Os governos do nosso descontentamento

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Os governos do nosso descontentamento
Os governos do nosso descontentamento

Conforme prometera antes de ser eleito, o general Ramalho Eanes convidaria o secretário-geral do Partido Socialista para formar o primeiro governo constitucional após o 25 de Abril. Tomaria posse no dia 23 de Julho de 1976 e duraria pouco mais de um ano, caindo precisamente no dia em que Mário Soares celebrava os seus 53 anos de idade. No dia em que chegara ao governo, Soares “não percebia nada de Economia, podia ser um ás na Política mas na Economia era um zero” [1] e dada “a forma displicente com que [tratava] dos números que traduzem a realidade económica, trocando os milhões e os milhares” [2] muitos se perguntavam se “deveria ter sido (ele) o primeiro-ministro do primeiro governo constitucional, apesar de o Partido Socialista ter ganho as eleições?” [3]. Muito provavelmente, se Portugal vivesse num regime democrático normal, a resposta seria não mas, em 1976, considerando que o secretário-geral do PS rejeitara a proposta de Sá Carneiro, só existiam dois homens com autoridade política para chefiar o governo de Portugal. Mário Soares e Salgado Zenha. Mas tendo em conta a génese e o “modus vivendi” do próprio Partido Socialista, no governo ou na oposição, compreende-se que Soares não tenha declinado o convite de Ramalho Eanes, nem tenha colocado à direcção do PS as dúvidas que, só anos depois, ele próprio abordaria [4]. O PS tinha sido o partido mais votado nas primeiras eleições legislativas e assumia-se, com legitimidade, como o partido que mais tinha contribuído para derrotar os comunistas no dia 25 de Novembro de 1975. Por outro lado, para além de Soares e Zenha, nenhuma outra personalidade socialista tinha então emergido com autoridade e carisma suficientes para ser designada para a chefia do governo.

Impotente e sem prestígio, a direcção do PS, ainda com os homens que tinham saído do atribulado primeiro congresso, aceitaria resignada o papel de espectador do “one man show” do seu secretário-geral, não ousando contestar sequer as escolhas que faria para integrar o primeiro governo. Só Zenha o faria na medida do possível, mas a sua reconhecida autoridade moral e o facto de ser uma séria alternativa à liderança iriam, precisamente, custar-lhe o lugar nesse mesmo governo. E embora continuando a ser o número dois “oficial” acabaria também por se resignar ao que considerava serem os “caprichos do Mário” e, numa demonstração de amizade e de fidelidade, recusar-se-ia a fazer uso dos seus poderes potenciais. Mas não conseguiria, nunca mais, dissimular o ressentimento que sentia por ter sido compulsivamente “empurrado” para presidente do grupo parlamentar e não escondia, em reuniões do secretariado nacional em que eu participaria, a sua clara discordância em relação às pessoas de quem Soares se fazia rodear. Sobretudo quando o embevecimento com que Soares tratava algumas dessas pessoas demonstrava a sua própria ignorância em relação às áreas que ele não dominava. Particularmente acintosos eram os frequentes elogios a Vítor Constâncio que, vindos de um homem que admitia que “na Economia era um zero”, feririam o orgulho de Salgado Zenha que tinha sido ele próprio ministro das finanças. No seu antiquado conceito de que o PS não era um trampolim, achava que não bastava ser-se recém-licenciado e declarar simpatia pelo PS para se ser promovido. Para se chegar a um lugar no governo seria necessário fazer tarimba primeiro e mostrar obra, segundo os métodos de promoção Política que então eram apontados a Helmut Schmidt, de quem Zenha era amigo e admirador. Só que, embora impedindo a nomeação de Constâncio para o primeiro governo, a chamada tarimba seria curta e Constâncio acabaria por ser designado um ano e pouco depois, no segundo governo, para substituir Medina Carreira na pasta das finanças.

Ramalho Eanes
Ramalho Eanes

Com algumas excepções, as suas escolhas para formar o primeiro governo seriam verdadeiramente desastrosas e aquele governo, no seu conjunto, nunca chegaria a ter uma esperança de popularidade. Sempre obcecado com o poder, “aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará” [5], começa então a por à prova a sua própria receita. Assegura o controlo pessoal das finanças do partido através do seu cunhado, que tem ordens absolutas de não permitir o acesso a pessoas estranhas ao serviço. O que equivale a dizer que ninguém na direcção do partido tinha acesso àquele pelouro, dirigido, simbolicamente, no secretariado nacional, pelo fundador e fiel amigo Joaquim Catanho de Menezes. E, de um modo geral, divide para reinar, promove poderes paralelos entre dirigentes partidários e ministros. Desconfiado como é, entrincheira-se num bunker de intrigas e de contra-informação na sua residência, que transforma num santuário de bajulação dos seus “fiéis”. Despromove e demite todos os que se atrevam a dar muito nas vistas ou que acabem por ser imolados naquelas intermináveis sessões de esconjuração, fazendo depois circular razões de incompetência, ambição desmedida ou, até, megalomania para justificar os seus actos! Zenha seria uma das primeiras vítimas desta Política. Os avisos “de amigo” da corte de bajuladores de que ele aspirava à chefia do partido e do governo, que Maria Barroso atribuiria à ambição desmedida da Maria Irene [6], conduziriam à circulação de boatos de que Zenha quereria ele próprio a pasta das finanças, razão pela qual se teria oposto a Vítor Constâncio.

E embora ele próprio reconhecesse ser um “zero” na matéria, faria constar que o Francisco Zenha de finanças nada percebia, embora tivesse sido, pesem as condições existentes em 1975, um excelente ministro das finanças no quarto governo provisório. Outros históricos, que o acompanharam nas horas de amargura, se lhe seguiriam. A Manuel Tito de Morais foi dada a pasta de secretário de estado da população e emprego. Não porque Tito representasse qualquer ameaça à liderança, mas porque a segunda mulher do Tito de Morais, a Maria Emília, não era bem aceite na “corte” e ambas as famílias, a Barroso-Soares e a Tito de Morais, se gladiavam pela ocupação de lugares no aparelho do partido. Sobre Tito de Morais confidenciar-me-ia uma vez, quando lhe perguntei a razão de nunca o ter promovido além de secretário de estado, que “o Tito nunca tinha lido um livro na vida”! Mas é sintomático que uma das características que melhor lhe assentariam e pela qual, aliás, ficaria sobejamente conhecido fosse a sua grande incapacidade para escolher colaboradores. Deslumbrava-se frequentemente, por insuficiência própria, com qualidades de pessoas que na realidade não conhecia ou que pareciam dominar áreas que ele próprio desconhecia. Comprovando aquela deficiência, ao fim de um ano de governo já tinham sido substituídos vários ministros e o próprio presidente da Assembleia da República e fundador do PS, Vasco da Gama Fernandes, também seria substituído por um outro histórico, Teófilo Carvalho dos Santos. Quando a secretaria de estado da Comunicação Social, para comemorar um ano de governo, publicou por ordem do primeiro-ministro um inacreditável livro intitulado “Vencer a Crise, Preparar o Futuro”, já todo o país exigia uma mudança de governo, tal era a impopularidade em que caíra. É um livro revelador das tendências absolutistas de que Zenha falava e tinha mais semelhanças com as publicações dos regimes despóticos que primam pelos elogios ao chefe, do que com as de governos democráticos ocidentais, lembrando as inúmeras fotos do primeiro-ministro a sua avassaladora e imodesta omnipresença. Dos cinquenta mil exemplares distribuídos, pagos pelo erário público, transparecia um governo fútil e esbanjador. Anunciava, em tons propagandísticos, a obra feita e as tarefas desempenhadas por alguns membros do governo, ao longo de um ano, como as do secretário de estado adjunto do primeiro-ministro para os assuntos políticos, Manuel Alegre, que em menos de uma página declarava ter tido como actividades “numerosas representações ou petições de trabalhadores e organismos socioprofissionais ou simples cidadãos, canalizando os seus problemas para os departamentos a que dizem respeito” [7].

Manuel Tito de Morais
Manuel Tito de Morais

Em meados do mês de Agosto de 1976, estava eu na Suécia a acompanhar Olof Palme e em colaboração com a campanha eleitoral do Partido Social-Democrata daquele país, quando recebi uma chamada urgente de Mário Soares com instruções para ir imediatamente para Luanda, onde me deveria juntar ao presidente do partido, António Macedo e a Manuel Tito de Morais, ainda formalmente responsável pelas relações internacionais do PS. Portugal reconhecera a República Popular de Angola a 22 de Fevereiro de 1976, mas as relações diplomáticas entre os governos dos dois países seriam suspensas dois meses depois, em Maio, pelo governo angolano. Este, depois de não respeitar os acordos que tinha assinado em Alvor [8], consideraria serem as atitudes do sexto governo provisório inamistosas. Esta atitude derivava essencialmente da enorme e compreensível campanha na Comunicação Social contra Angola, naquele difícil momento das relações entre os dois países, quando centenas de milhares de portugueses regressados de Angola acusavam o MPLA de responsabilidades pelo seu dramático êxodo. Entretanto, apenas dois meses após o corte de relações com Portugal, Agostinho Neto compreenderia que tal acto acabaria por atirar ainda mais o seu país para uma quase total dependência da União Soviética. Para pôr cobro a esta situação enviaria então o secretário de estado dos negócios estrangeiros, Paulo Jorge, a Lisboa, em princípios do mês, a fim de sensibilizar os socialistas para alterarem a situação de impasse a que se tinha chegado. Portugal tinha que ter consciência dos seus interesses e o presidente Agostinho Neto não queria, ao que tudo levava a crer, ficar eternamente prisioneiro dos soviéticos.

Quando cheguei a Luanda, no dia 28, reinava grande confusão naquele país e tudo faltava. Eu chegara num voo indevidamente anunciado como proveniente de Estocolmo via Roma, sem qualquer “visto” de entrada em Angola. Como vestia “blue jeans” não seria detectado pelo comité de recepção do MPLA e tive que explicar ao funcionário as razões por que estava ali sem “visto” de entrada. Pedi que avisassem a presidência da República mas, entretanto, pensei que seria mais rápido apanhar um táxi. Foi então que pude constatar que nem táxis havia em Luanda. Quando cheguei ao hotel Panorama lá encontraria o António Macedo e o Manuel Tito de Morais. Creio que todos os outros “hóspedes” naquele então magnífico hotel eram russos e de outros países de leste. António Macedo não tinha funções políticas específicas no PS e a sua presidência era meramente honorífica, mas tinha sido advogado de Agostinho Neto nos anos 60 e tinha ajudado a sua família em Portugal. E como pude constatar a sua escolha para chefiar esta primeira missão histórica a Angola não poderia ter sido mais acertada. O presidente da República Popular de Angola tinha por ele tanta consideração, que só isso bastaria para facilitar a minha tarefa de garantir que de Luanda sairia um comunicado conjunto honroso para o país e para o Partido Socialista. Manuel Tito de Morais era efectivamente o secretário internacional do PS, mas desde que eu assumira funções no departamento internacional deixara de participar na maior parte dos eventos internacionais do partido. Mas, também significativamente, os angolanos tinham por ele um grande respeito e admiração até porque, no início dos anos 60, vivera em Angola e estivera ligado ao lançamento da luta do MPLA. Porém, o meu papel ali, que em condições normais seria desnecessário, visava garantir que os nossos interesses não seriam ultrapassados pela natural emotividade que a presença dos meus camaradas na Angola independente poderia significar.

José Eduardo dos Santos
José Eduardo dos Santos

Reunimos durante quatro dias no palácio presidencial com Agostinho Neto, o então primeiro-ministro, Lopo do Nascimento e o então ministro dos negócios estrangeiros, José Eduardo dos Santos. A reunião, que tinha uma enorme cobertura mediática internacional, começou com o pé esquerdo. António Macedo que antes de partir para Angola se encontrara como o presidente Ramalho Eanes, transmitira a Agostinho Neto um convite do presidente português para visitar Portugal. Tal convite não era oficial, não existiam relações diplomáticas entre os dois países e não fazia parte da agenda socialista. Nem o Tito de Morais nem eu tínhamos sido avisados, nem sabíamos que antes de partir para Angola, António Macedo se tinha encontrado com o presidente português. Naquela altura, dada a grande hostilidade que certos sectores, sobretudo entre os retornados, sentiam pelo MPLA um tal convite era altamente inconveniente para o PS. Acontece que logo no início das conversações, após as boas-vindas de Agostinho Neto, António Macedo, a quem cabia também falar em primeiro lugar em nome da delegação do PS, transmitiu o convite do presidente da República portuguesa ao presidente de Angola. Tito de Morais e eu ficámos de “boca aberta”, enquanto Agostinho Neto agradecia sensibilizado. E logo nessa manhã o MPLA transmitiria o mesmo à Comunicação Social, para grande embaraço do governo português. As reacções e críticas em Portugal não se fizeram esperar. A notícia caíra como uma bomba e o presidente Eanes não perdeu tempo retirando o tapete a António Macedo e negando ter enviado qualquer convite. Com a elegância que faltou então ao PR português, Agostinho Neto acabaria por tranquilizar António Macedo que, tendo sido portador do convite o não soubera transmitir no estilo “farisaico” a que os políticos portugueses estão habituados, dizendo-lhe para se não preocupar com o assunto e que ele próprio daria a volta à questão. E assim fez, dizendo à Imprensa que se não tratara de um convite mas sim de meras saudações “do presidente da República e do presidente da Assembleia da República” [9], acrescentando em privado que “o presidente português poderá ter sofrido pressões mas nós acreditamos, contudo, no convite. O resto são conveniências políticas, podendo mesmo ter havido interferências de países estrangeiros” [10].

