Os Pergaminhos do Mar Morto

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Os Pergaminhos do Mar Morto são a mais antiga versão já descoberta da Bíblia do Velho Testamento e foram uma das maiores descobertas arqueológicas do Século
Os Pergaminhos do Mar Morto são a mais antiga versão já descoberta da Bíblia do Velho Testamento e foram uma das maiores descobertas arqueológicas do Século

Os Pergaminhos do Mar Morto são, sem sombra de dúvida, o achado mais significativo e excitante dos últimos cem anos no que diz respeito a manuscritos. O esconderijo de pergaminhos e de fragmentos de pergaminho foi descoberto em onze cavernas na área de Qumran, cerca de vinte e um quilómetros a leste de Jerusalém, perto do mar Morto em Israel. Esta extraordinária biblioteca de documentos judaicos foi datada entre o Século III a. C. e o ano 68 da nossa era, e é constituída por pergaminhos feitos de peles de animais, alguns de papiro, e um exemplar bastante invulgar de cobre. Os textos estão escritos com uma tinta à base de carbono e a língua utilizada é na maior parte dos casos o hebraico, com alguns textos em aramaico (uma língua semita alegadamente falada por Jesus) e um pequeno número em grego. A investigação sobre estes Documentos e os seus autores tem decorrido sem interrupções desde a sua descoberta inicial, no final dos anos 40, e de forma fascinante lançou alguma luz não só sobre a Bíblia mas também sobre uma irmandade secreta de homens e mulheres conhecidos como os Essenes.

Em 1947, pastores de cabras beduínos procuravam um bode tresmalhado por entre os penhascos com vista para o mar Morto quando encontraram uma caverna até aí inexplorada. No interior, os beduínos descobriram ao longo das paredes uma quantidade de jarras de barro antigas cheias de manuscritos e embrulhadas em linho. Ao todo foram recuperados sete jarras dessa caverna (conhecida como caverna 1) e assim começou uma investigação de nove anos nas cavernas ao longo da costa noroeste do mar Morto. Durante a busca pelos pergaminhos, os arqueólogos tiveram de lidar muitas vezes com o problema colocado pelos beduínos locais que pilhavam as cavernas, ansiosos por obter algum lucro ao venderem os manuscritos a negociantes árabes de antiguidades em Belém. Apesar de tudo, as investigações acabaram por produzir cerca de oitocentos documentos oriundos de onze cavernas em Qumran. Algumas destas cavernas, em particular a caverna 4, parecem ter funcionado como bibliotecas permanentes com prateleiras embutidas.

Manuscritos do Mar Morto
Manuscritos do Mar Morto

Apesar de alguns dos pergaminhos de Qumran terem sido escritos durante a época de Jesus, nenhum destes se refere directamente a ele ou a qualquer dos seus apóstolos. Isto pode dever-se ao facto de os pergaminhos encontrados serem apenas uma pequena parte do que outrora teria provavelmente sido uma enorme biblioteca de manuscritos, a maior parte dos quais se perdeu. Um dos aspectos mais fascinantes dos pergaminhos é que entre eles foi encontrado o mais antigo conjunto de textos do Velho Testamento alguma vez encontrados; o único documento hebraico tão antigo como estes é o Papiro Nash, do Egipto, datado do Século II a. C. e que contém um texto hebraico sobre os Dez Mandamentos. Os Pergaminhos do Mar Morto podem ser divididos em duas categorias: os bíblicos, que consistem em cópias dos livros das escrituras hebraicas e em comentários sobre estes textos, e os não bíblicos, que consistem em Livros de orações e regras de vida da comunidade que escreveu estes textos. Nos textos bíblicos estão representados todos os livros do Velho Testamento, excepto o Livro de Ester e o Livro de Neemias. Estão presentes profecias de Ezequiel, Jeremias e Daniel, bem como histórias tradicionais com figuras bíblicas como Noé, Abraão e Enoque, nenhum dos quais está registado na Bíblia hebraica canónica. Alguns dos textos mais importantes que foram encontrados nas cavernas de Qumran são o Grande Pergaminho de Isaías, que contém todos os sessenta e seis capítulos do Livro de Isaías; um comentário sobre o Livro de Habakkuk (um dos livros dos Profetas Menores do Velho Testamento); um livro de regras comunitárias conhecido como Manual de Disciplina, que consiste principalmente num sumário das responsabilidades do mestre e dos discípulos de uma comunidade sectária judaica; por fim, o controverso Pergaminho do Templo. Este pergaminho é o mais extenso e talvez o mais bem preservado de todos os Pergaminhos do Mar Morto, e centra-se na forma ideal de concepção e operação de um templo novo e perfeito, incluindo as suas leis e os procedimentos sacrificiais.

