara louco e, nessa loucura, cometeria um dos mais graves erros da sua vida. Enquanto o jornal diário The Neip York Times continuava a publicar os “Papéis do Pentágono“, disponibilizados pelo analista Daniel EllsbergNixon continuava zangado porque J. Edgar Hoover, director do FBI, se negara a investigar a origem dessa filtração de informação. O próprio Richard Nixon escreveria nas suas memórias: “Hoover mostrava indolência no que tocava à investigação do caso Ellsberg. Se o FBI não prosseguisse com as investigações, decidi que nós mesmos teríamos de nos encarregar delas”.

“O que se faça pouco me importa. Façam o que for preciso para acabar com estas passagens de informação para a Imprensa e impedir mais revelações não autorizadas. Não quero saber por que motivo não se pode fazer. Quero saber quem está por trás disto. Quero resultados. Quero que se faça, custe o que custar”, afirmaria o próprio presidente Richard Nixon a Charles Colson, um dos seus conselheiros mais próximos, em finais do mês de Junho de 1971. As ordens de Nixon foram acatadas com o posterior preço político para este, mas ao fim e ao cabo ele era presidente dos Estados Unidos da América, o comandante-chefe e, supostamente, o homem que devia respeitar e fazer respeitar a Constituição.

Egil Krogh e David Young, ambos conselheiros do presidente, instalaram-se num labirinto de escritórios subterrâneos, muitos dos quais eram usados como armazéns, nas caves do Executive Office Building. Essa zona tornar-se-ia em pouco tempo uma espécie de Fort Knox, inclusive com mais medidas de segurança que a vizinha Casa Branca. A zona de escritórios estava repleta de alarmes, caixas-fortes de combinação tripla, salas de conferências, escritórios isolados e linhas telefónicas “limpas”. Como ponto final da decoração, David Young mandou fazer uma placa de bronze que pendurou na porta e que dizia: “Sr. YoungCanalizador“, e o próprio YoungKrogh e toda a sua equipa seriam recordados como os “canalizadores”.

A cadeia de comando, ao mais puro estilo de Eisenhower e da sua “negação plausível”, ia de Nixon a John Ehrlichman; deste a Egil Krogh; de Krogh a YoungCharles Colson e John Dean; e destes três últimos a Gordon Liddy e Howard Hunt, incumbidos de fazer o trabalho sujo.

Howard Hunt, também conhecido como “Eduardo Hamilton“, “Robert Dietrich“, “John Baxter“, “Gordon Davis” e “David St. John“, nascera a 9 de Outubro de 1918 em Nova Iorque. Em 1940 licenciou-se na Universidade de Brown e alistou-se na Reserva Naval.

Em 1941, após o Ataque de Pearl Harbor, integrou o pessoal de um contra-torpedeiro no Pacífico, mas uma questão médica obrigou-o a voltar para terra. Hunt acabaria por se dedicar à escrita de guiões para o Departamento de Guerra, para Séries e Documentários com fins propagandísticos durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943 seria nomeado correspondente da prestigiada revista Life. Graças a esta cobertura, Hunt apresentou-se como voluntário no OSS, o antecessor da CIA. O seu primeiro destino seria a China.

Após o fim da Guerra e quando o presidente Harry Truman decidiu dissolver o OSS, em Outubro de 1945Hunt optou por recusar um posto no CIG (Central Intelhgence GroupGrupo Central de Informação) e tentar a sua sorte no México. Aí o espião desejava ardentemente tornar-se um famoso escritor de romances de espionagem, mas em 1949, quando percebeu que isso não era assim tão simples, decidiu regressar aos Estados Unidos e integrar a CIA.

O primeiro posto na instituição seria no seu braço armado, o então chamado OPC (Office of Policy CoordinationDepartamento de Coordenação Política), onde ocuparia o cargo de chefe do posto do México entre 1950 e 1952. Em 1953 seria destacado de novo para Washington como oficial de contra-espionagem na Divisão do Sudeste da Europa. A sua primeira missão seria recrutar agentes que ajudassem a infiltrar espiões da CIA em território albanês, mas quando o presidente Eisenhower autorizou o início de actividades contra a GuatemalaHunt foi transferido para a Divisão do Hemisfério Ocidental. Incumbiu-se Howard Hunt das tarefas de propaganda Política contra o governo de Jacobo Arbenz.