As delegações do PS e do MPLA manifestar-se-iam ainda “positivamente sobre o estabelecimento das relações diplomáticas entre a República Portuguesa e a República Popular de Angola (recomendando) aos respectivos governos de encetarem, dentro do mais curto prazo, as diligências necessárias tendentes à materialização das relações diplomáticas ao nível de embaixada” [11]. Também seria referida pelo PS “a necessidade de se considerarem os interesses e os aspectos humanos dos portugueses que se encontram em Angola e dos angolanos que estão em Portugal, tendo a delegação do MPLA assegurado “à delegação do PS que apreciará devidamente as perspectivas de cooperação sugeridas, de acordo com os interesses legítimos de ambas as partes” [12].

Quem não gostou muito deste encontro e, sobretudo, do comunicado conjunto foi o então ministro dos negócios estrangeiros, Medeiros Ferreira, que considerou a visita da delegação do PS uma ingerência na acção governamental e um autêntico acto de diplomacia paralela. Mário Soares, que se considerava, de facto, o ministro dos negócios estrangeiros português, classificaria o “protesto” de Medeiros Ferreira como um acto de arrogância propulsionado pelos diplomatas das Necessidades e aconselhou o ministro a impor-se-lhes, a preparar o encontro com José Eduardo dos Santos, ou então a “preparar as malas”. Medeiros Ferreira encontrar-se-ia com José Eduardo dos Santos na cidade da Praia, a 30 de Setembro. Só que aqui começaria porventura a primeira de uma série de demissões do governo e do partido, que chegaria a ser preocupante. Quando a façanha se repetiu, um ano depois, com uma nova viagem de António Macedo e Manuel Alegre àquele país, foi a gota de água, pedindo a sua demissão do governo e do Partido Socialista. Mas Medeiros Ferreira não tinha razão para se demitir por causa desta visita em que nada de concreto seria abordado. Não se poderia queixar de diplomacia paralela visto que o comunicado então emitido, além de banal e pouco concreto, só era assinado por Manuel Alegre pelo PS e por um membro do “bureau” político do MPLA [13].

Agostinho Neto
Agostinho Neto

Ao contrário do que acontecera um ano antes, quando do primeiro encontro, Agostinho Neto não assinaria o comunicado que se limitava a sublinhar “a necessidade de cooperação no domínio dos meios de Comunicação Social, tendo em vista a melhoria de informação acerca da realidade de cada país, e a urgência de, por uma informação objectiva e verdadeira, combater e neutralizar os que, pela mentira e pela deformação dos factos procuram dificultar as relações de amizade entre os dois Povos” [14]. Revelava, isso sim, a opinião que os angolanos faziam da liberdade de imprensa. Mas, para além da importância de estas terem sido as primeiras “missões” que visavam uma substancial melhoria das relações entre Portugal e Angola e a possível recuperação dos nossos legítimos interesses, o mais importante seriam as conversas particulares com o presidente Agostinho Neto. Revelavam claramente o seu desejo de libertar o seu país da total dependência da União Soviética e a clara percepção de que essa “libertação” passaria pelo Ocidente.

No final da reunião e após aprovado o comunicado final que recomendava o restabelecimento de relações diplomáticas, Neto concluiria a reunião com algumas palavras que, acredito, eram para consumo interno. Diria nomeadamente “que embora tenhamos feito a mais longa guerra de africanos contra o colonialismo (a qual implicou muitos sacrifícios) combatemos o colonialismo, fascismo e exploração e, hoje, que ambos somos livres, devemos estabelecer laços a todos os níveis. Houve dificuldades com o processo de libertação angolano que se travou a vários níveis e nem sempre a posição dos políticos portugueses foi clara. Acreditávamos que os progressistas dariam todo o seu apoio ao MPLA mas isso não aconteceu e assim o nosso povo ficou traumatizado. O facto de Portugal não ter logo reconhecido Angola. Foi quase o último a fazê-lo. Isso provocou certa resistência às relações com Portugal. Depois, a vossa Imprensa foi extremamente insultuosa, pois nós não temos a vossa concepção sobre a liberdade de imprensa. Agora que o PS assumiu o poder em Portugal, devo ser sincero, nem sempre estivemos de acordo com o PS. Houve momentos em que o PS não acreditou no nosso patriotismo e na nossa vontade, de não alinhamento… Agora surgiu outra situação e como disse Mário Soares é preciso pôr uma pedra sobre o passado e como tal vamos cooperar. Se o PS dinamizar este processo de normalização nós seremos gratos, pois há muitos problemas de toda a ordem em que nos podem ajudar. De qualquer modo houve sempre laços de amizade com Portugal que poderá em Angola ter um lugar privilegiado. O PS tem simpatia de vários partidos socialistas na Europa. Naturalmente podeis contribuir para que o nosso problema possa ser compreendido. Talvez esses partidos socialistas possam apoiar a nossa candidatura à ONU. Vocês podem colaborar nisso. Os Estados Unidos dominam a cena mundial e poderão opor-se com apoio da América Latina à entrada de Angola na ONU. No entanto, não sei se isto poderá ser ultrapassado. Estou a solicitar o apoio do PS para a nossa entrada na ONU e para obter apoio de outros partidos socialistas para a nossa entrada. Nós preferimos o nível mais elevado entre os dois países. Não achei bem começar só a nível de consulados [15]. Com um nível mais elevado será melhor para a resolução dos muitos problemas a tratar entre os nossos países”.

Depois de tecer várias e longas considerações sobre o regime angolano e sobre a presença dos soviéticos, dizendo que “temos desenvolvido relações com países socialistas e temos aqui técnicos de todos esses países, mas não há nenhum deles que possa dizer que dirige. São conselheiros e quem toma as decisões somos nós. Assim gostaria que os portugueses o compreendessem. Mesmo certos progressistas de Portugal e Angola ainda não compreenderam bem a nossa atitude, o nosso processo. Queria propor o seguinte passo: a efectivação das relações com Angola deverá ser feita a nível do governo, por exemplo através de uma nota oficiosa. Pelo nosso lado a posição está tomada… Agora os governos devem tomar iniciativa. Há protocolos a fazer, etc. Nós temos os nossos refugiados em más condições. Há portugueses aqui, sem representante que defenda os seus interesses… Sabemos que isto não é fácil de fazer. Ao mesmo tempo que há boa vontade entre os nossos dois partidos, há más vontades de outros. Há forças que fazem tudo para que as relações deteriorem e não melhorem. Temos que fazer tudo contra essas forças para aumentar a cooperação. É esse o nosso desejo. A Imprensa portuguesa às vezes diz ser eu o único amigo de Portugal e isso não é verdade”! [16]. Contudo, no final do jantar que nos ofereceria na sua residência, chamou-me de lado e fez-me uma série de perguntas sobre a Internacional Socialista e sobre a situação internacional. Estava preocupado com a imagem do seu país e pretendia colaborar com os partidos da IS. Eu disse-lhe que a impressão de que Angola tinha caído na esfera soviética era má para Angola e que a maior parte dos partidos da IS teriam sempre dificuldades de cooperar com Angola enquanto essa ideia subsistisse. Disse-me então que essa escolha não era sua. Que a descolonização tivera lugar num momento difícil e que as potências ocidentais, à falta de um interlocutor português, tinham demorado demasiado tempo em aceitar o MPLA. Ele estava consciente da situação, contudo, e pretendia reduzir a influência dos países de leste em Angola. Mas para isso era essencial que a Grã-Bretanha, a RFA e os EUA rapidamente estabelecessem relações diplomáticas com Angola. Disse-me ser esse o seu desejo e que embora tivesse consciência de que nem todos em Angola pretendiam tal evolução, ele depositava grandes esperanças nos resultados práticos desta primeira visita. Pediu-me para tratar este assunto com o máximo dos cuidados.

James Callaghan
James Callaghan

Quando regressei a Portugal havia um enorme interesse das principais embaixadas em conhecer pormenores da visita. O embaixador Kalinin da União Soviética convidar-me-ia para um almoço a fim de conhecer “pormenores” da visita do PS a Luanda e, curiosamente, os restantes convidados para esse almoço eram os embaixadores da RDA e da Checoslováquia. No dia 6, Mário Soares e eu analisámos, na sua casa de Nafarros, os pormenores da visita e a minha convicção de que ele pretendia desesperadamente encontrar alternativas ocidentais. Soares telefonaria imediatamente a Carlucci e no dia seguinte teria um longo encontro com ele. No dia 13, Helmut Schmidt enviaria a Lisboa um colaborador seu e no dia 26 daria a mesma mensagem ao então já primeiro-ministro James Callaghan, num encontro em Blackpool, durante o congresso anual do Partido Trabalhista. A acção ocidental não correspondeu, contudo, com a necessária celeridade ao apelo do presidente Agostinho Neto que, em Maio de 1977, seria alvo de uma tentativa de golpe liderado por Nito Alves, da facção pró-soviética do MPLA e, pouco depois, enquanto de visita a Moscovo, seria submetido a uma inesperada intervenção cirúrgica. Viria a falecer em condições nunca totalmente explicadas na União Soviética no dia 10 de Setembro de 1979. Mas, quando a minha conversa teve lugar com Frank Carlucci, já a CIA estava bem entrincheirada em Angola e pretendia expulsar a influência soviética pela força e não dialogar com o MPLA.

O apelo de Neto não mereceria credibilidade e o presidente da UNITA, que em matéria de relações internacionais tinha uma visão moderna e bem actualizada, já entretanto garantira o apoio de um dos mais importantes grupos de relações públicas da capital norte-americana [17]. A CIA, por sua vez, em 1976 já dispunha de oitenta e três agentes na Angolan Task Force [18] no terreno, num plano de estreita cooperação com a Africa do Sul “e com os chineses, que apoiariam a UNITA e a FNLA na sua luta contra os soviéticos, a quem disputavam o aumento de influência em Africa” [19].

Da parte de Portugal e do primeiro governo constitucional também a política africana nunca acertaria. Depois de um traumático processo de descolonização que deixaria muito a desejar, também o primeiro e o segundo governos constitucionais não conseguiram unir os portugueses numa plataforma adequada à defesa dos interesses nacionais. Marcello Caetano não soube ou não foi capaz de reconhecer esses interesses atempadamente, indo contra o que era lógico e contra os ventos da mudança. O Movimento das Forças Armadas, numa tentativa de apagar as suas derrotas militares em África, pretendeu confundir-se com os Movimentos de Libertação [20], demitindo-se das suas responsabilidades na descolonização. O PCP, imbuído na sua cruzada internacionalista, tinha como tarefa prioritária facilitar a penetração da União Soviética em África. Lamentavelmente, o PS e o PPD estavam demasiado envolvidos numa retórica quezilenta para então poderem compreender o significado de pactos de regime. Como a história aliás se encarregaria de demonstrar, o primeiro-ministro permanecia em 1976 perfeitamente insensível às questões africanas preferindo adoptar os pontos de vista da CIA sobre Angola a tentar convencer os EUA a alterar a sua posição em relação ao MPLA. Assim, apostaria demasiado em Jonas Savimbi, nunca estabeleceria uma relação correcta com o MPLA e seguiria sempre as teses da estratégia global norte-americana que estiveram erradas desde o início da descolonização Portuguesa [21].

No segundo congresso do partido socialista, que teve início no dia 30 de Outubro, cumprir-se-ia a “promessa” que Salgado Zenha e o secretário-geral me tinham feito em sua casa em Janeiro de 1975, no sentido de ser corrigido o erro e a injustiça cometidos no turbulento primeiro  congresso. Assim regressaria à comissão nacional e directiva do Partido Socialista de que tinha sido co-fundador. Mas seriam, essencialmente, o trabalho entretanto desenvolvido e as decisivas iniciativas para o PS que iriam justificar plenamente a minha ascenção ao secretáriado nacional e a confirmação no pelouro de responsável pelas relações internacionais. A própria Comunicação Social se aprecebera desse facto, comentando um semanário que “o grupo que em 74 foi marginalizado do PS, durante a luta interna com Manuel Serra (grupo este que participava no PS desde os tempos da clandestinidade) deverá regressar ao primeiro plano, em particular, à comissão Política nacional. É o caso de Vítor Cunha Rego, Rui Mateus, Alfredo Barroso, Bernardino Gomes e Rudolfo Crespo. A sua “reabilitação Política revelará um acentuar do peso dos moderados no seio do PS” [22].

Mário Soares
Mário Soares

Para além da nítida alteração pró-ocidental que se verificara na Política externa do partido eu tinha, graças aos meus contactos com o Partido Social-Democrata sueco, conseguindo co-organizar a Cimeira de Estocolmo e a do Porto e tinha desenvolvido esforços e contactos na Europa, nos EUA e até em África, que colocariam o Partido Socialista no mapa da Internacional Socialista em termos de uma prestigiante “igualdade”, não obstante a evidente manutenção da sua qualidade de partido recipiente. Mas apesar de eu estar convencido de que a minha ascenção se devia ao mérito do trabalho desenvolvido em prol do partido, também não tinha dúvidas de que o cumprimento da promessa que me tinha sido feita e eu reivindicara em Janeiro do ano anterior, seria um acto discricionário de Mário Soares, que ele de qualquer modo nunca me deixaria esquecer. Era primeiro-ministro do primeiro governo constitucional, atravessava uma vertiginosa promoção nacional e internacional e aparecia nos media, sobretudo norte-americanos, como o “herói” dos mencheviques que derrotara os bolcheviques. Acima de tudo, controlava de forma absoluta o Partido Socialista e em Setembro de 1976, no PS, tudo dependia da sua vontade. Nenhum dos responsáveis por pelouros no secretariado nacional permanecia durante muito tempo no seu posto. Iam sendo mudados para não adquirirem demasiado poder. Essa era e sempre foi a sua estratégia. Com duas excepções, Salgado Zenha, que só em 1981 quando “disciplinadamente vota de acordo com a sua orientação” é que “Soares sente que só naquele momento o submeteu” [23] e eu próprio. No meu caso contudo, sobretudo em 1976, não eram nem de perto nem de longe razões que se possam comparar ao caso de Salgado Zenha. Este detinha um enorme poder potencial e um prestígio moral ímpares. Eram pura e simplesmente a simbiose do reconhecimento de competência e a convicção de que seria eu quem melhor serviria os seus objectivos em matéria de promoção internacional. Situação de algum modo captada por um outro semanário quando, ao referir-se ao impressionante número de convidados estrangeiros presentes no segundo congresso do PS, afirmaria que “além dos convidados habituais do “Europa Connosco”, como Willy Brandt, Mitterrand, Olof Palme e Kreisky, o acontecimento (ou o prestígio internacional de Mário Soares somado à capacidade do “ministro dos negócios estrangeiros” do PS, Rui Mateus) levou ao pavilhão dos desportos a “nata” da Internacional Socialista, mas, também, de delegados africanos e sul-americanos, do Próximo e Extremo Oriente. Segundo apuramos, a reunião que a Internacional Socialista realizou no Ritz, à margem do congresso, foi bastante mais longe do que preparar a próxima cimeira de Genebra, com a designação de Brandt para novo presidente e a escolha de Soares e Palme para duas das vice-presidências que se dão como certas… Tratou-se fundamentalmente, de aproveitar a “posição especial de Portugal e do seu partido de governo”… acerca da possibilidade de fortalecer a Internacional Socialista alargando a organização a países do Terceiro Mundo” [24].