A questão de quem escreveu os Pergaminhos do Mar Morto e posteriormente os escondeu nas cavernas de Qumran é um assunto controverso. Os investigadores baptizaram os autores prováveis do texto, um pequeno grupo de judeus que viviam na localidade próxima de Qumran, como a Seita do Mar Morto. Estes são muitas vezes identificados como os Essénios, a quem é atribuída a introdução do monasticismo, e uma das três principais seitas judaicas discutidas pelo historiador judeu Josefo (37 d. C. –  100 d. C.), sendo os outros os fariseus e os saduceus. Os Essénios aparecem noutras fontes contemporâneas como Josefo Flávio, Filo de Alexandria e Plínio, o Velho, apesar de não serem mencionados no Novo Testamento. Aparentemente, os Essénios deixaram Jerusalém em protesto contra a forma como o templo, a instituição central do Judaísmo, era gerido e instalaram–se no deserto da Judeia, longe do que consideravam a mundanidade de Jerusalém. Tornaram-se uma comunidade ascética e monástica, apesar de parecer que havia mulheres entre eles, e cumpriam rigidamente a Tora, ou a Lei Escrita (geralmente os cinco primeiros livros da Bíblia hebraica).

Manuscritos do Mar Morto
Manuscritos do Mar Morto

Perto das cavernas onde os pergaminhos foram encontrados ficam as ruínas de Qumran, uma fortaleza abandonada que se pensa ter sido reestabelecida como povoação entre 150 a. C. e 130 a. C. As investigações levadas a cabo no local revelaram que um grupo de ascetas judeus habitou o local, que incluía um espaço para reuniões, tanques para imersão ritual, aquedutos, cisternas e armazéns. Os habitantes não parecem ter vivido no interior da edificação principal, mas antes em tendas e cavernas em redor. Uma sala longa e estreita em Qumran, conhecida como o escritório, continha dois tinteiros e uma série de bancos de escrita que se pensa terem sido utilizados por escribas. Os arqueólogos acreditam que foi neste aposento que foram copiados muitos dos textos bíblicos encontrados nas cavernas. Apesar de não terem sido encontrados quaisquer indícios de manuscritos nesta sala, ela está associada às cavernas dos pergaminhos pela presença de um tipo distinto de cerâmica que foi descoberto em ambos os locais.

Muitos dos Pergaminhos do Mar Morto dão-nos uma importante visão sobre as vidas e crenças da comunidade que os escreveu. Por exemplo, existem Documentos calendáricos que incluem um sofisticado calendário solar de trezentos e sessenta e quatro dias, que se opunha ao mais popular calendário lunar de trezentos e cinquenta e quatro, que era utilizado no templo em Jerusalém. Outro manuscrito intitula-se «A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos da Escuridão». Os filhos da luz são provavelmente a Seita do Mar Morto e os filhos da escuridão parecem ser uma referência ao resto da Humanidade. Este pergaminho descreve uma iminente batalha cataclísmica, não só entre estas duas forças como também entre as forças cósmicas do Bem e do Mal, e representa a forma como esta comunidade via o Armagedão. Para a Seita do Mar Morto, esta batalha acabou por chegar mais cedo do que esperavam. Durante a Primeira Revolta Judaica (6673), o exército romano cercou e destruiu Jerusalém e vários fortes judaicos, entre os quais Masada, no extremo oriental do deserto da Judeia, com vista para o mar Morto.

Durante a batalha de Masada, em 73 d. C., os judeus que defendiam o local cometeram um suicídio em massa para não caírem nas mãos dos Romanos. Curiosamente, entre os fragmentos de catorze pergaminhos bíblicos, apócrifos e sectários encontrados em Masada estava um manuscrito sectário idêntico a um outro descoberto em Qumran e utilizava o mesmo calendário de trezentos e sessenta e quatro dias da Seita do Mar Morto. Há poucos indícios sobre o que aconteceu em Qumran quando as legiões romanas chegaram, em 70 d. C. A seita parece ter transportado os seus pergaminhos para as cavernas das proximidades, para ficarem em segurança antes do ataque romano, apesar não se saber se os habitantes pereceram na batalha ou se conseguiram fugir.

Alguns estudiosos acreditam que o grupo de Qumran não foi responsável de todo pelos Pergaminhos do Mar Morto. Uma teoria é que os manuscritos foram escritos por sacerdotes do Segundo Templo Hebraico de Jerusalém e depois transportados até Qumran e cuidadosamente escondidos das legiões romanas. Uma interpretação desta hipótese poderia envolver a Seita do Mar Morto em algum nível, talvez como os que foram incumbidos da tarefa de esconder os pergaminhos de Jerusalém depositando-os nas cavernas. Isto significaria que a seita era a guardiã dos pergaminhos e não a autora. Contudo, esta hipótese não encaixa bem com a forte crítica da seita contra os sacerdotes do templo. O professor Norman Golb, do Instituto Oriental da Universidade de Chicago, acredita que os pergaminhos representam uma variedade tão grande de ideias que dificilmente seriam o produto de uma só comunidade, sendo provavelmente amostras dos textos de várias antigas comunidades e seitas judaicas de Israel.