Hunt completou o trabalho antes de Arbenz ser derrubado por um golpe de Estado organizado pela CIA. Da Guatemala, foi transferido para o Comando do Norte da Ásia da CIA, com base em Tóquio, onde se ocupou da coordenação das operações secretas na região.

Escândalo do Watergate
Escândalo do Watergate

Em 1956 regressa à América Latina como chefe do posto de Montevideu, mas quatro anos depois é nomeado chefe de acção Política na Operação MongooseHunt tinha chamado a atenção dos chefes da Operação MongooseRichard Bissell e William Harvey, quando fazia parte da equipa operacional do Projecto ZR/Rifle, sob o nome de código “Eduardo“.

O agente da CIA permaneceu na Operação Mongoose até que os dissídios com Harvey o obrigaram a demitir-se. O seu posto seguinte seria na Divisão de Operações Internas, que na realidade eram operações de espionagem realizadas pela CIA dentro de território norte-americano, algo que era proibido pela carta fundacional da própria instituição, mediante a Lei de Segurança Nacional de 1947.

Durante os anos seguintes Hunt continuou inactivo até que reapareceu durante a campanha para a nomeação democrata de 1964. Naquele ano ofereceu-se à equipa de Lyndon B. Johnson para espiar o seu adversário na nomeação do Partido DemocrataBarry GoldwaterHunt ofereceu à equipa eleitoral de Johnson uma cópia de todos os discursos que Goldwater tinha previsto fazer durante o congresso.

Em 1970, retirado da CIAHunt trabalhou numa agência de relações-públicas de Washington, até ser contratado pela equipa da Casa Branca no tempo da administração de Nixon. Inicialmente a primeira tarefa encomendada foi de um simples consultor de propaganda responsável por realizar um amplo estudo sobre a expansão norte-americana na Guerra do Vietname durante a administração de Kennedy. Em meados de 1971 Howard Hunt entraria na Unidade Especial de Investigação da Casa Branca, mais conhecida como os “canalizadores”, encarregada de recolher informação secreta, originada nos mais altos níveis do governo, com o objectivo de a contrariar.

Em 1971 Howard Hunt seria incumbido por Charles Colson, conselheiro de Nixon, e por Gordon Liddy, chefe dos “canalizadores”, de criar um ambiente hostil à volta de Daniel Ellsberg, o analista que passou ao New York Times os chamados “Papéis do Pentágono“. No mês de Setembro do mesmo ano a Casa Branca deu ordens a Howard Hunt para assaltar o consultório do doutor Lewis J. Fielding, o psiquiatra de Ellsberg, com a intenção de deitar a mão ao historial do analista para encontrar algum dado com que o desprestigiar em público. Para tal a CIA, por ordem do director Richard Helms, fornecer-lhe-ia microfones, câmaras e documentos falsos caso os operacionais fossem detidos pela polícia. A operação fracassou porque não encontraram nada sobre Daniel Ellsberg e viram-se obrigados a regressar a Washington de mãos vazias.

No Natal de 1971 Gordon Liddy passou a ocupar o cargo de conselheiro da CREEP, a Comissão para a Reeleição do Presidente, trabalhando ombro a ombro com James McCord, outro ex-agente do FBI, com um orçamento de meio milhão de dólares, sem fiscalização alguma. Esse dinheiro podia ser utilizado por Liddy e os seus “canalizadores” sem terem de dar justificações, nem sequer ao presidente. Ainda que Liddy dependesse realmente do jovem chefe da CREEPJeb Magruder, este último evitava fazer perguntas a Gordon Liddy sobre as suas atividades. “O que Mitchell queria de [GordonLiddy e talvez de [HowardHunt era que criassem dentro da CREEP uma unidade de espionagem reservada unicamente para espiar os democratas. Ninguém [na Casa Branca] desejava outra campanha eleitoral como a última. Na CREEP queria saber-se absolutamente tudo da estratégia de campanha do Partido Democrata, e quando digo tudo, é tudo”.