Na realidade, um mês depois, em Genebra, na Suíça, realizar-se-ia o mais importante congresso da Internacional Socialista do após-guerra. O décimo terceiro congresso transformaria radicalmente aquela organização, até recentemente caracterizada por um certo eurocentrismo cauteloso, num movimento agressivo e verdadeiramente internacional. Willy Brandt, Prémio Nobel da Paz, ex-chanceler da República Federal alemã e presidente do poderoso Partido Social-Democrata, emprestava o seu nome e os meios do seu partido à “nova” organização enquanto seu presidente. As razões que tinham estado no seu afastamento da chefia do governo da República Federal da Alemanha, dois anos antes, em nada afectariam o seu prestígio entre a esquerda europeia. Alguns dos aspectos mais significativos da reunião magna da Internacional Socialista seriam mesmo aqueles que o mencionado semanário lisboeta referira. Brandt estava determinado a “combater o “eurocentrismo” numa organização que tradicionalmente tinha o nome de Internacional Socialista, que representava um mito que não correspondia ao seu poder”, alargando-a a partidos de países do Terceiro Mundo e indicando “as relações Leste-Oeste, Norte-Sul e direitos humanos como as áreas prioritárias da nossa organização” [25]. Entre outras decisões significativas estariam a substituição do austríaco Hans Janitschek pelo sueco Bernt Carlsson para o importante lugar de secretário-geral, a entrada para a organização do Partido Socialista do Senegal e a eleição dos vice-presidentes. A substituição do secretário-geral visava um aumento da eficácia em detrimento das causas “nobres” que Janitschek sempre defendera com grande romantismo, como tinha acontecido com o PS português. A entrada do partido do presidente Leopold Senghor era um passo polémico para alguns, que achavam que no Senegal não existia um regime verdadeiramente democrático e acertado para outros, que consideravam não só ser o Senegal o país mais democrático de África, como representava o claro apoio da IS à democratização daquele continente. A eleição dos vice-presidentes também continha alguma polémica por serem demasiados e reflectir as dificuldades para eleger um grupo de vice-presidentes mais pequeno, e portanto, mais eficaz. Era também o resultado de intermináveis reuniões ad e ex-congresso dos secretários internacionais que se transformariam por vezes em autênticas guerras. Competia aos secretários internacionais propor a lista dos vice-presidentes à “conferência de líderes” que, de um modo geral, se realizava durante um jantar de trabalho anterior à eleição. Ora, como é evidente, era nestas reuniões de secretários internacionais que cada um exibia a sua influência, partindo do princípio que todos quereriam dar “provas”, propondo e fazendo eleger o líder do seu partido. Cheguei mesmo a assistir a momentos de grande desconforto pessoal quando, nalguns casos, a não proposição de um certo líder partidário para a lista dos vice-presidentes implicaria, quase automaticamente, a consequente perda de lugar do secretário internacional. Mas outras vezes, nem sempre os meus colegas tinham sensibilidade Política para optarem pelas melhores escolhas. De qualquer maneira e dado que os líderes partidários, embora influenciando “por fora”, dificilmente se poderiam auto-candidatar na reunião dos seus pares, a lista que os secretários internacionais submetiam era a definitiva. Mas nesta ocasião, como a própria imprensa portuguesa noticiaria, não haveria nenhuma oposição à proposta de Mário Soares. Seria eleito conjuntamente com o algo exagerado grupo de catorze vice-presidentes [26].

Partido Socialista
Partido Socialista

No dia 4 de Dezembro, era a vez de Felipe González realizar o décimo-sétimo congresso do seu partido e o primeiro na legalidade após a ditadura franquista. O congresso fora anunciado para o mês de Novembro, mas o governo espanhol proibira a sua realização. Seguiram-se protestos massivos de todo o mundo e eu próprio enviaria um protesto ao governo espanhol contra a decisão e apelando ao “bom senso das autoridades espanholas no sentido de permitirem a realização deste acontecimento tão importante na vida do PSOE e para o futuro da democracia em Espanha e na Europa” [27]. Na altura o secretário-geral do PS era primeiro-ministro há cinco meses e achou por bem que, embora não tivesse o mesmo peso, deveria ser eu a fazer o protesto em nome do PS. Naquela data já González tinha estado em Lisboa, mas nem se sabia se ia haver fusão com o PSP nem, tão pouco, se iria haver tão depressa um regime democrático no país vizinho. Assim, actuaria de forma cautelar, contrariamente ao que tinham feito os seus colegas Palme, Kreisky e Helmut Schmidt. O governo espanhol pretendeu ignorar as pressões internacionais mantendo a proibição, mas o PSOE, embora “ilegalmente”, decidiria mesmo ir para a frente com o congresso em Dezembro. Na capital espanhola estaria presente Willy Brandt e a maior parte dos grandes líderes socialistas europeus dispostos a não faltar a este acontecimento histórico. Felipe González contara com o apoio da IS, sabendo de antemão que a presença de líderes que eram simultaneamente chefes de governo e ministros, impediriam o governo espanhol de tomar quaisquer medidas drásticas contra o PSOE e contra os congressistas. Não sei se pressionado pela embaixada espanhola em Lisboa, se por observância de regras a que os primeiros-ministros se sentem, “latu sensu”, geralmente obrigados, ou se por qualquer outra razão de força maior nunca explicada, o líder do PS português não compareceria ao congresso dos nossos vizinhos. Quem iria representar o PS a Madrid seriam então Salgado Zenha e eu tendo, à última hora, Mário Soares decidido enviar a sua mulher em sua representação. Teve então o ensejo de ouvir a monumental assobiadela dos congressistas do PSOE, que considerariam a ausência do primeiro-ministro português como uma falta de solidariedade. O PSOE só seria legalizado a 17 de Fevereiro de 1977 e nas primeiras eleições legislativas, realizadas em Junho, obteria 29,4 % dos votos. O primeiro encontro formal entre os dois partidos e o primeiro comunicado conjunto entre os secretários-gerais dos dois partidos socialistas ibéricos aconteceria, assim, um mês depois e daria lugar a múltiplas reuniões bilaterais com destaque para as cimeiras de Badajoz em 1978, de Viana do Castelo em 1980 e de Madrid em 1983. Quando este último encontro teve lugar, o PS estava na oposição e Felipe González era primeiro-ministro espanhol. O diário espanhol, El País, especulava então que o PS estava a receber importantes meios financeiros do PSOE, o que obrigaria o secretário-geral do PS a desmentir indignado tal informação e a mandar declarar que “o encontro PS/PSOE, em Madrid, tem em vista examinar um vasto conjunto de problemas, já amplamente noticiado, mas da agenda de trabalhos não faz parte a questão referênciada pelo diário espanhol” [28]. Era verdade. Só anos depois Mário Soares receberia ajuda financeira do PSOE para a sua campanha às eleições presidenciais. O PS nunca ajudou financeiramente o PSOE durante os seus difíceis momentos de clandestinidade que durariam até 1977.

Uma outra questão essencial da Política externa do PS foi o empenho com que “forçámos” o governo português a normalizar as relações diplomáticas com Israel, encontrando eu em Salgado Zenha o principal protagonista desta normalização. A quase totalidade da direcção socialista saída do segundo congresso tinha laços antigos com os argelinos. O apoio financeiro do coronel Kadhafi, em 1974, era uma outra importante condicionante ao reconhecimento de Israel. O que, a meu ver, era um autêntico disparate. Não só porque o país existe e era (e continua a ser) a única democracia do Médio Oriente, mas porque esse não reconhecimento tinha repercursões político-económicas em todo o mundo ocidental. Havia também que contar com o facto de existir em Israel um partido que fazia parte da IS. A resistência do governo, à semelhança do que se passara com os governos provisórios, dava lugar a rumores de que Portugal cedia às pressões do mundo Árabe, ao passo que era do conhecimento geral de que seríamos mais respeitados pelos árabes reconhecendo Israel, do que o não fazendo. Um outro fundador do PS e da chamada ala moderada do partido, Bernardino Gomes, que Soares tinha designado para certos contactos com a CIA, desenvolvia então em Lisboa uma espécie de lobby pró-israelita. Era seu acessor em São Bento e muito diligente para com a família Soares. O Partido Trabalhista insistira para que Mário Soares viesse a Israel participar no seu congresso, em Fevereiro de 1977. Apesar de o convidado ser o secretário-geral e de Bernardino Gomes e eu termos envidado todos os esforços para o convencer a aceitar, ele recusar-se-ia. Concordaria contudo em deixar Bernardino representar o PS no congresso do Partido Trabalhista de Ytzhak Rabin. O que para a estratégia desejada seria insuficiente, uma vez que ele não detinha nenhum cargo ou função dentro do Partido Socialista. Eu levantaria então a questão no secretariado nacional, sugerindo que na impossibilidade de Mário Soares, deveria ser Salgado Zenha a representar o PS. A reacção generalizada seria em princípio negativa, mas Salgado Zenha, muito receptivo a criticar os erros da Política governamental e cada vez mais pré-disposto a contradizer as opiniões do seu velho amigo, disse estar interessado em ser ele a ir a Israel. Ninguém, como é óbvio, se atreveria a dizer-lhe não. O então presidente do grupo parlamentar do PS, acompanhado de Bernardino Gomes, uma vez em Israel, afirmaria ir desencadear os mecanismos no seio do grupo parlamentar do PS com vista a recomendar ao governo (do PS) a normalização de relações entre os dois países. Mais um acto de “diplomacia paralela” que, uma vez mais, obrigaria o governo e o ministro dos negócios estrangeiros, Medeiros Ferreira, a dar os passos necessários para o reconhecimento de Israel. Mas a má vontade era tão evidente, que só anos depois o nosso país enviaria um embaixador para Israel. Foi um acto “empurrado” pelo departamento internacional do PS, que não teria então grande popularidade nem no PS nem no país. Mas, seis anos depois, teria a maior relevância e permitiria ao secretário-geral do PS conduzir a mais importante missão internacional da sua carreira.

Os três grandes problemas do primeiro governo constitucional seriam: em primeiro lugar, a ausência de apoio maioritário na Assembleia da República, que não foi procurado pela convicção de que Ramalho Eanes estaria sempre submetido à vontade do Partido Socialista e de que, à sua direita, ninguém se atreveria a assumir a responsabilidade pela queda do primeiro governo; em segundo lugar, a absoluta necessidade de encontrar meios financeiros internacionais que ajudassem Portugal a resolver os gravíssimos problemas resultantes do défice da sua balança de pagamentos e, finalmente, a preparação da candidatura à Comunidade Económica Europeia. Depois, existiam todas as questões inerentes às deficiências da equipa ministerial escolhida e a algumas das políticas que o governo se propunha desenvolver.

É verdade que passados seis meses já todo o país estava farto do primeiro governo constitucional. Essencialmente porque o líder do PS não daria a atenção devida à questão essencial para a sobrevivência do seu governo: à garantia de apoio maioritário na Assembleia da República. Este facto, combinado com uma série de desastrosas políticas sectoriais, seriam a receita ideal para o desastre. Mas o governo e o primeiro-ministro eram internacionalmente populares e não teriam dificuldade em encontrar apoios quer para financiar o défice da balança de pagamentos, quer para iniciar o processo de integração europeia. Mas na cena Política nacional, onde realmente se ganhavam e perdiam as batalhas eleitorais, ao fim de apenas quatro meses, Lopes Cardoso, então ministro da agricultura, demitia-se. Seria substituído por António Barreto. De uma política para a agricultura contestada pela direita do partido e pela maioria do país, passar-se-ia para uma Política de agricultura contestada pela esquerda do partido e pela maioria dos trabalhadores agrícolas. Em Dezembro, Aires Rodrigues votaria contra o OGE e, pouco depois, à semelhança de Lopes Cardoso, abandonaria o partido. Não sem antes lhe ter sido movido um “processo interno”, conduzido em termos “macartianos” por António Reis do secretariado nacional. António Barreto também ficaria por pouco tempo no governo e no partido e sairia acompanhado do ministro dos negócios estrangeiros, Medeiros Ferreira. Para substituir António Barreto na pasta do comércio e Walter Rosa na pasta da indústria, o primeiro-ministro escolheria dois independentes que Eanes viria depois a “repescar” como primeiros-ministros de governos dirigidos contra o PS. Eram Nobre da Costa e Mota Pinto. O ministro do trabalho, o histórico Marcelo Curto, veria reprovada a sua Política laboral e seria substituído por Maldonado Gonelha. Estes e outros sinais de evidente mal-estar e ineficácia seriam entretanto descritos como “alguns pequenos ajustamentos” na equipa governativa [29]. Mas “o primeiro golpe contra o primeiro governo de Soares vem, contudo, de onde Soares menos o espera. Vem de Belém e reveste a forma de um discurso” [30]. A três meses do seu primeiro aniversário, já o primeiro governo estava condenado. Ramalho Eanes, querendo evitar associar-se à impopularidade do governo que empossara, faria um curioso discurso na Assembleia da República demarcando-se por completo de Mário Soares. Este, atordoado mas convencido da sua intocabilidade, responderia de cócoras que “é certo — como notou o presidente da República no seu discurso na assembleia — que muitos dos ideais que floriram com a revolução de Abril e muitas promessas então feitas ao povo, com certa dose de ingenuidade e muita demagogia, não puderam ser realizadas” [31].