Manuscritos do Mar Morto
Manuscritos do Mar Morto

O mais invulgar e misterioso dos Pergaminhos do Mar Morto é sem dúvida o Pergaminho de Cobre. Este pergaminho invulgar foi encontrado em 1952 na caverna 3, em Qumran, e, como o nome atesta, é feito de cobre. O pergaminho está escrito numa forma de hebraico diferente da dos outros manuscritos de Qumran e provavelmente data de meados do  Século I a.C. Ao contrário dos restantes pergaminhos, o Pergaminho de Cobre não é uma obra literária, mas uma lista de sessenta e quatro esconderijos subterrâneos espalhados por Israel. Estes esconderijos estão descritos como contendo grandes quantidades de ouro, prata, pergaminhos, jarros rituais, caixas de incenso e armas. Em 1960 calculou-se que o valor total deste hipotético tesouro seria de mais de um milhão de dólares. Apesar de muitos terem procurado estas riquezas nada foi descoberto, convencendo-se a maioria dos estudiosos que o texto em hebraico deste pergaminho é algum tipo de código. A presença de grupos de duas ou três letras gregas anexadas ao final de sete dos registos reforça esta ideia. Devido à natureza específica de alguns dos itens (como jarros rituais e incenso), alguns investigadores acreditam que as riquezas descritas seriam o famoso tesouro perdido do Templo de Jerusalém, escondido antes da sua destruição pelas legiões romanas em 70 d. C. Um aspecto intrigante do Pergaminho de Cobre é o último registo na sua lista de locais, etiquetado como «Item 64». Aí pode ler-se:«(…) num poço contíguo a norte, num buraco que abre virado para norte e enterrado à entrada: uma cópia deste documento, com uma explicação e as suas medidas, e um inventário de cada coisa.» Será que este registo significa que existe algures um outro pergaminho de cobre ainda por descobrir, contendo informações mais substanciais?

Apesar de todos os manuscritos descobertos na caverna 1 terem sido impressos entre 1950 e 1956, a publicação dos Pergaminhos do Mar Morto tem sido um processo demorado. A falta de acesso aos pergaminhos tem convencido alguns investigadores, como Michael Baigent e Richard Leigh no seu livro «The Dead Sea Scrolls Deception», de que o Vaticano esteve por trás de uma Conspiração para suprimir a publicação dos manuscritos ao público em geral, por ter receio do perigoso material relacionado com o início do Cristianismo neles contido. Tais teorias têm enfraquecido consideravelmente depois da publicação de mais textos dos pergaminhos no final dos anos noventa e início do novo milénio, em particular a publicação de toda a colecção de pergaminhos bíblicos. Com a revelação de muito do material das cavernas de Qumran, a importância dos Pergaminhos do Mar Morto pode agora ser muito mais bem apreciada. Os pergaminhos não só fornecem fascinantes informações religiosas e históricas sobre um período mal documentado da História como também lançaram uma nova luz sobre as fontes tanto do judaísmo como do Cristianismo inicial.

A recente tradução do Evangelho de Judas veio estabelecer um interessante paralelismo com o material dos Pergaminhos do Mar Morto. O Evangelho de Judas é um texto que vem dar uma visão completamente nova da relação entre Jesus e o infame discípulo que o traiu. Este manuscrito de papiro encadernado a couro, proveniente do início do Cristianismo, contém o único texto conhecido do Evangelho de Judas e foi datado por volta do ano 300 d. C. O manuscrito foi encontrado nos anos setenta numa caverna perto de El Minya, no Egipto, e circulou pelas mãos de vários negociantes de antiguidades no Egipto e na Europa durante anos, até ter chegado aos EUA, onde em 2000 foi adquirido por Frieda Nussberger-Tchacos, uma negociante de antiguidades sedeada em Zurique. A senhora Nussberger-Tchacos acabou por vender o manuscrito à Fundação Maecenas, em Basileia, na Suíça, onde foi restaurado e traduzido. Em Abril de 2006, numa conferência de imprensa na cidade de Washington, a National Geographic Society anunciou que o restauro e tradução do manuscrito estavam completos. Tal como com os Pergaminhos do Mar Morto, uma parte significativa do material original dos textos de El Minya desapareceu, apesar de se pensar que algum desse material circula ainda pelos negociantes de antiguidades ou por mãos privadas. Deste ponto de vista, só podemos imaginar que outros tesouros manuscritos estariam outrora incluídos na biblioteca de pergaminhos de Qumran e se, numa caverna escondida algures na costa noroeste do mar Morto, não existirão mais pergaminhos enterrados na areia, à espera de serem descobertos.

Fonte: Livro «História Oculta» de Brian Haughton

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