Nixon demite-se
Notícia do The New York Times anunciando a demissão de Nixon

“Durante umas férias”, relata o próprio Hunt na sua autobiografia, intitulada «American SpyMy Secret History in the CIAWatergate & Beyond» “a minha esposa e eu fomos convidados para o que se chamava “Uma tarde na Casa Branca”, em que o presidente e a sua mulher cumprimentavam todo o pessoal da Casa Branca. Quando me tocou a mim cumprimentar o presidente, disse-lhe: “Estou a trabalhar com Charles Colson”, e ele respondeu-me com um sorriso: “Estou a par de tudo.” Para mim era um enorme prazer que o presidente dos Estados Unidos da América conhecesse o meu trabalho, mas só depois do Watergate percebi o significado daquelas palavras”.

Em Janeiro de 1972 a lista dos “canalizadores” também incluía Fred LaRue, filho de um magnata do petróleo, e John Caulfield, um tipo desprezível que estava metido até ao pescoço em operações clandestinas da Casa Branca e uma espécie de toupeira do poderoso John Ehrlichman na unidade de “canalizadores”. Howard Hunt já se ocupava então das chamadas operações Odessa, a classificação de “altamente secreto” para tudo o que estivesse relacionado com os “canalizadores”.

Um bom retrato sobre os homens que rodeavam Richard Nixon na Casa Branca seria o efectuado pelo próprio J. Edgar Hoover e que se encontra no magnífico livro de Anthony Summers «Official and Confidential: The Secret Tife of J. Edgar Hoover».

Hoover disse a Kenneth Whittaker, chefe do FBI em Miami: “John Mitchell jamais esteve sequer numa sala de tribunal. Não está preparado para ser nomeado procurador-geral. EhrlichmanHaldeman e Ziegler [porta-voz de Nixon] não sabem fazer nada excepto vender publicidade. Esse outro conselheiro [legal da Casa Branca], [JohnDean, não sabe nada de leis. Eu não faço caso desse filho da puta.” Noutro parágrafo, Hoover expressa: “No jardim de infância do presidente não param de elaborar planos que ficam a meio. O presidente é um bom homem. E um autêntico patriota, mas ouve as pessoas que não devia ouvir. Meu Deus, tem a trabalhar para ele alguns ex-agentes da CIA [Howard Hunt] que eu expulsaria do meu gabinete ao pontapé. Um dia destes essa pandilha [os “canalizadores”] vai pô-lo em trabalhos.” Essa declaração seria quase profética perante a chegada iminente do assalto à Comissão Nacional do Partido Democrata no edifício Watergate de Washington por parte de cinco “canalizadores” da Casa Branca.

Para Howard HuntJ. Edgar Hoover era um traidor que se negara a efectuar uma acção de espionagem contra uma embaixada estrangeira em Washington. O director do FBI tinha sido convocado à Sala Oval e tinha recebido ordens para executar uma tarefa de espionagem contra a embaixada do Chile. No início Hoover negou-se, mas por fim aceitou, garantindo ao presidente Nixon que se se descobrisse e fosse convocado para alguma comissão de investigação do Congresso não teria o menor problema em confirmar que essa tarefa de espionagem tinha sido executada por recomendação da CIA ou do seu DCI (Richard Helms).

Desde o chamado “Quarto 16“, Hunt dedicou-se a desenvolver operações contra as manifestações e os grupos que as organizavam e que protestavam contra algum aspeto da administração NixonHoward Hunt elaborou a operação “Diamante“, contra os manifestantes durante o Congresso Republicano de San Diego; “Rubi“, com o objectivo de criar manifestações fictícias a favor do presidente Nixon e fazer com que as pessoas votassem nele; “Esmeralda“, com o fim de interceptar o maior número de comunicações dos responsáveis do Partido Democrata e entregar a informação à CREEP; “Cristal“, que consistia em instalar escutas nos quartos do Hotel Fontainebleau, onde se alojariam os representantes democratas durante o Congresso; “Safira“, um plano para o uso de prostitutas de luxo que seriam utilizadas para obter informação dos altos dirigentes da campanha democrata; “Opala“, que consistia na instalação de microfones nos escritórios de vários candidatos democratas como o senador Edmund Muskie ou o senador George McGovern; ou “Turquesa“, que consistia em avariar o sofisticado sistema de ar condicionado durante o Congresso do Partido Democrata. Para todas estas operações a CREEP entregou a Howard Hunt um orçamento adicional de cerca de um milhão de dólares.

A missão encomendada a Hunt por MagruderColson e Liddy seria deitar a mão aos livros da Comissão Nacional Democrata onde se deviam encontrar as contribuições estrangeiras para a campanha presidencial. De seguida um tesoureiro da CREEP entregou num envelope 3000 dólares para pagar os bilhetes de avião de cinco homens que podiam levar a cabo a missão, incluindo Frank Sturgis, antigo colaborador de Hunt.