Partido Social Democrático
Partido Social Democrático

Mas quando os “enfants-gatés” são contrariados geralmente têm birras. A do primeiro-ministro foi a de responder ao presidente da República com uma ameaça, tentando obter um acordo parlamentar com o PSD e Sá Carneiro. Soares sabia que Sá Carneiro não tinha confiança em Eanes tentando mesmo, em 1976, juntar forças com o PS para evitar a sua eleição. Assim, acena a Sá Carneiro com um acordo pontual e a promessa dos melhores esforços em relação às anteriores reivindicações, prometendo-lhe a entrada de PSD’s, camuflados de “independentes”, no governo. O primeiro-ministro estava convencido de que Sá Carneiro não era homem para durar muito à frente do seu partido e estaria, por isso mesmo, preparado para abdicar dos princípios de coerência que, desde os seus tempos de deputado pela ANP, demonstrara em relação às questões de estado. O bluff de Soares não resultaria, contudo, e Sá Carneiro responderia que “ou o acordo é global ou não há acordo nenhum” [32]. O primeiro-ministro, não sendo um adepto do xadrez, não compreenderia que estava em situação de “cheque-mate” e declararia existirem “razões de optimismo neste terceiro aniversário do 25 de Abril” [33], estando mesmo convencido do analfabetismo político do presidente da República, “no qual o governo tem encontrado sempre um grande apoio e um grande estímulo” [34]. Com um tal raciocínio estava determinado a governar enquanto “não surgir na assembleia (o que se afigura bem difícil) uma alternativa parlamentarmente exequível para o actual governo” [35].

Na madrugada de 7 para 8 de Dezembro cairia o primeiro governo. O presidente da República, general Ramalho Eanes, iria fazer tudo ao seu alcance para que este governo que agora acabava e a “alternativa parlamentarmente exequível” fossem os governos do nosso descontentamento, que iniciariam um longo processo de descaracterização dos ideiais de altruísmo e solidariedade que tinham estado na origem do jovem movimento socialista democrático português. A tentativa do “PS sozinho” caíra por terra, assim como as esperanças dos que pensaram que o primeiro governo seria imbatível na sua configuração PS/Eanes. Mas o receio de Sá Carneiro era tão grande, que o PS continuaria a contar com Ramalho Eanes para o bem e para o mal, apesar das suas constantes demarcações. Mesmo depois de se ter pressentido que Eanes mantinha uma velada ambição de substituir Soares na liderança do PS.

A questão formal que estivera na base da queda do primeiro governo, a exigência de um amplo apoio parlamentar para as negociações com o FMI, não passaria de uma falsa questão. A questão de fundo era, pelo contrário, uma que tinha que ver com as matrizes do próprio regime democrático. A direcção socialista era absolutamente avessa a qualquer acordo com o PSD, parcial ou global. A proposta que o primeiro-ministro Mário Soares faria a Sá Carneiro, aludindo aos seus deveres de patriotismo para um acordo parlamentar, não passaria de uma mera tentativa de “coagir”, sem quaisquer contrapartidas, os sociais-democratas na co-responsabilização das negociações que os socialistas tinham iniciado com o Fundo Monetário Internacional. E também revelando que no íntimo, apesar de ser regime sui-generis, algo no PS alimentava o chamado “sonho mexicano”. No pensamento dos socialistas, o PSD deveria compartilhar com o PS a impopularidade Política que adviria de uma Política económica restritiva e de grande austeridade, por razões meramente “patrióticas”. Mas, Sá Carneiro, por seu lado, só aceitaria a co-responsabilização e assumiria a impopularidade se pudesse compartilhar das responsabilidades governativas. Responsabilidades que Mário Soares não queria assumir sozinho, apesar de querer continuar a ser primeiro-ministro de Portugal, sem ter que dividir o poder com mais ninguém. Beneficiar sozinho das benesses do governo partilhando a impopularidade com os outros.

Francisco Salgado Zenha
Francisco Salgado Zenha

Nas negociações que conduziu com Portugal, o Fundo Monetário Internacional não exigira ao governo do Partido Socialista que apresentasse uma moção de confiança e existia mesmo, por parte dos países que avalizariam esse empréstimo, uma grande pré-disposição para ajudar Portugal. Mário Soares era visto com enorme simpatia quer nos EUA quer na Alemanha, principais parceiros do chamado “grande empréstimo” de 1,5 mil milhões de dólares. Francisco Salgado Zenha tinha sido o pioneiro dessa ajuda internacional, quando em Março de 1976, enquanto ministro das finanças, estivera nos Estados Unidos com o embaixador Frank Carlucci que apoiava plenamente a ideia. Nessa altura “Francisco Salgado Zenha, sensibilizou Kissinger para esse assunto, quando visitou Washington em Março de 1976, e Carlucci deslocou-se especialmente aos Estados Unidos para advogar medidas de emergência, tendo a sua acção sido decisiva, designadamente pelos esclarecimentos que prestou ao congresso, deixando de Portugal a imagem de um país em recuperação” [36]. Tendo assistido e até participado em grande parte das conversas e negociações sobre o chamado grande empréstimo e seus antecendentes, posso assim garantir que se deve essencialmente a Salgado Zenha todo o trabalho pioneiro nesta área.

O que revela uma tese completamente diferente da que os “serviços de contra-informação” do PS lançariam em 1976, para justificar o seu afastamento do primeiro governo. Desmentem igualmente outras teses serôdias que visam objectivos meramente propagandísticos, mas a que falta por completo o pudor e o sentido da história. Chegaria a ser afirmado que “no final do ano de 1975, o ministro das finanças do quarto governo provisório, Francisco Salgado Zenha, convoca para o seu gabinete do Terreiro do Paço, em Lisboa, uma reunião de urgência com todos os responsáveis das pastas económicas do executivo. Convida ainda para estarem presentes o governador do Banco de Portugal, Silva Lopes e o secretário-geral do Partido Socialista. Mário Soares não fazia parte do quarto governo. Salgado Zenha dá início à reunião com uma larga exposição sobre a situação financeira do estado. É dramática. Não há sequer dinheiro para pagar aos funcionários públicos… Mário Soares sabe porque é que foi convidado para aquela reunião. Pergunta: “Quanto é que é perciso?” O ministro das finanças vira-se para Silva Lopes, à espera da resposta. São trezentos milhões de dólares. O líder socialista fica lívido… No dia seguinte, parte para Bona onde encontrará junto do governo oeste-alemão, do seu camarada Helmut Schmidt, o dinheiro necessário para evitar a bancarrota e a ruptura cambial. Cena idêntica repetir-se-á mais uma vez durante a vigência do mesmo governo provisório. Dessa segunda vez, Soares tem de ir mais longe, a Washington, e aí lançará as bases para o “grande empréstimo” que o país virá a negociar mais tarde com o aval do FMI [37]. Francisco Salgado Zenha iria especialmente ao congresso do SPD em Manheim, nos dias 11 e 12 de Novembro de 1975, para conversar com Helmut Schmidt de quem era amigo e por quem tinha admiração. Seria eu quem marcaria os pormenores do encontro e lhe organizaria a viagem. Só não o acompanharia porque tinha instruções para receber “CH” do MI6. Recordo-me aliás de lhe ter enviado uma mensagem de Mário Soares para não regressar da Alemanha uma vez que se esperava um golpe para o dia seguinte. Era então ministro das finanças do sexto governo e tinha a preocupação de encontrar meios financeiros para resolver a situação de bancarrota em que o país se encontrava. E, na sequência da sua visita, depois de a Comunidade Económica Europeia ter concedido um empréstimo de emergência de duzentos milhões de dólares ao nosso país, em Janeiro de 1976, o então ministro das finanças, seguindo os conselhos de Frank Carlucci, iria a Washington em Março e os EUA “prontificaram-se a conceder um empréstimo de 300 milhões de dólares” [38]. Nessa viagem seria, aliás, acompanhado dos governador e vice-governador do Banco de Portugal, Silva Lopes e Vítor Constâncio, respectivamente.

Mas é evidente que o assunto da ajuda alemã seria retomado por Mário Soares, de facto, no encontro que teria com Schmidt, Brandt e a fundação Ebert durante a visita que efectuaria primeiro a Bona e depois a Estocolmo, Oslo e Londres, de 15 a 20 de Dezembro. Nestas capitais seriam abordadas a situação em Portugal e pedida ajudas para o PS e para Portugal. Se bem que não tenha então participado em todos os encontros, não tenho memória de que este assunto tenha sido tratado com Kissinger, em Janeiro de 1976, durante a viagem aos Estados Unidos. Mas na altura Soares não estava no governo e ainda se não discutia em Portugal o chamado “grande empréstimo”. E como já afirmei anteriormente, a viagem foi totalmente paga pelos americanos por iniciativa de Carlucci. A ideia do “grande empréstimo”, um empréstimo bonificado a conceder pelos principais países democráticos aliados de Portugal, seria primeiro aventada por Carlucci e transmitida, de facto, a Helmut Schmidt, a James Callaghan e outros líderes europeus pelo presidente Carter, em 1977. Portanto, como confirma o então embaixador de Portugal em Washington, foi Zenha quem “sensibilizou Kissinger» para o empréstimo dos 300 milhões de dólares e foi “Carter, após receber Carlucci em 25 de Fevereiro de 1977 (que) autorizou que fosse emitida uma declaração reafirmando o seu apoio “firme e activo” à democracia portuguesa” [39]. E portanto nesta data, no seguimento da visita de Zenha e de Carlucci, e não durante as visitas de Soares [40], que para “além daquela ajuda de emergência no valor de 300 milhões de dólares, é posto em movimento um plano mais ambicioso visando a constituição de um consórcio internacional que coloque à disposição de Portugal 1,5 biliões de dólares” [41]. Já a ideia do consórcio estava em marcha, quando o primeiro governo constitucional tomou posse em Julho de 1976 e já Zenha tinha estado nos Estados Unidos em Março de 1976 com Vítor Constâncio e com o governador do Banco de Portugal, Silva Lopes, para tratar do empréstimo de emergência dos 300 milhões de dólares. De novo se fica com a sensação de que a constante procura de um certo tipo de protagonismo “heróico” conduz à deturpação da história mas, por outro lado, é compreensível que não existindo então no PS lugar para mais do que um “herói”, Zenha nunca pudesse aspirar a um lugar no primeiro governo constitucional!

Mário Soares e Sá Carneiro
Mário Soares e Sá Carneiro

No dia 16 de Abril de 1977, teria lugar em Amsterdão mais uma cimeira da Internacional Socialista. O único acontecimento de relevo que justificava aquela reunião era exprimir solidariedade ao PSOE, que tinha sido legalizado no mês de Fevereiro e preparava as primeiras eleições livres daquele país para o mês de Junho. Helmut Schmidt era um dos presentes e dado que no dia seguinte Mário Soares partiria para a sua primeira visita oficial aos EUA ficara acordado haver ali mesmo um encontro entre os dois. Como havia pouco tempo para o realizar, esperávamos resposta do chanceler quando este me fez sinal para ir ter com ele. Disse-me então para levar Soares para fora da sala de reuniões em que nos encontrávamos, acabando o encontro por ter lugar num vão de escada no hall de entrada. O essencial deste breve encontro seria uma análise sobre a maneira como deveria decorrer o “grande empréstimo” e a sua opinião sobre a proposta do presidente Carter, relativa ao mesmo. O estilo de reunião era um pouco insólito e um dos fotógrafos presentes não perderia a oportunidade para tirar uma foto que iria ser publicada em jornais de todo o Mundo. Schmidt explicaria então que o seu governo estaria disposto a participar no chamado “grande empréstimo” proposto pelo presidente Carter, desde que o governo português estivesse na disposição de se submeter ao rigor de um aval do Fundo Monetário Internacional. A proposta inicial do presidente norte-americano não previa a negociação com o FMI, mas o chanceler explicaria que a sugestão norte-americana poderia parecer muito generosa mas era irrealista e nunca seria concretizada no seu sentido lato — com uma ampla participação internacional demonstrativa de confiança no governo de Portugal — dado que sem o aval do FMI, nenhum governo europeu tinha condições de ajudar a cobrir as dificuldades da balança de pagamentos portuguesa. Aliás, segundo Schmidt, isso mesmo ele tinha dito ao primeiro-ministro britânico James Callaghan que estava numa situação semelhante a negociar com o FMI também por seu intermédio e da administração norte-americana.

Além de mim, a comitiva da viagem oficial aos EUA incluía Medeiros Ferreira, Vítor Constâncio e o então acessor diplomático Francisco Knopfli. Houve um encontro com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca, onde seriam discutidas as várias versões sobre as condições do empréstimo e o presidente americano claramente demonstraria a sua simpatia por Portugal. Como nos diria na altura o então vice-presidente Walter Mondale, “Portugal estava na moda em Washington”, aludindo à vitória das forças democráticas no 25 de Novembro e, simultaneamente, à noção de que finalmente os EUA tinham feito alguma coisa acertada em política externa. Para além do encontro com o presidente, houve encontros com o secretário de estado Cyrus Vance, com o conselheiro de segurança, Zbigniew Brzezinski, com Robert McNamara, presidente do Banco Mundial e com o director-geral do FMI, Johannes Witteveen. O vice-presidente Walter Mondale era um homem muito ligado às estruturas do Partido Democrático e do movimento sindical e, por essa via, sentia forte afinidade com os movimentos sociais-democratas escandinavos. Ele próprio era descendente de emigrantes noruegueses. Os seus colaboradores mais próximos no Partido Democrático, o seu presidente Charles Mannatt, Robert Hunter, do conselho nacional de segurança, Geraldine Ferraro e o director para as relações internacionais, John Loiello, mantinham relações estreitas com a Internacional Socialista. Ofereceu um jantar informal na sua residência, com amigos de Portugal, com o objectivo de demonstrar a solidariedade da nova administração para com os socialistas portugueses.

Medeiros Ferreira
Medeiros Ferreira

Sempre que penso nesta viagem aos EUA lembro-me de dois episódios pitorescos. O primeiro teria lugar em Nova Iorque, no hotel, onde a delegação ficaria hospedada na noite de 18 de Abril. O hotel Barclays. Acometido de certo progressivismo pacóvio, o primeiro-ministro deu instruções ao embaixador Themido para mandar desconvocar o aparato policial que o governo americano tinha mandado colocar para sua segurança. A explicação para aquela insólita decisão foi a de que se não sentia ameaçado pela população e, pelo contrário, o seu passado habituara-o a desconfiar das polícias. Depois de negociações embaraçosas para o representante de Portugal, o responsável pela segurança, que estava a obedecer a ordens superiores, foi autorizado de Washington a reduzi-la, tendo para o efeito obrigado Mário Soares a assinar um documento assumindo todas as responsabilidades por essa decisão. Mas a verdadeira razão prendia-se com o facto de ele ter combinado para essa noite um encontro em casa da milionária Victoria Kent, na 5.a Avenida, com o velho grupo de que faziam parte Marvin Howe e Louisa Grant, que lhe promovera contactos com correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club, em 1970. Dada a curta distância do hotel, ele pretendia fazer o percurso a pé e não queria chegar àquele encontro privado de velhos amigos com o enorme aparato policial que tinha sido montado para sua segurança. Também logo nesse dia eu notaria que, no programa da visita, o meu nome não constava da lista de pessoas que iriam acompanhar o primeiro-ministro à reunião na Casa Branca, com o presidente dos Estados Unidos. Soares disse-me que não tinha nada que ver com o assunto e o embaixador explicaria então que a Casa Branca é que limitara o número de participantes na reunião ao primeiro-ministro, ministro dos negócios estrangeiros e embaixador. Embora aborrecido com tal decisão, achei que tendo partido da Casa Branca nada haveria a fazer. Mas, curiosamente, durante o jantar em casa do vice-presidente Walter Mondale, em conversa com o meu amigo Robert Hunter [42], na altura membro do “team” de Brzezinski no conselho nacional de segurança, comentei-lhe ter pena de não poder conhecer o presidente. Apurei então, por mera coincidência, que a decisão não tinha partido da Casa Branca, mas sim do Palácio das Necessidades. Mas, na manhã seguinte, a Casa Branca comunicaria à Embaixada de Portugal que o meu nome passara a integrar a delegação do primeiro-ministro no encontro com o presidente Carter! O então ministro dos negócios estrangeiros, Medeiros Ferreira, era muito sensível a actos do que chamava “diplomacia paralela” mas, aparentemente, ainda mais sensível ao facto de, no PS, ser eu o responsável pelas relações internacionais. E, em 1977, tornara-se evidente que o departamento internacional do PS tinha relações mais rápidas e mais estreitas com a Casa Branca e com a maior parte dos governos europeus, do que o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Mário Soares tinha razão para se sentir feliz com a sua primeira visita oficial aos Estados Unidos. No ano anterior recebera a “bênção” para governar, ao ser declarado persona grata da CIA e ao garantir apoio para o PS e para um eventual movimento sindical alternativo. Desta vez tinha a garantia do empenhamento do governo americano para a realização do “grande empréstimo” e para avançar com a UGT. Também a Liga Internacional dos Direitos Humanos, uma organização privada norte-americana então dirigida pelo meu amigo de muitos anos, o advogado Jerome “Jerry” Shestack, atribuiria esse ano o prémio da liga a Mário Soares [43]. Seria entregue por um prestigiado elemento da equipa do presidente americano, o então embaixador americano nas Nações Unidas, Andrew Young.

Em matéria de relações internacionais tudo corria de vento em popa para o primeiro governo constitucional que pôde, igualmente, ter a percepção de que o pedido de adesão de Portugal à Comunidade Europeia, não obstante as dificuldades de adaptação, seria bem recebido pelos dez países membros. Dois meses antes, a 14 de Fevereiro, o primeiro-ministro tinha iniciado um périplo pelas dez capitais da Comunidade Económica Europeia, que começaria por Londres. Eu faria igualmente parte da delegação portuguesa que incluirá também Medeiros Ferreira, Raquel Ferreira, Vítor Constâncio [44], os embaixadores Siqueira Freire e Lencastre da Veiga. No jantar oficial dessa noite, oferecido pelo primeiro-ministro James Callaghan em Downing Street, seria dado o sinal verde às pretensões de Portugal. James Callaghan diria então de um modo inequívoco, depois repetido em termos semelhantes pelos chefes de governo dos outros países da comunidade, que o governo português “decidiu colocar Portugal na rota de um grande empreendimento histórico, nada menos do que fazer parte da Comunidade Económica Europeia. Embarcaram neste caminho com entusiasmo e determinação e nós, neste país, damos boas-vindas à vossa decisão acreditando firmemente que terão êxito na vossa missão e assim proporcionarão maior estabilidade à democracia em Portugal e à Europa Ocidental. Sabemos que terão que ser vencidas muitas dificuldades de ordem prática para construir o futuro de Portugal na comunidade. Mas os vossos esforços terão o total apoio do governo britânico e ansiamos pelo dia em que Portugal irá ocupar o seu lugar de pleno direito na comunidade da Europa” [45].

Assembleia da República Portuguesa
Assembleia da República Portuguesa

A exigência de um voto de confiança da Assembleia da República para concluir um acordo com o Fundo Monetário Internacional não passava de um bluff. O FMI não tinha exigido, nem podia exigir, tal medida. Sete meses antes, o presidente da República tinha-se demarcado do governo de uma maneira bastante expressiva. O PCP recusara ofertas de cedências em matéria de reforma agrária a troco de um apoio camuflado na Assembleia da República e, finalmente, o PSD recusara igualmente quaisquer acordos pontuais com o PS. Mas o primeiro-ministro Mário Soares nem acreditava que o general Ramalho Eanes tivesse “coragem” para lhe retirar o tapete, nem que houvesse alternativa ao seu governo. Acreditava, sim, que Eanes lhe devia a ele o facto de ser presidente da República e que o PSD e o PCP lhe deviam, embora por razões contrárias, a sua existência legal. Assim se explica o inacreditável “memorando” que enviaria aos partidos a 15 de Novembro, esclarecendo que “o PS não aceita entrar em nenhum governo de coligação. Por duas razões, fundamentalmente: — porque tal posição representa um compromisso tomado perante o eleitorado e… porque considera que um governo de coligação, ainda que pudesse ajudar a vencer certas dificuldades no plano parlamentar, não teria operacionalidade e viria ainda agravar as tensões sociais e regionais já existentes”. Alegava ainda que uma coligação não poderia resultar de uma decisão das cúpulas “devendo antes resultar de algo sentido e vivido pelas bases dos partidos interessados” [46]. Este “memorando aos partidos” continha uma proposta de plataforma que no fundo não passava da repetição da posição de arrogância em que o primeiro governo se colocara. Era a repetição da tese do “PS sozinho”, com a ameaça da moção de confiança pelo meio. O PSD teria que escolher entre votar favoravelmente a moção de confiança ao governo do PS, aceitando um ou vários acordos com Mário Soares “que não implique ou impliquem partilha do poder a nível do executivo” ou responsabilizar-se pela queda do governo. E se Sá Carneiro ousasse optar por votar contra, então nunca o PCP poderia votar lado a lado com o PSD, abrindo as portas à direita. E, em última análise, Eanes lá “estaria sempre, diante de si, como um aluno aplicado” [47]. Era este o raciocínio!

Não tivesse sido a superficialidade com que se tratariam os “interesses dos portugueses e o sentimento de impunidade herdado do regime ditatorial com que os “governantes” geriam esses mesmos interesses e o governo teria sobrevivido. Poupando custos incalculáveis ao país e a total e desnecessária descaracterização do Partido Socialista. O PCP estava fora da área do poder. O caminho de entrada na CEE estava aberto. Em Espanha verificava-se um evolução democrática altamente positiva. Angola mostrara vontade de cooperar com Portugal e lançara um apelo ao primeiro-ministro para introduzir aquele país na esfera ocidental. O presidente dos EUA liderava um grupo de países ocidentais dispostos a ajudar Portugal financeiramente. Porquê, então, querer compartilhar a impopularidade que advinha de querer governar a sós ou lançar o país num clima de instabilidade?

Com a queda do governo, Mário Soares rapidamente alteraria os princípios era que tanto insistira no seu “memorando” e nos seus discursos. Com a assinatura de um acordo com o CDS, a 20 de Janeiro de 1978, partilharia “do poder a nível do executivo”, tomaria uma “decisão de cúpula” que não era “sentida e vivida pelas bases dos partidos interessados” e trairia o anteriormente alegado “compromisso tomado perante o eleitorado”. A volubilidade do discurso político passaria a ser, a partir daí, uma característica sempre ligada à personalidade do primeiro-ministro. Mas com o simples objectivo de concentração do poder, o secretário-geral do PS perderia para sempre a oportunidade histórica de fazer evoluir o país para o nível dos seus futuros parceiros da Europa “rica”. O belo e desinteressado sonho nascido em Bad Munstereifel tinha sido definitivamente sacrificado às ambições político-sociais dos dirigentes do PS. Nos anos 70, no momento da reconstrução do país, faltara-nos um Clement Atlee, um Tage Erlander, um Kiesinger ou um De Gaulle. Não admira pois que, apesar do 25 de Abril e do 25 de Novembro, quando as grandes figuras da cena Política mundial escrevem as suas memórias se não refiram a Portugal e, muito menos, aos protagonistas da Política portuguesa dos últimos vinte anos. Um atento e insuspeito observador da Política internacional durante este período, o embaixador Hall Themido [48], refere nas suas memórias o desinteresse com que é tratado o nosso país. Margaret Thatcher só “faz uma referência breve, meramenmte acidental, a Portugal [49] no seu livro «The Downing Street Years» [50] enquanto o ex-secretário de estado de Ronald Reagan “põe em destaque a relativa pouca importância de Portugal na cena internacional de forma mais cruel — pelo silêncio” [51]. Refere ainda que Henry Kissinger, que tanto teve que ver com a “Revolução dos Cravos”, “publicou em 1994 um livro importante de análise aos assuntos da Política externa, que cobre três séculos de História desde Richelieu, intitulado Diplomacy [52], onde não se fala uma única vez no nosso país” [53]. E continua com mais exemplos que incluem as memórias do ex-ministro dos negócios estrangeiros britânico Geoffrey Howe [54] e de Nelson Mandela [55] que se esqueceu “dos méritos da revolução portuguesa no seu destino” [56]. Mesmo entre os testemunhos dos grandes líderes socialistas se passa situação idêntica. Bastará para isso ler as memórias de Brandt, de Wilson ou de Palme.

25 de Abril
25 de Abril

No quarto aniversário do 25 de Abril, três meses após a tomada de posse do segundo governo, o presidente da República distanciar-se-ia novamente com uma nova e ainda mais violenta crítica à acção governativa. Grande parte do país compreenderia então que. afinal, o “aluno aplicado”, à semelhança do seu “professor”, também alimentava um projecto íntimo de poder pessoal. Mas para aqueles que já em Junho de 1976, no PS e no PSD, se tinham recusado a apoiar a sua campanha, esta revelação não seria uma surpresa. O chamado sector “moderado” que a imprensa noticiava [57] estar em ascenção dentro do partido por ocasião do segundo congresso, com destaque para Jorge Campinos, Vítor Cunha Rego, Maldonado Gonelha, Seruca Salgado e, entre outros, eu próprio, nunca apoiou a candidatura de Ramalho Eanes e sempre foi favorável a um acordo com Sá Carneiro. Ninguém lhe conhecia o pensamento e obra, para além da sua participação no 25 de Novembro, também não tinha. Mas o apoio “unanimista” à candidatura de Ramalho Eanes comprovaria afinal, de novo, o tradicional estilo de escolha dos dirigentes portugueses. Que diga-se em boa verdade é herdado de um conceito profundamente anti-democrático, mas muito português, de promover os medíocres por receio da concorrência dos competentes.