Sturgis, nascido em 1924, trabalhou como soldado da fortuna, depois de se licenciar no corpo de marines onde tinha servido durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1956 Frank Sturgis mudou-se para Cuba, trabalhando como mercenário e agente contratado da CIA no México, na Venezuela, na Costa Rica, na Guatemala, no Panamá e nas Honduras.

Em HavanaSturgis viu-se envolvido em várias disputas com grupos de delinquentes até que foi detido, a 30 de Julho de 1958, acusado de posse e tráfico de armas. Após a chegada de Fidel Castro ao poder, o mercenário envolveu-se com Marita Lorenz, uma cubana amante de Castro com quem organizaria um conluio para o envenenar.

Complexo de Watergate
Complexo de Watergate

Nos anos seguintes ver-se-ia envolvido no assassínio do presidente Kennedy em Dallas. Um artigo publicado no Florida Sun Sentinel a 4 de Dezembro de 1963 afirmava que Sturgis se tinha reunido várias vezes com Lee Harvey Oswald, o presumível assassino do presidente, mesmo antes do magnicídio. Depois do assassínio de John F. KennedyFrank Sturgis desapareceu.

Assim que chegou a WashingtonHunt alugou um veículo e, com Sturgis, foi inspecionar o edifício Watergate, onde se encontrava o quartel-general dos democratas. “A ideia é fotografar a lista de contribuintes e de políticos democratas que recebem esse dinheiro. Temos de ver essa lista para determinar se essa contribuição é de boa-fé ou, pelo contrário, se o dinheiro provém de Havana ou de Hanói”, explicou Hunt a Sturgis.

O principal contingente de assaltantes viria directamente de Miami. Dois deles, Virgílio González, antigo guarda-costas do ditador Fulgencio Batista, e Eugénio Martínez, faziam parte do grupo de cubanos que tinham colaborado de perto com Hunt e Sturgis na operação da Baía dos Porcos. Os outros dois eram Bernard Barker e James McCordLiddy odiava este último, que definia como “um homem associal, que podia permanecer nas sombras até que alguém precisasse dele para uma operação ilegal”.

A sede do Partido Democrata ocupava seis andares inteiros do edifício Watergate, ainda que não fosse nada fácil aceder-lhe. Barker e Martínez juntaram-se aos assaltantes saindo do quarto 214 do Hotel Watergate. Os cinco “canalizadores” da Casa Branca entraram pelo estacionamento subterrâneo, entraram num elevador depois de passar por um corredor estreito e chegaram até ao sexto andar. O único risco era que o único segurança do edifício visse as luzes das lanternas dos cinco assaltantes.

Os homens de Hunt levavam câmaras Minolta com película de alta sensibilidade para fotografar Documentos. Quando McCord chegou ao sexto andar, protestou energicamente com Sturgis porque os emissores-receptores de rádio não funcionavam, o que obrigava que cada um dos cinco membros da equipa ficasse por conta própria. Os cinco levavam documentos falsos fornecidos pela CIA.

Por volta da meia-noite e meia o vigilante Frank Wills fez uma primeira chamada para a polícia informando-a que se estava a levar a cabo um assalto num dos andares de escritórios do edifício Watergate. Os primeiros a reagir foram uma patrulha da polícia secreta que regressava à esquadra depois de uma missão de vigilância e que há poucos minutos tinha passado perto do edifício. Os três agentes, Paul LeeperCari Shoffler e John Barret, chegaram ao Watergate e contactaram Wills.

O próprio Leeper declararia depois ao Washington Post “Não estávamos preocupados porque simplesmente em 90% ou 95% dos casos trata-se de falso alarme e naquela ocasião pensamos que não seria nada.”

Rolando Pico e Felipe de Diego, sexto e sétimo integrante da equipa de assaltantes, acabaram por não ser incluídos no grupo devido a um corte no orçamento. Pico devia vigiar as escadas internas que davam acesso ao sexto andar e De Diego devia vigiar da rua caso a polícia aparecesse. Quando LeeperShoffler e Barret chegaram com a sirene do carro em silêncio, não havia ninguém na rua para avisar os “canalizadores” que se encontravam dentro do Watergate de que a polícia estava a chegar.