Ao contrário do que seria de supor e o “memorando” enviado aos partidos era 1977, por ocasião do voto de confiança, justificava, o acordo com o CDS nunca foi referendado pelas bases do PS. Fazendo uso dos seus dotes oratórios e da sua capacidade de improvisação, Soares diria à comissão nacional do seu partido que se tornara «necessário, com muita flexibilidade e imaginação, encontrar uma fórmula governativa diferente que possibilitasse a constituição de uma maioria parlamentar estável…que não pusesse em causa o princípio, sempre afirmado pelo PS, de não fazer um “governo de coligação”” [58]. As bases do PS eram esmagadoramente contra um tal acordo com o CDS e a própria comissão nacional esboçaria desde logo indícios de grande contestação. Mas o secretário-geral controlava o partido com mão de ferro e, salvo raras excepções, ninguém teve coragem de se arriscar a perder o lugar. Mas quem menos pretendia perder o lugar era o pouco ascético primeiro-ministro, para quem o acordo com o CDS se não tratava de uma coligação mas sim de “um acordo político com incidência governamental”. No curto espaço de um mês, de Dezembro para Janeiro, tinham-se miraculosamente esvaído as potenciais “tensões sociais e regionais” associadas aos governos de coligação e um governo com o CDS teria “condições de durabilidade” pois “além de representar a maioria no parlamento tinha apoios maioritários no país e nas autarquias locais” [59]. Tinha sido o próprio primeiro-ministro que aludira às tensões sociais resultantes de coligações mas, após assinatura da sua coligação com o CDS, e completamente eufórico com o novo governo, evidenciava de novo a sua grande volubilidade ao criticar os que terão pensado “que se iria abrir, no nosso país, um período conturbado e de grande agitação”. Para contrapor, usando das acusações que lhe eram feitas a ele, que «mais uma vez se pôde verificar, em concreto, quanto são superficiais certas qualificações simplistas e simplificadoras” [60]. Com grande dose de amnésia e sem um verdadeiro sentido da história em que participava, esquecera-se de que fora ele que, um mês antes, afirmara que um governo de coligação “viria ainda agravar as tensões sociais e regionais já existentes, radicalizando perigosamente a Política nacional” [61]. E, de facto, foi esse o resultado da coligação com o CDS. Só que Soares nunca admitiria tratar-se de uma “coligação”!

Perante o enorme descontentamento do eleitorado socialista e em virtude da crescente contestação das bases, muitas das quais, pela primeira vez, começariam a tratar o seu secretário-geral com alguma hostilidade, Soares resolve tirar nova carta “da manga” para calar os contestatários, anunciando negociações para a entrada em bloco do pequeno grupo de ex-dirigentes do MES, conhecidos como Grupo de Intervenção Socialista. Para muitos, a determinação de Soares em fazer entrar este grupo no PS pela porta grande era revelador do seu enorme complexo de esquerda. Para o secretário-geral do PS a esquerda tinha que ser bem falante e engravatada e, de preferência, ter contestado o salazarismo duma posição de privilégio. O grupo do ex-MES era isso mesmo. Criado após o 25 de Abril como manifestação de repúdio pelo convite de Sottomayor Cardia a um pequeno grupo de amigos, liderado por Jorge Sampaio, para integrar a manifestação do PS e convencidos de que “o PS não ia longe” [62], o MES apareceria pela primeira vez no dia 1 de Maio de 1974. E, sem nenhum relevo, aquele grupo abandonaria o Movimento da Esquerda Socialista ainda nesse ano, para se constituir em Grupo de Intervenção Socialista. Entre 1974 e 1978 funcionaria como uma espécie de grupo de apoio às teses mais radicais do MFA tendo mesmo defendido, em 1975, a tese de que votar em branco era votar no MFA. Em 1975, no quarto governo provisório, Jorge Sampaio seria secretário de estado da cooperação e João Cravinho ministro da indústria, tendo ficado ao lado de Vasco Gonçalves mais tempo do que seria democraticamente recomendável. Em 1978, quando Soares lhes dirige novo convite, o Grupo de Intervenção Socialista é praticamente desconhecido em Portugal. A troco da cobertura ao governo PS/CDS, o GIS entraria em bloco para o PS, de uma forma tão óbvia e superficial, que os novos socialistas não escapariam às acusações de oportunismo, de ex-camaradas seus. Um deles declarar-se-ia mesmo “chocado com a entrada no PS, naquele exacto momento” [63]. Também a nível do secretariado nacional do PS muitos seriam os que se oporiam a uma tal negociação, com destaque para Salgado Zenha, Jaime Gama e Jorge Campinos. Manuel Tito de Morais, por natureza avesso a este tipo de negociações e sempre pronto a erguer a bandeira dos princípios do partido, era também contra, mas a sua oposição à coligação era de tal maneira sentida que achou a entrada dos “GIS” um mal menor. Admitiria mesmo que poderiam dar uma pitadinha de “esquerdismo” a um PS que ele então considerava perigosamente numa rota de direita.

Jaime Gama
Jaime Gama

O que ninguém conseguiria explicar, contudo, era de que forma este grupo poderia alterar para melhor a performance do impopular governo e — mais importante ainda — como é que poderiam evitar o que já muitos previam vir a ser uma série de inevitáveis desastres eleitorais futuros! Só que a intervenção socialista, que, na altura, de “intervenção” só tinha o nome, não conseguira anteriormente intervir de forma visível na Política nacional, por muito respeitável que tivesse sido o passado universitário de alguns dos seus membros. Na realidade, a sua única intervenção de relevo, enquanto organização autónoma, seria a negociação com Mário Soares, perante uma série de dirigentes resignados e impotentes. Durante a curtíssima duração deste segundo governo, as intervenções de Salgado Zenha no secretariado nacional deixariam de ter os seus habituais comentários sarcásticos ao seu velho amigo, para se transformarem numa crítica acérrima e mordaz a todas as decisões impostas pelo secretário-geral e que ele classificaria de “monárquicas”. Algo contudo se tinha modificado na co-relação de forças. A maior parte dos dirigentes do PS ou eram então deputados ou, na previsão de que os governos não durariam, começariam a ocupar o aparelho de estado e as empresas públicas. Duvido assim que se Zenha tivesse então esboçado a menor intenção de contestar a liderança do partido ainda tivesse o êxito que quase certamente esteve à sua mão até ao início do primeiro governo constitucional. Mas Zenha era um homem de princípios. Dizia o que pensava com lealdade e sem o menor sinal de querer substituir o secretário-geral do partido. Mas também era evidente que a relação entre ambos era de grande agastamento e que caminhava numa rota de colisão.

Para além da descaracterização que o acordo PS/CDS representaria, anulando todos os anteriores argumentos utilizados para “evitar” o acordo lógico que Sá Carneiro preconizava para estabilizar a democracia e engrandecer o socialismo democrático, foi também durante a vigência dos dois primeiros governos que o PS alterou a sua Política de dependência de ajudas internacionais, mais ou menos indiscriminadas, para projectos concretos de natureza político-económica. Foram criadas as primeiras fundações que teriam no PS um papel de grande relevo. Mário Soares seria sempre o primeiro fundador de todas elas e a República Federal da Alemanha e os Estados Unidos da América passariam assim a ter um papel determinante na vida Política portuguesa. Os enormes fundos das fundações políticas alemãs, ligadas aos partidos Social-Democrata, Democrata Cristão e Liberal, eram postos à disposição destas pelo estado alemão para garantir, no estrangeiro, a abertura de portas aos interesses daquele país. Nos países onde estas fundações actuam, às vezes com gestos de solidariedade em tempos difíceis, como foi o caso do apoio ao PS português durante a clandestinidade, há sempre uma fundação alemã ideologicamente próxima do governo desse país. No caso português houve sempre fundações para as diferentes alternativas: A Friedrich Ebert ligada ao PS, a Konrad Adenauer ao CDS e a Friedrich Naumann ao PSD. Por outro lado, mostrando maior displicência pelas áreas económicas, os Estados Unidos mostrar-se-iam mais interessados na disponibilidade do secretário-geral do PS para veicular as suas ideias no quadro da política internacional, por um lado e, pelo outro, pela garantia de controlo de meios que impedissem novos descarrilamentos de Portugal da sua rota ocidental. O que estava em jogo no campo da luta pela liderança global era de longe superior a quaisquer interesses pontuais de empresários americanos.

António Manuel Maldonado Gonelha
António Manuel Maldonado Gonelha

A fundação José Fontana seria constituída em Outubro de 1977, por vinte e cinco fundadores com um capital inicial de mil contos. Dirigida por Maldonado Gonelha viria a movimentar algumas centenas de milhares de contos, oriundos principalmente da Alemanha mas também da Suécia, da Noruega e dos Estados Unidos. A ideia da constituição desta fundação seria da sua congénere alemã, que desde logo tinha o movimento sindical em mente. Uma ideia que era igualmente compartilhada pela CIA e pela confederação sindical americana, AFL/CIO. Michael Boggs e Irving Brown, frequentemente conotados com as actividades dos serviços secretos americanos, tinham estado em Portugal em 1975 e recomendariam nos EUA apoio à constituição de uma confederação sindical alternativa. Irving Brown estaria de novo entre nós, como um dos convidados internacionais no segundo congresso do PS. Embora tudo indique que não tenha havido concertação entre eles, ambos — alemães e americanos — estariam de acordo em que a posição do secretário nacional do PS e ministro do trabalho do primeiro governo constitucional, Marcelo Curto, era pouco clara. Pelo contrário a do seu secretário de estado, Maldonado Gonelha, estaria em perfeita sintonia com eles, quanto à necessidade de constituição de uma central sindical alternativa. Em Março, Gonelha substituiria Marcelo Curto como ministro do trabalho e prepararia o documento conhecido por “a questão sindical” sobre estratégia sindical a seguir pelo Partido Socialista. Este seria aprovado com grande polémica na comissão nacional do PS, em Maio de 1977. A partir daí, a fundação José Fontana passaria a ser o embrião da União Geral de Trabalhadores, que teria o seu primeiro congresso na cidade do Porto, em Janeiro de 1979.

A fundação Antero de Quental, Centro de Estudos Municipais e de Acção Regional seria constituída em Fevereiro de 1978, por dezoito fundadores e com um capital inicial de quinhentos contos. A partir desta fundação, que teve como primeiros presidentes, sucessivamente, Jorge Campinos, José Manuel Duarte e António Sousa Gomes, seria definida toda a estratégia eleitoral autárquica do Partido Socialista. A fundação Azedo Gneco dirigiu-se, segundo critérios traçados pela experiência alemã, para o apoio ao cooperativismo e seria dirigida por Eduardo Pereira. Revelar-se-ia um fracasso no quadro das actividades do partido e a sua sede, na rua do Salitre, acabraia por transitar para a Juventude Socialista. A quarta fundação era o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, menina dos olhos de ouro de Salgado Zenha, que ainda existe com bastante sucesso, publicando estudos de qualidade. A sua primeira directora seria Teresa Ambrósio e, a partir de 1979, seria o refúgio do chamado “ex-secretariado” do PS, chegando mesmo a criar divisões internas na própria “fundação Ebert” entre o seu secretário-geral, Gunter Grunwald, que apoiria Mário Soares e o seu vice-presidente, Horst Heiderman, que apoiaria aquele grupo. Para que se tenha uma ideia, o financiamento da fundação Friedrich Ebert a estas quatro instituições, só no ano de 1979, seria de 8800 contos para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento (IED), 13800 contos para a fundação Azedo Gneco, 10 mil contos para a fundação Antero de Quental e 45400 contos para a José Fontana. Na nota que a fundação Ebert então enviou ao secretário-geral e ao departamento internacional do PS, esta previa adicionar, nesse ano, 1000 contos para um seminário a efectuar pelo IED, sete seminários de duas semanas e 20 participantes em cada um, mais um seminário de uma semana e 20 participantes, todos na Alemanha, a organizar com a fundação Azedo Gneco. Previa-se aumentar o orçamento da fundação Antero de Quental com um montante avaliado entre mais cinco a sete mil contos e juntar ao orçamento da fundação José Fontana vários programas de convite para sindicalistas da UGT. A própria sede da José Fontana, uma magnífica e enorme moradia no Restelo, seria comprada com uma verba especial da fundação Ebert, tendo eu e o tesoureiro do PS, Fernando Barroso, assinado a escritura de compra. Esse prédio valerá hoje umas centenas de milhar de contos. Tanto quanto me foi possível apurar, da Confederação Sindical Sueca LO, da organização de educação operária ABF e da Noruega foram enviados para a José Fontana muitos milhares de contos. A Noruega financiaria ainda com papel e com quatro carrinhas “Ford Transit” o diário Portugal Hoje e o Instituto de Imprensa Democrática com 1,7 milhões de coroas assim como a organização que eles consideravam ligada ao PS e dirigida por Maria Irene Zenha e Maria José Gama, Associação de Serviço de Apoio Social.

Os dirigentes partidários noruegueses que coordenavam então os apoios a Portugal eram Lars Glans que dirigia então a imprensa social-democrata norueguesa e hoje é dono de uma próspera agência de publicidade e Kaare Sandegren, secretário internacional da poderosa central sindical LO, cargo que ainda hoje ocupa. Na Suécia coordenavam Rolf Theorin a nível de partido, Erik Karlsson e Rune Molin a nível da central sindical e Torsten Wetterblad, a nível do movimento de educação de trabalhadores, ABF. Os apoios da central sindical norte-americana, AFL/CIO, eram coordenados por Irving Brown e por Michael Boggs que, a 7 de Julho de 1977, visitou secretamente a fundação. Por determinação de Mário Soares, o representante da fundação Ebert em Lisboa e os escandinavos, estavam impedidos de ter conhecimento das relações cruzadas da fundação José Fontana com os americanos. E em virtude de rumores que de vez em quando circulavam sobre o assunto, esse tipo de relacionamento era sempre desmentido.

RTP
RTP

A partir da sua eleição em Genebra, em 1976, os vice-presidentes da Internacional Socialista Bettino Craxi e Mário Soares estabeleceriam uma relação de grande amizade pessoal. Um tipo de relacionamento descontraído, comum a pessoas com gostos e pontos de vista semelhantes. O PSI tinha ajudado bastante a Acção Socialista através de Manuel Tito de Morais, que vivera exilado em Roma, mas, depois do 25 de Abril esse apoio seria relativamente modesto. Assim, eu seria surpreendido quando Mário Soares informou que a situação mudara e que o seu cunhado e eu nos deveríamos deslocar a Milão no dia 15 de Setembro (1977), a fim de receber uma considerável quantia de dinheiro. Naquele dia, Fernando Barroso e eu teríamos à nossa espera um dos acessores de Craxi para assuntos financeiros, Ferdinando Mach, que nos levaria numa agradável viagem de carro à cidade de Lugano na Suíça, onde nos seria entregue aquele dinheiro. Meio milhão de dólares que deixavam o partido numa situação desafogada. Nunca me foi dito qual a razão dessa generosa dádiva e nem a mim me competia fazer quaisquer “investigações”. A angariação de fundos era e é da exclusiva responsabilidade do secretário-geral do partido e eu, apesar de ser secretário nacional do PS, considerava-me, em questões não relacionadas com as minhas funções políticas, um mero “correio” que obedecia a instruções superiores. Não tinha, aliás, quaisquer responsabilidades no governo nem no aparelho de estado e, por princípio, recusaria também todas as ofertas e oportunidades para obter lugares em empresas públicas. Foi aliás um princípio que mantive ao longo de toda a minha vida política, mesmo quando, posteriormente, tive algumas ofertas tentadoras, sobre as quais me debruçarei em capítulos seguintes. Tivesse eu questionado o secretário-geral do PS, naquela data, sobre assuntos desta natureza e ser-me-ia dito tratar-se de assuntos que me não diziam respeito. Pior, no voltar da esquina perderia o lugar no secretariado, sem apelo nem agravo. Aliás era o domínio sobre estas matérias que garantia o poder no PS e todos sabiam muito bem que Soares tinha uma “poderosa rede de influências sobre o aparelho de estado através da colocação de amigos fiéis em postos-chaves, escolhidos não tanto pela competência mas porque podem permitir a Soares controlar aquilo que ele, efectivamente, nunca descentralizará — o poder” [64]. Mas embora não fizesse perguntas existiam aspectos que entravam pelos olhos dentro e que seria quase impossível ignorar. Durante a vigência dos primeiros dois governos do PS, houve enorme empenho da fundação Ebert no sentido de mobilizar o governo para uma decisão sobre o sistema de cor a adoptar pela televisão portuguesa. Os dois grandes concorrentes eram os franceses detentores do sistema SECAM e os alemães do sistema PAL. Eu recusaria qualquer envolvimento pessoal nesta área, mas transmitiria um memorando a Mário Soares da fundação alemã em que se dizia que “a RTP abriu concurso no dia 15 de Julho de 1978 para emissores e respectivos equipamentos necessários ao controlo e medida para o sistema a cores” passando depois a explicar como a simbiose de uma “generosa” oferta alemã à RTP com o contrato para os referidos equipamentos, dificultaria, mais tarde, a adopção do sistema SECAM uma vez que “a intencionada encomenda da RTP embora não defina o sistema a cores, poderá facilitar as possibilidades futuras do PAL”. Como é do conhecimento geral, o governo deixaria a opção final sobre o assunto para outro governo.

Embora pouco convencido de que o segundo governo tivesse “condições de durabilidade”, eu trabalhava com grande preserverança para promover internacionalmente Portugal e a imagem do Partido Socialista e do seu secretário-geral. Nunca me interessara muito pela Política interna e, como tal, não era rival de ninguém em áreas que levavam pessoas a dizer os maiores disparates e a cometer as maiores traições. O PS era um antro de intrigas a que eu felizmente escapava, de um modo geral, porque, felizmente para mim, também havia, inicialmente, poucos interessados no meu lugar. Os primeiros candidatos às relações internacionais apareceriam só após a adesão da chamada “intervenção socialista”, altura em que o partido sofreria, aliás, uma profunda transformação. Até então trabalhara com prazer e por convicção, embora compreenda hoje que só pela parte que afectava os interesses do secretário-geral eu nunca seria substituído enquanto secretário nacional para as relações internacionais. Acreditava naquele tempo que enquanto proposto para o cargo que tinha no secretariado nacional pelo secretário-geral, lhe devia lealdade e era minha obrigação defendê-lo e promover a sua imagem. E assim faria, mesmo em ocasiões em que com ele não estava de acordo. Na minha maneira de ver, que hoje permanece inalterada neste capítulo, só assim se compreende o relacionamento entre pessoas de bem em partidos ou agrupamentos civilizados. Em todos os anos em que me mantive à frente dos contactos com os partidos da Internacional Socialista, só ouvira até então intrigas das que circulavam diariamente na rua da Emenda e no largo do Rato, de partidos oriundos de países do Terceiro Mundo. Tivera anos de experiência e contactos íntimos com a direcção do PSD da Suécia e apesar de nesse partido, como em todos os outros, existirem profundas divergências entre os dirigentes, nunca ouviria o tipo de insinuações que ouviria dentro do PS a propósito de tudo e de nada e em relação a quase todos. Estava, de facto, convencido de que “a Política externa conduzida pelo nosso partido (tinha) sido sempre posta ao serviço dos interesses portugueses. Mesmo quando realizámos missões no quadro da Internacional Socialista e em zonas afastadas, até agora, da presença portuguesa. (Tínhamos), aliás, condições para chegar onde a diplomacia oficial não (tinha) fácil acesso» [65]. Nunca lamentaria, contudo, o meu alheamento ao “lavar de roupa suja” apesar de compreender que assim estaria a deixar, despreocupadamente, passar todas as oportunidades de promoção.

PS/CDS
PS/CDS

A partir de 1978, com o governo PS/CDS, muitos dirigentes de partidos socialistas estrangeiros começaram a duvidar das credenciais socialistas de Mário Soares e a achá-lo demasiado alinhado com as posições americanas em matéria de Política externa. O que na minha opinião era, ao contrário do que profetizavam alguns dos nossos “progressistas de serviço”, um trunfo a nosso favor. Semelhante ao que tinha sido o apoio norte-americano em 1975, que funcionara como “leitmotiv” para o posterior apoio massivo europeu, que não quis ficar atrás, sobretudo quando se tratava de um partido “da família”. Porque muitos dos socialistas europeus pareciam muito anti-americanos e até criticavam preferencialmente todas as decisões da administração americana mas, no fundo, como eu verificara, todos queriam aparecer como seus interlocutores privilegiados. E sobretudo os alemães e os britânicos compreenderiam que, após o encontro com o presidente Carter, os socialistas portugueses tinham um diálogo e uma influência diversificada que pesava a nosso favor. Neste contexto, e perante o melhor posicionamento perante a administração americana, eu convenceria o “bureau” da Internacional Socialista, onde entretanto adquirira uma posição de amizade e respeito, fortemente subsidiada pelos nórdicos, de que Mário Soares era o chefe de missão ideal para a América Latina, derrotando as naturais expectativas de Felipe González. Era evidente que, duma perspectiva cultural, nem o Brasil é bem América Latina nem Portugal conhece bem os vinte e dois países daquele subcontinente que falam castelhano. Mas em matéria de defesa dos interesses de cada partido cada um “puxa a brasa à sua sardinha” e seria precisamente isso que eu faria. González, embora nunca mo dissesse, ficaria sempre um pouco “ressentido” com as minhas iniciativas nesta área.

Na primeira de várias missões da Internacional Socialista chefiadas por Mário Soares à América Latina visitaria o México, a República Dominicana, a Jamaica, a Costa Rica e a Venezuela, com a presença do secretário-geral da IS, Bernt Carlsson, e representantes de partidos da Alemanha, Chile, El Salvador, Espanha, EUA, Finlândia, França, Holanda, Itália, Noruega, Portugal, Suécia, Senegal e Venezuela. Eu representava, formalmente, o PS. Em Outubro de 1977, José Francisco Peña Gomez, secretário-geral do Partido Revolucionário Dominicano, admitido como membro da IS um ano antes, sugeriria, numa reunião desta organização em Madrid, uma visita de uma delegação ao seu país para “observar” as eleições marcadas para Abril de 1978. Peña Gomez estivera presente na cimeira de Caracas e estava convencido de que os ventos da mudança jogariam a seu favor. Não só houvera uma mudança pacífica em Portugal e na Espanha mas os dois gigantes do caribe, o México e a Venezuela, pareciam dispostos a colaborar com a IS na democratização da América Latina. Os EUA — fantasma de um passado recente no Chile — tinham também deixado profundas marcas no seu país quando, em 1965, o presidente Lyndon Johnson ali enviara os marines a fim de esmagar uma revolta do PRD contra a junta militar no poder. Após o assassinato do ditador Rafael Trujillo, em 1961, o PRD experimentaria um breve período revolucionário sob a liderança de Juan Bosh, um esquerdista pró-Fidel Castro. Cairia através de um golpe militar em 1963, na sequência do qual, Joaquim Balaguer, um civil autoritário, seria designado presidente. Por pressão dos EUA, decidira anunciar eleições. Peña Gomez diria então andar «há dez anos a trilhar os caminhos da Europa, a solicitar a solidariedade dos partidos socialistas democráticos» e agora pretendia que se realizasse na República Dominicana “uma reunião de líderes como a que se celebrou em Portugal, na véspera das eleições daquele país” [66]. Maldonado Gonelha e eu estávamos presentes na reunião de Madrid. Depois de uma conversa com Peña Gomez eu telefonaria a Mário Soares para São Bento, para saber se ele estaria interessado em chefiar uma possível missão àquele país. Assim, após confirmar o seu interesse anunciaríamos a sua disponibilidade sendo a decisão final tomada na reunião do “bureau” que teve lugar em Hamburgo no início de Fevereiro de 1978.

José Francisco Peña Gomez
José Francisco Peña Gomez

Ali seria definido, como objectivo da missão, preparar um relatório sobre a situação Política e os direitos humanos na América Central, que, como facilmente se depreende, visava “intervir” no processo eleitoral na República Dominicana a favor do nosso parceiro da IS. O candidato presidencial do PRD chamava-se António Guzman e era um abastado produtor de café completamente apolítico, que Francico Peña Gomez convencera a candidatar-se contra Balaguer. Quando chegámos ao aeroporto de Santo Domingo, ficámos estupefactos. Esperava-nos o presidente da República com todo o seu governo e o corpo diplomático ao fundo de uma carpete encarnada. Tocava-se o hino nacional de Portugal e havia uma guarda de honra militar. Por detrás do governo, estava uma delegação do nosso partido irmão com Peña Gomez à cabeça e a quem o protocolo de estado nos “apresentaria”. Mário Soares seria tratado como primeiro-ministro de Portugal e a visita subitamente transformada numa visita oficial. Os delegados da Internacional Socialista seriam completamente ignorados e obrigados a passar a fronteira, enquanto Mário Soares acompanhado por uma escolta militar chefiada por um general do exército, seguia directamente da pista do aeroporto para o hotel. À saída do aeroporto estava uma multidão de muitas dezenas de milhares de pessoas que a pé, de carro e de moto acompanharam os delegados da IS até ao centro da cidade onde nos reencontraríamos com Mário Soares.

Tinha-se iniciado uma autêntica revolução. O presidente Balaguer, personalidade curiosíssima que se dizia admirador de Salazar, marcara uma recepção a Mário Soares, que foi ao palácio presidencial acompanhado do secretário-geral da IS, Bernt Carlsson, e do seu acessor diplomático Francisco Knopfli, diplomata de carreira do Palácio das Necessidades. Balaguer falaria do seu país, do apoio que o seu governo tinha dado na ONU ao governo de Portugal sobre a questão colonial, a troco da exportação de açúcar para o nosso país. Não tocou na situação no seu país nem no facto de considerar a visita do primeiro-ministro de Portugal inoportuna naquele momento eleitoral. Nada, nem mesmo quando Mário Soares lhe disse que estávamos ali para apoiar o PRD, o partido que o pretendia derrubar. Na manhã seguinte participaríamos numa gigantesca caravana pela cidade, tendo oportunidade de verificar que a popularidade de Peña Gomez era esmagadora naquele pequeno país predominantemente negro mas dirigido, económica, militar e politicamente por uma pequena elite branca e mestiça. Só assim compreendemos a razão pela qual ele próprio se não canditaria então à presidência do seu país. O entusiasmo popular e o desejo de mudança era tão grande, que o exército começaria a intervir sobre os manifestantes depois de terem passado os carros da comitiva da Internacional Socialista. Eu seguia no mesmo carro do acessor diplomático de Mário Soares e do representante do PS Senegalês, Obey Diop e, por diversas ocasiões, quando começou a entardecer, os populares confundiam o senegalês com Peña Gomez e o diplomata Francisco Knopfli com Soares, lançando-se com um entusiasmo frenético contra o carro e quase o virando de rodas para o ar. Obey Diop apanharia um susto tão grande que a partir daí teria mesmo pesadelos durante o resto da viagem. Chegámos mesmo a recear pela sua saúde quando, uma noite, já no México, seria encontrado a vaguear pelos corredores do hotel em camisa de noite. Mário Soares seguia no carro com Peña Gomez e com o candidato Guzman.

O entusiasmo era tanto que Soares “regressou” aos tempos do PREC e, perante o espanto do general do exército que Balaguer tinha colocado às suas ordens, tomou conta da situação, ordenando ao tímido António Guzman que erguesse o punho e gritasse as palavras de ordem. A principal, recordo-me como se fosse hoje, era “Peña, timón de la revolución”, ou Peña, timoneiro da revolução. O grande comício, que duraria praticamente todo o dia, iria acabar num anfiteatro apinhado de gente em que foram produzidos os discursos mais revolucionários e mais cómicos que eu ouvira até então. O entusiasmo era indescritível e a desorganização também. No discurso final, Peña Gomez decidiu chamar os delegados internacionais, um por um, entregando-lhes medalhas e certificados do seu partido agradecendo a nossa solidariedade. Cada um era recebido com tanto entusiasmo e barulho que o teatro parecia em risco de desmoronamento. Seria um acontecimento inesquecível e os membros da delegação não sabiam se acabariam por morrer esmagados pelo entusiasmo popular ou de riso. Ao sermos mencionados pelo orador, os nossos cargos políticos seriam todos inflacionados de tal maneira que era impossível conter as gargalhadas, que durariam durante todo o resto da viagem. Quando anunciaram Volkmar Gabert, deputado do SPD da Bavária, chamaram-lhe primeiro-ministro da Bavária, despromovendo completamente o conservador Franz Josef Strauss e nem o acessor diplomático de Soares escaparia, quando foi chamado à tribuna em último lugar para receber o seu diploma como “Francisco Knopfli, secretário-geral da juventude socialista portuguesa”! Diplomata de carreira que era, ia morrendo de susto e deu graças a Deus por não ter aparecido na televisão portuguesa, quando timidamente retribuiu o estrondoso aplauso com o punho esquerdo no ar!