Os polícias tinham revistado o sétimo andar e comprovado que não se passava nada. Quando desceram ao sexto, observaram entre as sombras dois homens que corriam a esconder-se. Barret pegou na arma e gritou: “Polícia! Mãos ao alto para que as possamos ver.” O resto já faz parte da História.

Às 2h13m do dia 17 de Junho de 1972 Howard Hunt recebeu uma chamada da Casa Branca: “Cinco dos nossos foram detidos e encontram-se na prisão de Washington.” Hunt soube então o que se avizinhava. Tinha recrutado os cinco; tinha uma relação com três deles em antigas operações da CIA; tinha preparado a logística do assalto ao quartel-general da Comissão Nacional do Partido Democrata no edifício Watergate.

Alguns minutos depois Hunt pegou no telefone e ligou para Douglas Caddy, um advogado seu amigo. “Que foi? Quem é?”, perguntou uma voz ensonada do outro lado da linha. “É o HowardHoward Hunt, e tenho um grave problema”, respondeu o ex-agente da CIA. Acabava de começar o maior escândalo político de toda a história dos Estados Unidos da América.

Dois jornalistas do Post chamados Bob Woodward e Cari Bernstein, ajudados por uma fonte interna com o nome de código “Garganta Funda“, e que se veio a saber ser Mark Felt, o director-adjunto do FBI durante a administração de Nixon, começaram a seguir o rasto do dinheiro encontrado nos bolsos dos assaltantes; daí à CREEP; da CREEP aos “canalizadores”; dos “canalizadores” à Casa Branca; e da Casa Branca ao próprio presidente Richard Nixon.

Pouco depois os cinco “canalizadores” detidos no interior do edifício Watergate foram acusados de entrar ilegalmente nos escritórios do Partido Democrata para roubar Documentos, manipular telefones e instalar escutas electrónicas. Parte deste material tinha sido fornecido pela CIA a Howard Hunt. Segundo parecia, os cinco eram “canalizadores” da Casa Branca, excepto no caso de James McCord, ex-agente da CIA e membro da equipa de segurança da Comissão para a Reeleição do Presidente. Além disso, foram também mencionados Howard Hunt, ex-agente da CIA e conselheiro de segurança da Casa Branca, e Gordon Liddy, conselheiro na secção de finanças da Comissão para a Reeleição do Presidente.

Caso Watergate
Caso Watergate

Em Fevereiro de 1973 tinham começado as demissões em cadeia na Casa Branca devido ao escândalo que é conhecido pelo nome do edifício onde se levou a cabo o assalto: Jeb MagruderBob HaldemanJohn EhrlichmanCharles ColsonJohn DeanRichard Kleindienst

23 de Março de 1973 foram todos alvo de acusações de Conspiração para interceptar conversas presenciais e telefónicas, e Gordon Liddy, que se recusou a colaborar com os tribunais, recebeu uma sentença de um mínimo de seis anos e oito meses e um máximo de vinte anos a cumprir numa prisão federal. Alguns meses depois, a 9 de Novembro de 1973BarkerSturgisMartínez e González foram sentenciados a entre um e cinco anos de prisão; McCord, entre um e cinco anos, e Howard Hunt, entre dois e meio e oito anos de prisão.

Os testemunhos perante a Comissão de Investigação do Senado do Caso Watergate começaram a 17 de Maio de 1973.

25 de JunhoJohn Dean, antigo conselheiro de Nixon, seria o primeiro a revelar que o presidente dos Estados Unidos estava pessoalmente implicado no caso. Pouco depois, a secretária do presidente descaiu-se dizendo que Nixon gravava todas as conversas que aconteciam na Sala Oval desde o início de 1971Archibald Cox, procurador especial, pediu a Nixon que comparecesse e permitisse ao Senado aceder às gravações obtidas entre 20 de Junho de 1972 e 15 de Abril de 1973. O presidente recusou-se. A 13 de Setembro o Tribunal de Recurso dos Estados Unidos ordenou a entrega voluntária de “parte das gravações” a Cox e a Charles Wright, assessor da Casa Branca, para que fossem examinadas e se decidisse que fragmentos seriam entregues à acusação. Nixon voltou a recusar, defendendo-se com o chamado “privilégio executivo”.