António Guzman
António Guzman

Mas, nessa madrugada, os militares dominicanos tomariam conta do poder, começando a prender dirigentes do PRD em todo o país. A guarda de honra militar que acompanhava o primeiro-ministro português também tinha desaparecido. Este seria informado telefonicamente ser a “sua” delegação considerada indesejável na República Dominicana e os seus membros aconselhados a abandonar o país. Pelas 8 da manhã reuniríamos com Peña Gomez na sua casa para analisar a situação. Bom, havia pouco que analisar embora o secretário-geral da IS, excitadíssimo com a inédita experiência, fosse de opinião que não deveríamos aceitar o ultimato e deveríamos ficar até ao fim da estadia prevista, o que significava mais 24 horas, na República Dominicana. Mário Soares seria evidentemente de opinião contrária. Em primeiro lugar era primeiro-ministro de um governo com o CDS e uma expulsão levantaria toda uma série de problemas políticos. Ele não fizera sequer uso dos canais diplomáticos à sua disposição para avisar o governo dominicano do objectivo da sua visita e, apesar de o país visitado ser então considerado uma «república das bananas”, o comportamento do primeiro-ministro de Portugal não ficara atrás. Andara mais de 24 horas de punho no ar a dar vivas ao PRD e a gritar “abaixo a ditadura» o que, convenhamos, poderia levantar alguns problemas. Peña Gomez, embora confuso com a situação, concordaria que não tinha meios de controlar a evolução dos acontecimentos e tinha receio que algo nos pudesse acontecer. Só que nós também não tínhamos transporte para sair daquele país, tendo sido obrigados a apelar ao presidente da Venezuela, Carlos Andréz Perez, para nos ir buscar. Este enviaria o seu avião presidencial que nos transportaria até ao país seguinte, a Jamaica. A caminho do aeroporto não se viam mais manifestantes mas, para grande surpresa, ali encontraríamos, de novo, o presidente Balaguer, o governo, os militares e o corpo diplomático a apresentar cumprimentos de despedida! Parece mentira mas não é. Os três dias que passámos naquele lindíssimo país dariam uma comédia hilariante.

Duas semanas após a nossa visita, o candidato António Guzman seria eleito presidente da República mas os militares, uma vez mais, recusar-se-iam a aceitar o veredicto popular. Felizmente para a República Dominicana já não estávamos em 1965 e o presidente Carter interviria, mas para inverter a situação. Este, em clara concorrência com a Internacional Socialista, mostrou onde estava o poder real e reconheceu António Guzman como presidente legítimo, advertindo os militares para as consequências da sua não aceitação dos resultados eleitorais. Dois anos depois, visitei particularmente a República Dominicana com a minha mulher, com intenção de passar uma semana de férias que não conseguiria ter, dados os convites incessantes de Peña Gomez para visitas e convívios. Um desses foi um almoço com o presidente António Guzman. O general que acompanhara Mário Soares e Guzman na revolucionária comitiva fora nomeado chefe do estado-maior das forças armadas. Lamentavelmente, António Guzman, um homem de bem, suicidar-se-ia antes do final do seu mandato, devido a um escândalo de corrupção que envolveu o seu filho. O seu sucessor, Salvador Jorge Blanco, à altura o número dois do PRD, envolver-se-ia igualmente num escândalo de corrupção e após novas eleições, Joaquim Balaguer, com quase oitenta anos e praticamente cego, sairia vencedor. Desta vez democraticamente!

Exactamente como acontecera com o partido do dominicano Peña Gomez, também os socialistas andariam mais de dez anos a trilhar os caminhos da Europa, a mendigar apoios e solidariedade dos partidos sociais-democratas. Mas, em 1978, o PS conseguira um lugar de destaque entre os seus pares europeus e numa invejável posição de interlocutor com a administração Carter. Em três anos, o departamento internacional do PS tinha estabelecido contactos em todo o mundo e chegava onde a diplomacia portuguesa nunca tinha estado. Durante estes anos participara activamente na elaboração das novas directrizes da Internacional Socialista nas relações Leste Oeste, Norte Sul e Direitos Humanos. A sua posição, mesmo quando distinta da do grosso da Internacional, era ouvida com atenção. O PS tinha algo a dizer em matéria de democratização do Brasil e da América Latina, restabelecera o diálogo com o governo de Angola, era respeitado no Médio Oriente e no Magrebe e era mesmo disputado em termos preferenciais por alguns partidos comunistas, como era o caso dos romeno, jugoslavo, espanhol e italiano. Nos anos de 1976 a 1978 o departamento internacional estabelecera contactos regulares com praticamente todos os embaixadores acreditados no nosso país e, directamente, com muitos governos estrangeiros e organizara a viagem de centenas de representantes do Partido Socialista a, praticamente, todos os cantos da terra, do México à Coreia do Norte. A regra de ouro que eu estabeleci e que tinha aprendido com os suecos, caracterizou-se pela descentralização de actividades que eu promovia e coordenava, enviando a missões no estrangeiro desde secretários regionais a dirigentes nacionais. Quando António Guterres, após a queda do segundo governo constitucional, teve a ideia de coordenar e lançar o primeiro documento credível de acção política geral do partido, “Dez Anos para mudar Portugal — Proposta PS para os anos 80″, seria particularmente apoiado pelo departamento internacional nos contactos necessários à conclusão do seu trabalho. A iniciatiava e o projecto inovador que iria desenvolver — exactamente por ser de qualidade — seria também, provavelmente, o mais sabotado pelo resto do aparelho. Mas em boa verdade se deve dizer que o clima dentro do PS não se equiparava de modo algum ao extraordinário e excitante trabalho que vinha sendo desenvolvido internacionalmente. Quatro anos após o 25 de Abril, o povo português começava a descrer na democracia e estava farto dos governos do PS. Este partido e, principalmente, o seu secretário-geral, não saberiam agarrar as oportunidades e gerir os meios à sua disposição. Estavam atolados em lutas intestinas pelo poder, sem se conseguirem libertar de um dia a dia de mediocridade e compadrio. Com o fim dos seus malogrados governos, o PS iria conhecer um longo período de crise e apatia.

NOTAS:

[1] Teresa de Sousa, Mário Soares, ed. cit., p.97

[2] Idem, p.98

[3] Mário Soares, PS: Fronteira da Liberdade, ed. cit., p.359

[4] Mário Soares «confessaria», numa entrevista ao Diário de Notícias de 2 de Abril de 1979, não ter sido a pessoa mais adequada para chefiar o primeiro governo constitucional

[5] Teresa de Sousa, ob. cit., p.98

[6] Referência à mulher de Salgado Zenha, Maria Irene Salgado Zenha

[7] Vencer a Crise, Preparar o Futuro. Um Ano de governo constitucional, p.185, SECS, Lisboa, 1977

[8] Os acordos de Alvor foram assinados em 15 de Janeiro de 1975 entre o MPLA, UNITA e FNLA fixando os termos da independência daquela país para o dia 11 de Novembro desse ano

[9] Comunicado do PS e do MPLA, Luanda 1 de Setembro de 1976. Assinam Agostinho Neto, Lopo
do Nascimento e José Eduardo dos Santos (MPLA) e António Macedo, Manuel Tito de Morais e Rui Mateus (PS)

[10] Notas particulares do encontro com o presidente Agostinho Neto

[11] Comunicado PS/MPLA de 1 de Setembro de 1976

[12] Comunicado PS/MPLA de 1 de Setembro de 1976

[13] Carlos Rocha, membro do «bureau» político do MPLA

[14] Comunicado PS/MPLA, de 31 de Agosto de 1977

[15] O presidente Agostinho Neto referia-se ao facto de não ter havido “normalização” das relações com Portugal porque o sexto governo provisório, em vez de abrir uma embaixada em Luanda, limitara-se a enviar um cônsul. O presidente angolano consideraria isso uma ofensa!

[16] Notas particulares da conversa com Agostinho Neto, no dia 1 de Setembro de 1976

[17] Savimbi foi representado nos EUA pela empresa de relações públicas Black Manafort, Stone & Kelly

[18] John Stockwell, In Search ofEnemies, p.162, W. W. Norton, Nova Iorque, 1978

[19] The Agency: The Rise & Decline of the CIA, ed. cit., p.608

[20] O Documento Guia da Aliança Povo-MFA, aprovado na assembleia daquele movimento, em 1975, considerava o MFA como sendo um movimento de libertação

[21] No seu interessante livro «High Noon in Southern Africa: Making Peace in a Rough Neighbourhood», W. W. Norton, Nova Iorque, 1992, e o ex-subsecretário de estado norte-americano, Chester Crocker, afirma que a Política do seu país em relação a Angola seria errada desde 1974. Também o ex-chefe da Angolan Task Force da CIA, John Stockwell, o confirma, no seu livro In Search of Enemies, ob. cit

[22] Expresso, de 30 de Outubro de 1976

[23] Teresa de Sousa, ob. cit., p.115

[24] O Jornal, de 29 de Outubro de 1976

[25] Willy Brandt, Minnen, ed. cit., pp.405-406

[26] James Callaghan (Reino Unido), Bettino Craxi (Itália), Anker Joergensen (Dinamarca), Bruno Kreisky (Áustria), François Mitterrand (França), Olof Palme (Suécia),Yitzhak Rabin (Israel), Leopold Senghor (Senegal), Mário Soares (Portugal), Kalevi Sorsa (Finlândia), Reiulf Steen (Noruega), Anselmo Sule (Chile), Joop den Uyl (Holanda) e Gough Whitlam (Austrália)

[27] Declaração de protesto do PS, assinada por mim no dia 21 de Outubro de 1976 e enviada ao governo espanhol

[28] Comunicado do Partido Socialista desmentindo o El País. Gabinete de imprensa do PS, Lisboa, 17 de Fevereiro de 1983

[29] Vencer a Crise. Preparar o Futuro, ed. cit., p.82

[30] Teresa de Sousa, ob. cit., p.98

[31] Mário Soares, PS: Fronteira da Liberdade,ed. cit., p.169

[32] Teresa de Sousa, ob. cit., p.99

[33] PS: Fronteira da Liberdade, ed. cit., p.171

[34] Vencer a Crise. Preparar o Futuro, ed cit., p.24

[35] PS: Fronteira da Liberdade, p.171

[36] João Hall Themido, Dez Anos em Washington, ed. cit., p.243

[37] Teresa de Sousa, ob. cit., p.93

[38] João Hall Themido, ob. cit., p.243

[39] João Hall Themido, ob. cit., p.243

[40] Mário Soares visitaria comigo os EUA de 19 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 1976 e, de novo, em 1977, de 17 a 22 de Abril. Só durante a última visita seria discutida com a administração norte-amencana a questão do “grande empréstimo”, então já em plena marcha por iniciativa do presidente Carter

[41] João Hall Themido, ob. cit., p.243

[42] Robert Hunter é actualmente embaixador dos EUA junto da NATO

[43] Esta organização está muito ligada ao Partido Democrático e ao lobby judaico. O prémio foi o primeiro resultado pela decisão de reconhecer o estado de Israel

[44] Vítor Constâncio e Raquel Ferreira eram então presidente e vice-presidente da comissão para a integração europeia

[45] Discurso de James Callaghan, no n.º 10 da Downing Street, no dia 14 de Fevereiro de 1977

[46] Mário Soares, Crise e Clarificação, pp.13-16, Perspectivas & Realidades, Lisboa, 1977

[47] Teresa de Sousa, ob. cit., p.97

[48] Hall Themido foi embaixador de Portugal nos EUA de 1971 a 1981 e foi, posteriormente embaixador na Grã-Bretanha

[49] João Hall Themido, Dez Anos em Washington, ed. cit., p.266

[50] Margaret Thatcher, The Downing Street Years, Harper Collins Publishers, Londres, 1993

[51] João Hall Themido, oh. cit., p.266. O livro a que se refere é a obra de George Schultz, já citada, Turmoil and Triumph

[52] Henry Kissinger, Diplomacy, Simon and Schuster, Nova Iorque, 1994

[53] João Hall Themido, ob. cit., p.270

[54] Geoffrey Howe, Conflict of Loyalty, MacMillan, Londres, 1994

[55] Nelson Mandela, Long Walk to Freedom, Little Brown and Company, 1994

[56] João Hall Themido, ob. cit., p.270

[57] Expresso, de 30 de Outubro de 1976

[58] PS: Fronteira da Liberdade, ed. cit., p.204

[59] Idem, p.208

[60] PS: Fronteira da Liberdade, p.211

[61] Mário Soares, Crise e Clarificação, ed. cit., p.16

[62] César de Oliveira, Os anos Decisivos, ed. cit., p.139

[63] César de Oliveira, Os anos Decisivos,ed. cit., p.224

[64] Teresa de Sousa, ob. cit., p.98

[65] PS, Fronteira da Liberdade, ed. cit., pp.288-9

[66] Livro de intervenções da reunião de Caracas, pp.219-20, Accion Democrática de Venezuela, Maio de 1976

Fonte: Livro «Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido» de Rui Mateus

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