19 de Outubro e devido a fortes pressões, Nixon ofereceu-se para entregar um resumo, destituiu, mediante um “decreto presidencial”, Archibald Cox e eliminou o Departamento do Procurador Especial que dirigia a investigação do Watergate. Tal decisão provocou a demissão imediata do procurador-geral, Elliot Richardson.

Em Julho de 1974 a Comissão Judicial da Câmara dos Representantes votou três artigos do processo de impugnação em que, entre outras coisas, se acusava Richard Nixon de ter “embarcado pessoalmente ou por via dos seus subordinados ou agentes numa conduta ou plano dirigido para atrasar, impedir e obstruir a investigação” sobre o caso Watergate.

4 de Agosto Nixon reconheceu ter participado nos esforços para encobrir os factos relacionados com a entrada nos escritórios do Partido Democrata. Além disso, Nixon participara, usando a CIA, nas tentativas de desviar a atenção do FBI, e que já então apontava para a Casa Branca. Esta última revelação minou os escassos apoios com que o presidente ainda contava no seio do Partido Republicano e, com tudo o que se tinha dado a conhecer anteriormente, acabou por provocar a sua demissão na tarde do dia 8 de Agosto, a qual se tornaria efectiva às 11h35m do dia 9 de Agosto de 1974. “Vamos embora com grandes esperanças [… ] e também com grande humildade”, afirmou na despedida ao pé do helicóptero presidencial.

A lista de vítimas do escândalo Watergate seria longa, muito longa: quarenta funcionários da administração de Nixon foram acusados e muitos deles condenados a diversas penas de prisão; a 1 de Janeiro de 1975 Bob Haldeman foi condenado por conspiração e obstrução à justiça a dezoito meses de prisão a cumprir na prisão federal de LompocJohn Ehrlichman, conselheiro do presidente, foi condenado a 1 de Janeiro de 1975 por acusações de Conspiração, obstrução à justiça e perjúrio, entre dois anos e meio e oito anos de cárcere a cumprir na prisão de Stafford (Arizona); John Mitchell, antigo procurador-geral e presidente da CREEP, seria condenado a 21 de Fevereiro de 1975 por acusações de Conspiração, obstrução à justiça e perjúrio, entre dois anos e meio e oito anos de cárcere a cumprir na prisão de segurança mínima do AlabamaJohn Dean, conselheiro legal do presidente, foi acusado de obstrução à justiça e de ser o responsável de ter entregado os fundos a Howard Hunt para levar a cabo o assalto no edifício WatergateDean foi sentenciado a entre um a quatro anos de cárcere a cumprir numa prisão de segurança mínima. E a lista continua…

Na prisão, Frank Sturgis, um dos cinco assaltantes do Watergate, declararia ao jornalista Andrew St. George, da revista True: “Nunca sairei vivo da prisão se você e eu falarmos sobre o Watergate. Se você tentar publicar alguma coisa sobre o assunto e o meu papel nele, garanto-lhe que sou um homem morto.” Frank Sturgis faleceria a 5 de Dezembro de 1993, vítima de cancro, no Hospital de Veteranos de Miami.

O ex-agente da CIA Howard Hunt, o homem que com Gordon Liddy tinha idealizado e planificado o assalto ao quartel-general da Comissão Nacional do Partido Democrata no edifício Watergate, faleceria na sua casa da Florida a 23 de Janeiro de 2007, aos 89 anos de idade.

Os dados relativos ao caso Hunt encontram-se nas «Jóias de Família» nas páginas 00072, 00107, 00149, 00155, 00156, 00158, 00159, 00160, 00161, 00170, 00180, 00286, 00288, 00296, 00298, 00301, 00302, 00304, 00305, 00309, 00317, 00318, 00319, 00344, 00351, 00353, 00354, 00357, 00410, 00414, 00417, 00418, 00420, 00420a, 00421, 00422, 00422a, 00423, 00424, 00428, 00429, 00432 e 00476.

Os dados relativos ao Watergate encontram-se nas «Jóias de Família» nas páginas 00052, 00072, 00145, 00149, 00155, 00159, 00165, 00180, 00202, 00254, 00296, 00301, 00302, 00303, 00304, 00306, 00308, 00322, 00353, 00355, 00356, 00392, 00405, 00411, 00416, 00416a e 00424.

Fonte: LIVRO: «CIA – Jóias de Família» de Eric Frattini

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